terça-feira, setembro 05, 2006

O Império Holandês-III

Para tentar diminuir a mortalidade nas viagens para oriente, a Companhia das Índias Orientais decidiu criar um entreposto no cabo da Boa esperança. O local parecia adequado: não existiam indígenas em número significativo (apenas Hottentots e pigmeus que viviam respectivamente da pastorícia e da recolecção), e o clima era mais semelhante ao da europa. O entreposto deveria fornecer alimentos frescos para os navios que passavam e permitir-lhes repousar algum tempo. Simplesmente para isso era preciso que existisse um grande número de colonos (já que a companhia não queria escravizar os indígenas) para produzir a quantidade de alimentos necessários para o elevado número de barcos que passava; não querendo a companhia gastar muito dinheiro no que deveria apenas ser um entreposto, só no último quartel do séc. XVII é que se enviou gente para criar uma colónia. Mas aí existia outro problema: a companhia exigia que os agricultores vendessem os seus produtos exclusivamente aos seus barcos a preços mais reduzidos; ora como os outros barcos de outros países aí paravam, os agricultores preferiam vender os seus produtos aos estrangeiros a preços muito mais elevados, criando um problema que nunca ficaria resolvido. Se o núcleo duro de colonos era constituído por naturais da província da Holanda, outros europeus seriam integrados (huguenotes franceses, alemães e escandinavos), acrescido de alguns escravos malaios e indígenas. Os funcionários chamavam aos colonos “boers” (camponeses) mesmo que estes se dedicassem a outras actividades. Lentamente eles foram cultivando áreas maiores e afastando-se da (relativa) vida urbana colónia do cabo para o interior
A companhia enviava funcionários sempre oriundos da metrópole, discriminando os colonos; o relacionamento entre ambos que nunca fora muito bom foi piorando; embora não houvesse conflito aberto, os colonos não esboçaram qualquer resistência quando passaram para o domínio britânico.
As queixas contra os colonos eram sempre as mesmas: eram bêbados, devassos tomando escravas e indígenas como amantes (alguns desses descendentes acabaram por ser absorvidos na população branca e outros formaram uma população mista), preguiçosos, indiferentes à religião e incultos. Os colonos brancos começaram a ser chamados (por si e pelos da metrópole) Afrikander para se distinguirem dos brancos da metrópole.
Curiosamente a língua holandesa falada pelos colonos modificou-se. O contacto com numerosos povos levou a que a língua se fosse simplificando gramaticalmente (ao mesmo tempo que se enriquecia do ponto de vista de vocabulário pelos imensos povos da zona) tornando-se diferente da língua mãe e uma língua própria (de notar que os habitantes dos países baixos e da Africa do sul conseguem compreender-se com algum esforço).

4 comentários:

João Moutinho disse...

Parca,
Fiz um link ao seu blog.
Aprecio-o muito.
Sou um apaixondo por História - em particular quando esta não é rescrita.

Parca disse...

Obrigado!

JSA disse...

correcção: fora o Afrkaans mais corrente, os neerlandês e o afrikaans não são assim tão diferentes. a compreensão mútua não exige um esforço assim tão elevado, embora superior ao existente entre o português de Portugal e o do Brasil.

Parca disse...

Obrigado pela informação. O que tinha lido é que eles eram compreensíveis mutuamente embora com esforço.