segunda-feira, novembro 26, 2007

Os samaritanos

Quase toda a gente já ouviu falar dos samaritanos (nem que seja do “bom samaritano”). Quando Salomão morreu, o seu reino dividiu-se entre um reino a sul (Judá) e outro a norte (Israel). O do norte farto do que poderíamos chamar o centralismo de Judá e da sua capital Jerusalém, recusava até reconhecer esta cidade como cidade Santa. Os assírios entretanto apareceram, destruíram o seu reino e deportaram uma parte dos habitantes. Alguns colonos assírios foram aí estabelecidos, mas segundo os samaritanos seriam poucos e prontamente assimilados, sem contributos culturais ou religiosos; em compensação os Judeus pretenderam que os samaritanos seriam descendentes desses mesmo colonos, uma nova população com outros deuses que misturando-se acabariam por criar um povo mestiço e religião sincrética.
De qualquer modo, os samaritanos tinham um Templo próprio rival de Jerusalém (no monte Guerezim). Nos séculos seguintes, acabaram por ver a sua sorte ser muito variável: perseguidos pelos judeus, mal tolerados pelos romanos, quase exterminados pelos bizantinos, conseguiram sobreviver até ao século XX, reduzidos a menos de um milhar.
Não são considerados verdadeiros judeus pelos grupos de Judeus mais ortodoxos(e eles devolvem o cumprimento, considerando que eles é que são os verdadeiros seguidores da antiga religião). Para um leigo, são praticamente indistinguíveis: circuncidam-se, reverenciam a Torá, tem os mesmo mandamentos, e a maioria das crenças são as mesma. Mantém no entanto um sacerdócio hereditário (descendentes dos antigos sacerdotes do Velho Testamento), recusam todos os outros livros sagrados para os judeus (como o Talmud), ainda praticam os sacrifícios de animais; acabam por ser bastante arcaicos (o judaísmo é praticamente resultado das transformações dos rabinos depois da destruição do segundo Templo de Jerusalém).

quarta-feira, setembro 19, 2007

Iron Hearts, Iron Hulls

Este livro trata da participação blindada italiana na guerra do norte de Africa. Ora o capítulo mais interessante é o primeiro que fala sobre a itália dos anos 20 e 30.
Sendo um país recente, não possuía colónias e quando tentou conquistar territórios só lhe restava zonas marginais. Quando rebentou a primeira guerra mundial, embora tivesse excelentes relações com a Alemanha, a sua rivalidade com o império austro-hungaro e as promessas dos aliados, fez a Itália balançar para este campo. Terminada a guerra, a Itália recebeu menos do que lhe foi prometido, além de estar numa situação de crise. O seu parque industrial era inferior às outras potências industriais europeias, não possuía combustíveis nem matérias-primas (carvão, petróleo, ferro), tendo de importar tudo.
O fascismo nos anos 20 esteve demasiado ocupado em adquirir o controle do país, para se lançar em expedições.
Entretanto, decidiram criar uma força blindada (que era vista como a arma do futuro) e foram construídos milhares de tanques ligeiros e extremamente ágeis.
Nos anos 30, com o aparecimento de outros regimes nacionalistas, a Itália pôde lançar-se em aventuras externas sem perigos de retaliação. Na Etiópia, e em Espanha utilizou os seus tanques como arma fulcral (apesar de algumas derrotas estrondosas acabaram por se sair bem) e do ponto de vista táctico acabaram por chegar às mesmas conclusões que os alemães: os tanques deviam ser utilizados em grandes formações e sempre apoiados por infantaria, artilharia e aviação, e nunca enviados isolados (como fariam os ingleses) ou mero suporte da infantaria (como os franceses); só assim conseguiriam os seus tanques extremamente ligeiros e rápidos (ideais no seu impérios colonial).Por outro lado, o seu novo império colonial era composto por territórios atrasados, que não lhe davam riquezas e ainda exigiam despesas (que para a construção de infra-estruturas, quer de tropas de defesa).
Entretanto, os italianos aperceberam-se que os seus tanques apesar de bons para os seus domínios coloniais (por serem muito rápidos e deslocarem-se em grandes distâncias) como o Fiat L3 e L11, contra outros europeus estavam a ficar ultrapassados e decidiram construir outros; mas os elevados custos, a desorganização e sobretudo a resistência em deitar fora milhares de tanques que tanto tinham custado à Itália construir, impediram essa modernização ser levada a cabo de forma rápida.
Entretanto, Mussolini que desconfiava de Hitler, acabou por se deixar atrair por uma coligação por este, dada as promessas que lhe eram feitas formando o Eixo, mas sem se comprometer a uma guerra (o que o tornou muito popular no seu país, e admirado pelos seus supostos adversários). De facto Mussolini sabia que a Itália não estava preparada para a guerra moderna, e o plano de rearmamento só estaria pronto (na melhor das hipóteses) em 1943.
Com a campanha fulgurante de Hitler em França, Mussolini decidiu arriscar e declarou guerra aos aliados (perdendo o dinheiros dos turistas e divisas congeladas nesses países).
O plano de ataque à Grécia foi mal concebido e pior executado (para começar, a Itália atacou com menos efectivos do que dispunham os gregos, num território desconhecido), e não ter perdido a Albânia foi uma sorte; os alemães acabaram por resolver a situação.
Para o mau desempenho das tropas italianas contribuiu o facto do governo dar provas de oportunismo político, arranjando inimigos conforme as ocasiões, o que fazia com que os soldados não conseguissem entusiasmar-se pelo combate. As tropas não recebiam qualquer treino de combate com fogo real (as munições e combustível eram caros), de modo que muitos oficiais e soldados disparavam pela primeira vez na vida quando entravam em combate (e os mais velhos tinham-no feito só na grande guerra).
Os capítulos seguintes tratam dos combates no norte de africa. Os italianos a partir da Líbia atacaram com o objectivo de conquistar o Egipto. O momento era perfeito (os ingleses tinham enviado as suas melhores tropas para a Grécia) e a fraqueza dos tanques italianos era compensada pela superioridade numérica e conseguiram chegar à fronteira. Só que aí, o comandante italiano (Grazianni) decidiu parar para não entrar numa guerra de atricção (apesar de ter uma vantagem numérica de homens de 1 para 10); apesar de Mussolini lhe exigir que avançasse, não o fez. Quando os ingleses foram reforçados, contra-atacaram. E levaram tudo pela frente; destruíram os tanques italianos e anti-tanques (havia anti-tanques que disparavam a poucas dezenas de metros tiros directos, sem consequências para os carros ingleses). Quando tudo parecia perdido, Hitler enviou Rommel, que reverteu a situação.
Ora o autor indica que a modernização das forças italianas começaram também a dar os seus frutos na época de Rommel; começaram a ser enviados tanques com verdadeiros canhões (de 47 mm) como o M13/40 em grandes quantidades e não a conta-gotas. Apesar de terem pior blindagem e armamento que os seus equivalentes os italianos passaram a utilizar um recurso eficaz: avançar o mais depressa possível para ao adversário, anulando essas vantagens e beneficiando do apoio inter-armas. Mais tarde outros tanques ainda melhores (mas sempre piores que os dos seus adversários) foram sendo enviados.
Apesar da performance das divisões italianas ser muito inferior às suas congéneres alemãs, acabaram por ser melhor do que lhe é atribuído; o seu ratio de perdas/danos foi igual à dos seus adversários (mesmo quando estes já dispunham de Shermans e os italianos ainda combatiam com M13/40). Para isso contribuiu quer as tácticas já indicadas, a superior experiência das suas tripulações (que combatiam sem parar ao contrário das aliadas, que eram substituídas), o uso de ataques de flanco, camuflagem e serviços de informação que por vezes eram superiores aos alemães.
O autor considera que as forças italianas no período de Rommel (que os aproveitou ao máximo, permitindo quer tivessem resultados muito melhores do que com o seu próprio comando) e portaram-se muito bem dadas as circunstâncias, e não poderiam ter feito mais. Mas que o governo italiano esse sim, poderia ter feito as coisas de forma diferente. Concentrando os seus recursos no norte de Africa, em vez de enviar centenas de milhares de homens e centenas de tanques e aviões para a Rússia, onde nada contribuíram; a apoiar Rommel, poderiam ter alterado o resultado da campanha do médio oriente (mas não da guerra em si, já que a sorte se jogou na frente de leste).

segunda-feira, agosto 20, 2007

Guns, Germs and steel-VI
Num outro capítulo, é-nos apresentada uma verdadeira surpresa (mais uma de várias): ficamos a saber que a africa subsariana era na maioria povoada não pelos actuais africanos mas por pigmeus e Khoisian (são de pele negra mas as semelhanças ficam-se por aqui, já que a aparência e cultura são muito diferentes)), e quem sabe por outros grupos culturais que desapareceram. Entretanto um grupo, os nigerio-congo que são os antepassados dos modernos africanos sub-sarianos por razões variadas (demográficas, técnicas, enfim o costume) espalhou-se e foi absorvendo/conquistando/fundindo-se (conforme as situações) com as populações pré-existentes (embora ainda sobrevivam outras populações, com outras línguas em zonas diferentes, mas em situação claramente minoritária). O mesmo que se passara na Europa. O norte e leste de africa continuou a ser povoado por falantes de línguas africano-semitas, e Madagáscar por austranésios que tinham aí chegado na altura da sua expansão.
O resto do livro acaba por ser um resumo da obra.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Guns, Germs and Steel-V

Um outro capítulo interessante é o de “como os chineses se tornaram chineses”. Aí ficamos a saber que todo o sudeste asiático e ilhas até à Oceânia eram até há uns 10000 anos atrás povoados por povos de tez mais escura (que se podem considerar aparentados aos indígenas da Papua Nova Guiné e austrália). Chamemos-lhes aborígenes. A arqueologia indica que viviam da caça e recolecção, em grupos de pequena dimensão.
Há uns milhares de anos atrás (cerca de 4000 antes de Cristo? Talvez antes?), grupos de asiáticos (que vamos chamar de austronésios que são os antepassados dos Filipinos, indonésios e polinésios) vindos do sul da china espalharam-se lentamente pelo sudeste asiático e ilhas. Como já tinham a agricultura, domesticação de alguns animais e ferramentas mais desenvolvidas, movimentavam-se em grupos maiores e assim puderam absorver/destruir parte dos povos aborígenes que foram encontrando. Entretanto outros grupos como os austroasiaticos (que inclui os Khmers e vietnamitas), os Thai e muitos outros vindos do norte da china (que falavam diversas línguas não aparentadas entre si) ainda mais desenvolvidos espalharam-se também pelo sul da China e conseguiram absorver/destruir os austronésios que encontraram. Por sua vez, um outro grupo no norte da China que podemos chamar de chineses propriamente ditos, começaram a criar estado organizados, desenvolvendo armas de bronze e depois ferro, criaram cavalos, desenvolveram a escrita, cidades, fortalezas, cortes, enfim tudo o que associamos à china, começaram depois de 1000 AC a conquistar o sul da China. Esses diversos reinos Chineses descreviam os do sul (constituídos por austronésios/asiáticos) como selvagens que viviam primitivamente, tatuavam-se e não tinham estados organizados. Os austronésios acabaram por desaparecer na China e sudeste asiático (no sul da china os austronésios foram absorvidos culturalmente, mas do ponto de vista físico deixaram marcas, havendo uma diferença entre os habitante do norte e sul da china, resultando da fusão de chineses do norte com austronésios, austroasiaticos e outros) e só conseguiram sobreviver nas ilhas da Ásia e oceânia (numa vasta área, que vai de Taiwan até à ilha da Páscoa, passando por Madagáscar); os austroasiaticos e afins espalharam-se pelo sudeste asiático onde ainda vivem actualmente.

E os aborígenes? Alguns conseguiram sobreviver na Malásia e Filipinas em pequenos grupos, na Nova Guiné (onde são a maioria) e na Austrália (onde são uma minoria, mas aqui o problema foi a colonização branca).

quinta-feira, agosto 02, 2007

A História de Genji-final

Terminei este verão a leitura do romance "A história de Genji", que vou resumir agora.
A mulher que dá um filho a Genji (a jovem Akashi), tem como principal dote saber usar o Koto (uma espécie de guitarra) de forma exímia; o mesmo com sawflower. Murasaki não tem qualquer capacidade especial (por culpa de Genji que reconhece que falhou na sua educação) mas é bonita.
Quando chega a vez de escolher uma nova imperatriz, é feito um concurso de pintura, em que facções rivais se disputam (cada facção tem de num prazo limitado perante uma assembleia de pintar temas de livre escolha); a facção vencedora é a de Genji (contra Tono) e é a filha de Genji (a jovem Akashi) que é escolhida como nova imperatriz. Aliás, a avó materna da jovem Akashi é considerada um paradigma da sorte: mulher de um vice-governador sem importância, tornou-se monja juntamente com o marido numa zona longínqua, sem perspectivas para a filha, quando esta se torna concubina da pessoa mais poderosa do país, e eles acabam por tornar-se avós de uma imperatriz e bisavós de príncipes imperiais.
Outras amadas de Genji sabem bem escrever quer na forma (a caligrafia em si é uma arte para os japoneses), quer no conteúdo (as missivas nunca são feitas descrevendo algo directamente, mas sempre com recurso a poemas, que são extremamente crípticos para ocidentais).
A vida de Genji segue como sempre: festas, concursos de poesia, de caligrafia e pintura e um ocasional flirtanço. Até que o seu irmão o imperador retirado Suzuku que tem uma especial predilecção por uma das filhas (a terceira princesa) e decide arranjar-lhe um marido. O problema é quem? Como a sua mãe não era uma pessoa importante, não haveria ninguém na corte para apoia-la. Mesmo assim vários candidatos apresentam-se imediatamente, nomeadamente um dos filhos de Tono (Kashiwaga), mas Suzuku decide convencer o seu irmão a Genji a casar com ela. Genji sabe que isso irá desagradar a Murasaki (afinal uma princesa imperial tem sempre estatuto e poderia servir de rival) mas decide seguir em frente e casar com a sobrinha. Murasaki mantém as aparências e faz boa cara, mas as restantes esposas de Genji não são tão amáveis, pois devem muito a Murasaki e ignoram como será a nova esposa. Esta acaba por viver em semi-reclusão de algum modo infeliz. E é aí que entra em jogo Kashiwaga: este que acabara por casar com uma irmã da terceira princesa (a segunda princesa) como prémio de consolação, mas não a esquece e depois de várias artimanhas, consegue entrar no palácio de Genji e viola-a. Ela nada pode dizer, pois mesmo forçada ficará mal vista; ele sente remorsos (por ter enganado Genji, não pela violação), escreve-lhe e essa correspondência acaba por cair nas mãos de Genji (que fica espantado por os textos serem tão directos e comprometedores, coisa que ele nunca fazia). Embora desagradado, quer acima de tudo manter as aparências (o escândalo danificaria as suas relações com os Fujiwara e o Suzuku) e embora nasça uma criança, ele acaba por se ligar ao bebé. Ele acaba por encarar toda a situação com fatalidade, pois relembra-se do que sucedera anos antes com Fujitsubo.
A acção vai a partir daí passar de Genji para outras personagens (que entra na sombra e torna-se cada vez mais melancólico, sobretudo depois da morte de Murasaki): Kashiwaga, Yugiri e outros da geração seguinte, em diversos capítulos, até que Genji morre.
Kashiwaga morrera de depressão, e Yugiri que fora seu amigo (e acabar por descobrir a história do amigo), apoia a viúva do amigo; com o tempo apoia-a financeiramente, mas portando-se sempre de forma impecável, não levantando a mínima suspeita; um dia tenta violá-la, mas ela corre depressa e fecha-se num quarto. Ele não se demove e consegue que ela fique isolada de amigos sendo obrigada a viver como sua concubina (com a aprovação da família de Tono, que tem menos um encargo financeiro com que se preocupar).
Esta nova geração é nas aparências menos estouvada do que a precedente, e sendo menos glamorosa, tem de recorrer a diversas artimanhas para conseguir conquistaras as mulheres, mas são também personagens mais realistas e menos idealizadas.
Passam diversos anos e seguem-se as aventuras do suposto filho de Genji (Kaoru) e o neto Niou (que é príncipe imperial). Estes são amigos e descobrem que um outro príncipe irmão de Genji vive retirado na pobreza (de acordo com os seus padrões) e como descobrem que são bonitas e tocam bem o koto, tentam convencer o príncipe a dar-lhes as filhas em casamento (partilhando-as entre si por acordo), mas ele morre sem consentir.
Niou viola uma delas (casando mais tarde com ela) e a outra morre de depressão. Kaoru que fica desgostoso pela morte da jovem que lhe estava destinado e apaixona-se pela jovem que ficara com o seu amigo; como estabelecer relações com ela é complicado, acaba por descobrir uma terceira irmã (não reconhecida), que vive na província. Ele tenta casar com ela, leva-a para uma casa, mas Niou interessa-se por ela e ela dividida entre dois amores (acabando por fazer amor com Niou sem grandes alternativas, quando Kaoru nunca a obrigara a nada) atira-se ao rio. Ambos os amigos ficam desgostosos, mas descobre-se mais tarde que a jovem sobreviveu e fica a viver num mosteiro. Kaoru tenta que ela volte para ele mas ela recusa e assim termina a história.

sexta-feira, junho 01, 2007

Guns, Germs and Steel-IV

Como o João Moutinho referiu, o facto de a eurasia se estender em milhares de kilómetros de oeste a este, foi outra vantagem. As plantas podiam ser transportadas na mesma latitude e espalhar-se sem problemas de adaptação por extensas zonas. Ora na américa isso é impossível: uma planta ou animal criado nos andes, um pouco mais a norte onde o clima é muito mais quente, demoraria extenso tempo a adaptar-se; uma planta cultivada na california não se poderia ser cultivada a lestem pois aí o clima é desertico e os povos aí existentes não lhe dariam qualquer uso; deste modo nunca a passariam para os povos que estavam a leste em zonas mais férteis, que teriam de aprender por sua própria conta. Este isolamente devido aos climas e diferenças geogáficas, reduzia mais a possibilidade de evolução, pois cada zona tinha de inventar tudo, sem beneficiar das descobertas de outros povos.
Algo semelhante se passou com a escrita: na eurásia foi inventada pelo menos pelos sumérios, egipcios (embora o egipto faça parte de africa, tal como o norte de africa, forma uma zona distinta do centro e sul), Índia e China. Todas estas zonas tinham a particularidade de terem sociedades fortemente hierarquizadas, com parte da população que não se dedicava a funções produtivas do sector primário (artesãos, funcionários, nobres, sacerdotes); as necessidades administrativas obrigaram a inventar sistemas de registo que partindo de formas muito simples (um símbolo fácil de de compreender traduzia uma palavra ou ideia), que se foram tornando mais abstractos. Esses sistemas foram difundidos, copiados, alterados e simplificados ou complicados conforme os povos por onde se espalhavam. Na américa a escrita foi inventada pelos olmecas no actual méxico, e de uma maneira ou de outra foi sendo transmitida até aos aztecas na zona da américa central; em nenhuma outra zona da américa foi inventada a escrita, dado que os povos que rodeiavam a meso-américa viviam em sistemas políticos mais simples que não necessitavam da escrita ou tendo culturas mais sofisticas, não beneficiaram do conhecimento de outros devido ao seu isolamento (ao contrário do que sucedeu na eurásia). Apenas os incas utilizaram um sistema de registar dados através de fios (os Quipus), mas cujo funcionamento é ainda um mistério.

segunda-feira, abril 23, 2007

Guns, germs and steel-III

Bem, no livro Guns, Germs and Steel, o autor foca nos capítulos seguintes a importância da distribuição geográfica de animais e plantas passíveis de serem facilmente domesticados: a zona do crescente fértil por estar numa zona central da eurásia (que é uma massa de terra enorme) estava em vantagem em relação a outras zonas de clima semelhante noutras zonas do globo, pois teria forçosamente maior diversidade e quantidade de plantas/animais (por exemplo, o milho que é das plantas mais conhecidas, demorou milhares de anos a conseguir crescer de forma a tornar-se aceitável para se tornar a planta principal de cultivo dos índios, que tiveram de cultivar outras coisas antes em regime semi-nómada; no crescente fértil, os primeiros agricultores tinham logo acesso a trigo, centeio e cevada que lhes dava elevado rendimento (quer em quantidade quer a nível nutricional) e permitiu dar o salto rápido. O mesmo se passava com os animais: o lama, o único animal de maior porte domesticável nos andes não se compara em força a um boi ou um cavalo o que impedia o trabalho de muitas das terras (e respectivo crescimento populacional); no crescente fértil também existia um grande número de animais disponíveis para servir de alimento (porco, vaca, galinha, vaca, ovelha) que fornecem um maior número de proteínas. Só esses factores garantiam que a zona do crescente fértil ( e civilizações por ela influenciadas) possuía uma vantagem de milhares de anos no desenvolvimento civilizacional (o que quer dizer que os habitantes do Peru ou da Nova Guiné, poderiam ter chegado ao nível das civilizações do ocidente ou algo equivalente, desde que lhes dessem mais alguns milhares de anos suplementares). E o autor recusa que os habitantes da eurásia fossem culturalmente mais disponíveis à mudança que os de outras zonas: os índios usaram imediatamente o cavalo assim que puderam, os africanos sub-saharianos o gado bovino quando puderam: se eles não domesticaram nenhuma espécie indígena, foi porque nem todas espécies de animais em estado selvagem podem ser domesticados como espécie (uma coisa é transformar uma hiena individual em bicho de estimação, outra é tentar transformá-lo num substituto do cão, coisa que não resulta).

quarta-feira, abril 04, 2007

Como destruír os amigos e ajudar os inimigos

Quando os franceses se estabeleceram na américa do norte, eles utilizaram métodos muito diferentes dos espanhois. Eles decidiram que os indios iriam ser integrados como franceses, não devendo demorar muito tempo, dado que consideravam que os indígenas iriam receber de braços abertos uma civilização tão superior; como o objectivo era assimilá-los, não fazia sentido, conquistar/confiscar as terras. Mas as coisas não correram como previsto...
Em meados do séc. XVII os franceses escolheram determinadas tribos como parceiros privilegiados para o comércio (sobretudo os hurons), e enviaram grupos de Jesuitas para os converter. Mas rapidamente entraram em conflito com os xamãs locais; os Jesuitas pretendiam que os novos convertidos deixassem as tribos e vivessem como os brancos (deixando em participar em todas as cerimónias vistas como pagãs, mas que serviam para solidificar os laços tribais); isso irritou os chefes locais; a política de casamentos entre franceses e índias não deu grandes frutos, dado que as índias só se casavam quando o marido estava em condições de as sustentar pela caça, e os franceses dedicavam-se ao comércio o que os tornava dependentes dos índios para o fornecimento de víveres. Quando se começaram a propagar diversas doenças, a que acrescido das divisões entre assimilados e não assimilados, os iroqueses (inimigos de hurons e franceses) aproveitaram para atacar, não podendo os franceses que eram em escasso número ajudar os seus aliados que foram destroçados. Na segunda metade do séc. XVII, os franceses repetiram a mesma política de ajuda a outra tribo, a dos Ilinois, com o mesmo resultado. Os franceses decidiram então mudar de táctica, e passaram a usar as suas forças em pequenos grupos de guerrilha que atacavam de surpresa os iroqueses até que estes foram obrigados a pedir paz e estabeleceram-se novas relações.

terça-feira, março 13, 2007

Diferenças

Os capacetes franceses usados em 1940 tinham um design feito pelos melhores artistas da época. Os capacetes alemães tinham sido concebidos por médicos para limitar os danos. Toda a diferença entre os 2 exércitos (e resultados em batalha) resumem-se bastante bem aqui.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Guns, germs and steel-II

Os capítulos seguintes do livro são dedicados à agricultura. Para esta começar, são necessárias determinadas condições (a existência de plantas adequadas ao cultivo, de um solo fácil de plantar com ferramentas rudimentares e climas favoráveis), que se encontraram junto a grandes rios em zonas tropicais ou sub-tropicais: Egipto, Mesopotânia, China, Índia, México. Mas o autor depois coloca uma questão: não tendo os bandos de caçadores recolectores qualquer experiência sobre o assunto, o que os levaria a desistir da sua vida nómada e andar a fazer experiências?
São apresentados diversos exemplos de economia intermédia, ainda actualmente existentes. Existem povos, que ao verem as plantas crescerem, tratam delas, eliminam ervas daninhas, adubam-nas, mas não as plantam; outros que se limitam a plantar mas nada mais fazem até à altura da colheita, podendo residir aí, ou continuar com as suas deambulações. Diversos povos nómadas devem ter começado a recorrer a uma proto-agricultura que se limitava a ser mais um elemento da sua dieta. Depois poderão ter sucedido duas coisas diferentes que justifiquem um aumento da população: ou devido à abundância de alimentos própria do paleolítico superior/inícios do neolítico a população foi aumentando até que provocando uma diminuição da fauna selvagens o homem teve de recorrer cada vez mais à agricultura não podendo voltar ao seu estilo de vida anterior, ou pelo contrário, o uso da agricultura possibilitou logo um aumento da população (devido à disponibilização de maior quantidade segura de alimentos). Ou seja, na hipótese um, deu-se primeiro um aumento da população e a agricultura foi a solução adoptada para manter o nível populacional, na segunda hipótese foi a própria agricultura que possibilitou esse aumento.
A agricultura em relação à caça-recolecção tem vantagens e desvantagens. A área utilizada para cultivo é muito menor do que a necessária para andar a recolher plantas e animais selvagens, possibilitando um enorme crescimento populacional; as mães também podem ter filhos a um ritmo superior (para nómadas, só é possível ter um novo filho, quando o anterior já andar e se desenrascar razoavelmente); com um maior número de pessoas e de reserva de alimentos é possível a criação de profissões especializadas que criarão novas ferramentas mais sofisticadas (artesãos) e a existência de classes não produtivas (nomeadamente comerciantes, escribas, sacerdotes e nobres) e a criação de reservas de alimentos para os maus anos. Em compensação, o número de horas destinadas ao trabalho agrícola é muito superior, a excessiva especialidade de produção de alimentos pode conduzir a dificuldades no caso de uma má colheita.
Ora se os povos agrícolas ficam em vantagem competitiva contra os caçadores-recolectores (que desaparecem, são integrados na nova economia ou ficam reduzidos a zonas isoladas), o mesmo não se passa com os povos que se dedicam à criação de gado; não atingindo um nível de sofisticação tão elevado como os agricultores, conseguem ter as vantagens de ambos os povos (mobilidade, diversidade de dieta, relativa especialização da sociedade reserva de alimentos); desde que o seu gado não seja atingido, se houver dificuldade só se tem de mudar. Dado o seu tipo de vida, estão normalmente bem adaptados a conflitos, sendo toda a população mobilizável. No entanto costumam estar divididos entre tribos que entram em conflito entre si, e apesar de alguns conquistadores bem sucedidos (Atila e Gengis Khan são os mais famosos), na maioria das vezes não tem hipóteses de conquistar os povos sedentários que possuem efectivos muito superiores (a não ser que estes estejam também divididos e enfraquecidos por epidemias e guerras).

quarta-feira, janeiro 03, 2007

O fim

O imperador Sun Hao (242-284) da dinastia Wu, subiu ao trono depois de um golpe que afastou do trono o legítimo herdeiro do trono, um primo que era ainda criança. Dos vários reinos em que a China poucos anos antes estava dividida, todos tinham sido conquistados sucessivamente pelos Jin; Sun Hao sabia que era apenas uma questão de tempo até chegar a sua vez. E então decidiu viver como quem não tinha amanhã: um dos seus ministros criticou-o porque enquanto que os seus antecessores tinham haréns de pouco menos de 100 mulheres (o que era razoável), Sun tinha um harém de 1000 (mais a respectiva criadagem e eunucos para tomar conta de isso tudo).
Para arranjar dinheiro os impostos tiveram de ser aumentados, levando a revoltas e execuções em massa para "acalmar" a situação. O inevitável sucedeu, e os Jin conquistaram os Wu. Mas os Jin foram miseriordiosos: Sun Hao tal como os restantes soberanos derrotados pelos Jin, recebeu um pequeno território para governar como súbdito da nova dinastia.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Etheocretenses

Herodoto no seu livro VII e Estrabão no livro 10 referem os ethocretenses (verdadeiros cretenses). Eram apresentados como os habitantes originais da ilha de Creta (vivendo no séc. V AC unicamente no interior da ilha), falando uma língua que não era grega. Ora descobertas arqueológicas no séc. XX mostraram inscrições na zona onde tinham vivido os ethocretenses utilizando o alfabeto grego, mas numa língua não indo-europeia (ainda não decifrada). A teoria que tem mais aceitação é de que os ethocretenses seriam descendentes dos construtores de palácios do período minoico e que se teriam refugiado no interior por altura das invasões dóricas; aí teriam sobrevivido mantendo uma cultura cada vez mais helenizada (mas mantendo traços originais e a língua própria), até que se teriam extinto no início do período romano.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Línguas semitas

As línguas semitas fazem parte de um grupo mais vasto, aparentado com línguas da Africa oriental (desse grupo fazia parte o antigo egípcio). Desconhece-se de onde vieram os semitas (Ásia? Africa?). A partir do 3º milénio, foram lentamente aparecendo diversos povos na mesopotâmia (povoada anteriormente pelos sumérios de origem desconhecida) que falavam línguas semitas: os amorreus, os acádios, só para citar alguns dos mais importantes. Lentamente o acádico foi substituindo todas as línguas que aí existiam, até que por sua vez os aramaicos surgiram e acabaram por impor a sua língua (estes processos deram-se numa uma lenta aculturação feita a partir das elites e não propriamente por imposição pelo uso das armas).
O aramaico entretanto foi-se expandindo até se tornar a língua mais falada no médio oriente (até ao período árabe), desde a fronteira egípcia até territórios dominados pelos persas. Obviamente uma língua falada num período tão vasto (1500 aC até 700 dC)e em zonas tão dispares tinha de sofrer modificações, de modo que o aramaico se dividiu em diversas línguas (de que sobreviveram algumas ainda actualmente). Não foi afectado pelo grego, nunca tendo os soberanos helenísticos ou romanos conseguido substituir a língua.
Outra língua semita é o árabe: de facto, existiam diversas línguas e dialectos árabes mas uma delas por ser a língua em que foi registado o corão (o chamado árabe clássico) conseguiu impor-se e levou à quase extinção das outras. Com a conquista muculmana, o árabe acabou por substituíro aramaico como língua falada pela maioria dos habitantes do médio oriente, conseguindo-se expandir para além dessa área. Apesar das diferenças regionais que acabaram por surgir, a existência de um livro sagrado de gramática fixa de leitura obrigatória (nem que seja para as classes cultas), consegue manter uma certa inteligibilidade entre as variantes do árabe dos vários países (fenómeno que não se deu com o latim). Acabou por dar origem a outras línguas como o maltês (ou deixar uma marca profunda nomeadamente nas línguass da península ibérica ou na Sicília).
O hebraico é uma língua semita aparentada com o fenício. Impôs-se por volta do ano 1000 aC na palestina, mas as guerras e deportações com os assírios/babilónios levou a que a língua fosse lentamente substituída pelo aramaico (sobrevivendo como língua litúrgica e influenciando as línguas faladas pelos judeus, quaisquer que fossem). Só foi recuperada como língua oficial de um estado no século XX com Israel.
Uma menção especial para o fenício: este povo de mercadores criou o primeiro alfabeto e conseguiu que a sua língua sobrevivesse até à conquista árabe.
Ainda existem diversas línguas semitas no chamado "corno de AFrica" que são faladas por milhões de pessoas.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Guns, germs and steel-I

Ofereceram-me este natal o livro “Guns, Germs, and Steel”. Foi escrito por um biólogo (entre outras coisas) que decidiu investigar sobre as razões do sucesso da civilização ocidental (Europa e EUA). A sua abordagem é original: em vez de estudar os europeus, estuda todos os povos não europeus para chegar a conclusões. Ainda vou no início do livro, mas vou já apresentar algumas ideias (o que estiver a negrito é meu).
O autor dá uma enorme importância aos factores geográficos que condicionam (quase que diria que determinam) as hipóteses de sucesso de um povo criar uma civilização tecnologicamente avançada (leia-se: fortemente hierarquizada, com agricultura e criando máquinas). Outro factor que ele considera é o do tempo de colonização: um território povoado há mais tempo terá na teoria uma vantagem por ter um maior número de pessoas que possibilitarão mais inovações (só que isso só se aplica depois da descoberta/invenção da agricultura há cerca de 11.000 anos, anteriormente o uso da caça recolecção por todos os povos garantia uma certa igualdade de condições).
Examinando os continentes, a Austrália estava em clara desvantagem: tendo uma massa de território pequeno, ainda por cima a maioria é deserto, suportando uma população ínfima. A Africa estava em vantagem: possui uma maior massa e um povoamento muito anterior (sendo o berço da humanidade). Simplesmente o sul do sahara estava quase isolado dificultando a transmissão de inovações, e os vários acidentes geográficos (rios e florestas quase intransponíveis levavam a que quaisquer reinos que se fundassem não pudessem expandir-se muito ou entrar em contacto em sí, impedindo também a transmissão de conhecimentos).
A América tendo uma clara massa maior (mais do dobro) estava em vantagem devido à possibilidade da formação de várias civilizações. Nesse aspecto a eurásia é a que possui mais vantagens: a sua vastidão é tão grande (além de ainda estar em contacto com o norte de africa) que obrigatoriamente teria um maior número de pessoas. Possuía outra notável vantagem: em climas tão diferentes, tinha diferentes espécies de animais que poderiam ser domesticados quando fosse inventada a agriculta e que estando familiarizados com o homem fugiam-lhe para evitar ser caçados no paleolítico até que no neolítico o homem recorreu a eles aumentando a sua força de trabalho, (enquanto que na América e Oceânia, todos os animais de grande porte passíveis de domesticação foram rapidamente exterminados provavelmente pelos humanos assim que estes apareceram, dado que não conhecendo o homem não tinham técnicas de fuga); assim mal começou o neolítico, mesmo que diferentes continentes tivessem a agricultura, já existiam povos em clara vantagem em relação a outros (mesmo que isso não fosse visível de imediato).
Em seguida o autor estuda a Oceânia. Vemos como os povos polinésios (de origem comum, agricultores com alguma estratificação social) povoaram uma extensão de ilhas que se estendia por vários milhares de km. Tendo enfrentado meios muito diferentes, tiveram de se adaptar. Nas ilhas Chathan (sul da Nova-Zelândia) tendo um clima sub-artico tiveram de reverter para a caça-recolecção; tendo um povoamento muito esparso de poucas dezenas de pessoas por grupo, os moriori recorriam a negociações para resolver as disputas entre grupos. No outro extremo os maoris da nova-zelândia, tendo agricultura e uma sociedade fortemente hierarquizada usavam a guerra como meio de resolução de conflitos (e em 1830 uma frota de canoas maoris atacou e conquistou os morioris, liquidando a sua identidade como povo independente, actualmente apenas existem descendentes mistos). No Havai formaram-se mesmo pequenos impérios que se estendiam por ilhas a centenas de km umas das outras, tendo a maioria da população que se dedicava à agricultura intensiva, possuindo artesãos especializados, castas de sacerdotes, chefes e guerreiros hereditários, e construindo grandes monumentos funerários, o que os assemelhava aos impérios da antiguidade. Não possuíam a escrita (mas que se poderia ter vindo a desenvolver) e não tinham o acesso a metais (utilizando outros substitutos de pedra); simplesmente a tardia colonização e desenvolvimento desses estados na Oceânia (depois de 500) levou à sua fácil conquista pelos países da Europa que já tinham vários milhares de anos de avanço (a um ritmo bem mais lento).
Finalmente, é apresentada a conquista do México e do Peru pelos espanhóis: porque é que grupos constituídos por poucas centenas de homens conseguiram conquistar impérios tão vastos? A resposta aqui é mais tradicional. O Peru sofrera uma guerra civil, os aztecas estavam à espera de um deus, os espanhóis tinham armas muito mais avançadas (aço e cavalos). Mas outro factor é também importante: nenhum dos soberanos indígenas acreditava que pudessem ser derrotados por exércitos tão minúsculos, de modo que se apresentaram em pessoa perante os conquistadores; estes pelo contrário tinham na sua bagagem cultural histórias de pequenos exércitos que venciam hordas inumeráveis e arriscaram. Existia assim uma diferença do maior número de experiências e contactos entre povos diferentes que dava aos espanhóis um maior leque de soluções.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

quinta-feira, dezembro 21, 2006

A dança macabra




O comet’inganni
Se pensi che gl’anni
Non hann’da finire,
Bisogna morire

(Como estás enganado
Se pensas que os anos
Não vão terminar
É preciso morrer)

É com estas palavras que começa a canção “homo fugit velut umbra”, uma dança macabra anónima do séc. XVII.
Com todo o cortejo de desgraças que se deram no séc. XIV (epidemias, guerras, fomes), desenvolveu-se um intenso pessimismo. A dança da morte era uma alegoria que tratava da inevitabilidade da morte: fossem ricos, pobres, bons, maus, a todos no final ela estava reservada. Tendo diversas representações gráficas, as mais comuns era a de pessoas de todos os quadrantes da sociedade (jovens, belos, idosos, nobres, mendigos) a dançar numa roda com esqueletos.
As imagens aproveitavam para mostrar a futilidade da vida e do apego aos bens e glórias terrestres, devendo-se sobretudo obter bens espirituais (formando um maior contraste com a procura desesperada dos gozos terrenos de que as pessoas representadas pareciam tentar obter).
Eram pintados frescos, esculpidos relevos e compostas músicas com este tema.
Ao longo do séc. XVII e XVIII, este género artístico iria ser progressivamente esquecido, sendo recuperado por vários músicos no séc. XIX (uma das músicas mais famosas seria a de Camille Saint-Saens) e XX.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Filipe IV

Há alguns anos atrás li esta história que se passou no reinado de Filipe IV (III de Portugal). Todos já vimos filmes sobre piratas a assaltar barcos espanhóis, mas o que é menos conhecido, é que existia também corso do lado espanhol (sobretudo da Cantábria). Muitos católicos da Holanda fugiam para os países baixos espanhóis e colocavam-se ao serviço dos reis espanhóis. Foi o caso de um jovem que se alistou como simples grumete. Com o passar dos anos foi sendo promovido até comandar uma pequena frota que fazia a vida negra aos seus ex-compatriotas. Ora depois de uma infeliz expedição (apanhou mau tempo e acabou aprisionado, a Coroa espanhola foi imediatamente resgata-lo pagando por ele e pelos seus marinheiros uma pequena fortuna (com os protestos dos negociantes holandeses que queriam que as suas autoridades os deixassem apodrecer nas prisões), tal era a importância estratégica que lhe era reconhecida. Uns anos depois esse marinheiro foi a Espanha numa missão. Filipe IV mandou imediatamente que ele fosse à corte pois queria conhece-lo: ele tinha uma enorme admiração por esses marinheiros que o serviam e levavam vidas aventureiras. Quis dar-lhe uma das ordens (creio que era a de Santiago), e perante os protestos das comissões que diziam que não havia possibilidade de comprovar a sua pureza de sangue (eram necessários papéis comprovativos vindos da Holanda, o que era impossível dado o estado de guerra), Filipe IV arranjou uma série de testemunhas abonatórias da pureza da fé do velho marinheiro, tendo-lhe depois arranjado um lugar num conselho consultivo sobre os assuntos da Flandres (isto tudo com o apoio do Duque de Olivares que queria misturar ao máximo as populações das várias partes do império para aumentar a sua solidariedade e diminuir o seu nacionalismo).

terça-feira, dezembro 05, 2006

Toyotomi Hideyoshi (1536-1598)

É um dos mais notáveis japoneses da história do Japão. No século XVI, o Japão estava dividido entre diferentes senhores feudais (os daymios) que lutavam pelo controlo de províncias. Toyotomi, era filho de camponeses o que lhe limitava as possibilidades de ascensão; prestou serviço militar como soldado, acabou por se juntar ao clã Oda como criado (era apertador de sandálias). Oda Nobunaga que era o chefe do clã, notou as suas capacidades de se desenvencilhar e começou a ouvir os seus conselhos e a dar-lhe missões, até Toyotomi se tornar general. As suas origens camponesas deram-lhe uma enorme popularidade no meio dos ashigarus (soldados de origem popular, que formavam a maioria dos exércitos por oposição ao samurais). Com o assassinato do seu protector, Toyotomi apressou-se a enfrentar o seu assassínio de modo a reivindicar a sucessão dos numerosos aliados dos Oda (que continuaram a existir, se bem que diminuindo o seu poder); depois de um breve confronto com os Tokugawa os seus maiores rivais, estes aceitaram reconhecer a sua autoridade, e tornou-se com mais um par de campanhas o líder do Japão. Não pôde tornar-se Shogun (dadas as suas humildes origens). Lançou 2 expedições contra a Coreia, que correram bem a principio; a posterior intervenção chinesa, juntamente com o mau tempo e dificuldades de abastecimento acabou por levar à retirada das tropas nipónicas (onde é que eu já li isto?). Proibiu a posse de armas por camponeses (o que é irónico) e tornou hereditárias as profissões, eliminando qualquer possibilidade de ascensão social (ainda mais irónico). Toyotomi que não tivera filhos, estabelecera um sobrinho como herdeiro, mas assim que lhe nasceu um filho, eliminou o sobrinho; morrendo Toyotomi e sendo o seu filho bebé, a guerra civil rapidamente rebentou, vencendo os Tokugawa (que acabaram por dar ao seu filho mais tarde o mesmo destino que Toyotomi dera ao seu sobrinho).