quarta-feira, fevereiro 25, 2004

Os Judeus na Idade Média-III

Na península ibérica, as coisas mantiveram-se calmas mesmo nos territórios cristãos por algum tempo; depois, no séc. XIV com uma mistura de factores (dificuldades económicas, pestes), levam a um progressivo ódio contra os judeus, até que as populações começam também a ataca-los (qual a relação entre a peste e os Judeus? Nenhuma, mas serviam de bode expiatório). Apesar dos reis os protegerem por interesse, D. João II usa uma artimanha para “converter” os judeus mantendo-os cá (embora oficialmente expulsando-os); algumas décadas depois é estabelecida a Inquisição com as suas consequências.

Em Bizâncio as coisas passavam-se de forma diferente. Tendo-lhes sido progressivamente retirados os elementos de cidadania, nunca foram abertamente perseguidos (embora não lhes fizessem a vida fácil). Se do séc. IV ao VII se deram conflitos nas principais cidades do oriente entre comunidades hebraicas e gregas (tal conflito já vinha de trás), estes extinguiram-se com a conquista desses vastos territórios pelos árabes. De qualquer maneira nunca se deram os progroms que seriam tão frequentes no ocidente séculos depois. A perseguição era mais subtil.
Por diversas vezes foram obrigados a “renunciar” ao Talmude e à Mishna (significará que a proibição não era aplicada?). Só podiam usar versões do Antigo Testamento que tivessem sido aprovadas pelas autoridades; não se podiam ouvir os seus cânticos na vizinhança; pagavam uma taxa extra e eram periodicamente submetidos a debates para lhes provar os seus “erros”, terminando (oficialmente pelo menos), no reconhecimento voluntário da superioridade da religião cristã e pedido de baptismo. A Igreja ortodoxa opunha-se a estes debates, porque considerava que pressionar os judeus a converterem-se, estava errado e não era feito com sinceridade.
Os judeus eram vistos assim de vários modos: eram o testemunho do Antigo Testamento, a prova visível da superioridade dos cristãos (tinham sido o provo eleito e depois ao rejeitarem o Messias tinham-se posto à margem, perdendo a sua posição em favor dos cristãos).
Dedicavam-se a vários trabalhos: como comerciantes, artesãos, trabalhadores agrícolas; o facto de não terem sido reduzidos a prestamistas é capaz de ajudar a explicar não terem sido odiados. A partir do ano mil a sua situação degradou-se um pouco: foram obrigados a sair do interior de Constantinopla, mas sem mais consequências; quando se deu a IV cruzada o seu bairro foi incendiado e foram massacrados (bem, mas isso os cruzados também o fizeram sem discriminação à restante população cristã). As várias comunidades mantinham-se solidárias em caso de problemas: se uma cidade era saqueada e os habitantes vendidos como escravos, os judeus de outra cidade que tivesse escapado incólume resgatavam os seus compatriotas.
Com a conquista do Império pelos otomanos, integraram-se como mais uma das comunidades minoritárias.

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Os Judeus na Idade Média-II

Com a queda do Império, a intolerância pareceu ficar parada por algum tempo. Na Península Ibérica, em princípios do séc. VII os reis visigodos começam as primeiras perseguições: obrigatoriedade de conversão ou expulsão. Com a conquista muçulmana, os Judeus gozam de uma relativa protecção; aliás, por toda a Europa ocidental, até ao séc. X, as perseguições são raras. Com o retrocesso económico que se dera na Alta Idade Média, e o corte entre o ocidente cristão, e oriente muçulmano, o comércio ficara muito reduzido. Os Judeus estando presentes nos dois mundos, mantinham o contacto, e foram assenhorando-se do comércio entre as duas zonas (normalmente de produtos de luxo).
A partir do séc. X as coisas começaram a modificar-se: a sociedade começa a tornar-se mais “cristianizada” e mais intolerante. Em verdadeiras explosões de fúria são feitos ataques da população a Judeus, matando indiscriminadamente homens, mulheres e crianças. Razões económicas para além das religiosas misturam-se: privados do exercício das actividades económicas consideradas “normais” (cultivo da terras), dedicavam-se entre outras coisas à usura (empréstimo com juros, o que era proibido aos cristãos), o que os tornava mais odiados. Grupos de cruzados por várias vezes ao dirigirem-se para a Terra Santa, dedicavam-se a exterminar as comunidades judaicas que encontrassem pelo caminho. Começa a ser hábito espalhar rumores sobre blasfémias e sacrifícios que os Judeus praticariam em segredo para escárnio dos cristãos. Lentamente os Judeus passam a ser forçados a viver acantonados numa zona da cidade (Judiarias- aliás este termo acabaria por entrar no vocabulário popular como significando uma acção vil) e a usar um vestuário com uma marca que os distinguisse (a estrela de David por exemplo).
A atitude da Igreja variava muito: se a corte Pontifícia se revelava normalmente tolerante, protegendo-os, e empregando-os mesmo (como médicos), o baixo clero mais próximo da população incentivava ao ódio e à perseguição. Os soberanos também tinham atitudes diferentes: Frederico Hoenstaufen rodeava-se de Judeus e muçulmanos. Pelo contrário, contava-se uma estória sobre João Sem Terra, em que este precisando de dinheiro, mandara prender um judeu com fama de rico, ordenou que lhe fossem arrancados todos os dentes e só depois é que lhe pediu dinheiro... Verdade ou fantasia (afinal contavam-se muitas coisas sobre João Sem Terra), isto ilustra a instabilidade social dos Judeus: ricos e convivendo com soberanos por um lado, mas sujeitos aos caprichos destes para os defender da fúria das populações.

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Era Atómica II

Para os que se interessaram por um post meu anterior, sobre o envio a dez personalidades norte-americanas de cartas concendendo-lhes autoridade presidencial para assumirem funções governativas chave em caso de guerra nuclear, esta página dá algumas informações interessantes.

Para começar, temos o fac simile das cartas enviadas e assinadas pelo presidente Dwight Eisenhower, bem como a respectiva transcrição. Depois, temos a identificação e biografia de cada um dos "Dez Magníficos" (que, afinal, eram só nove) - e um deles ainda está vivo...

Mais importante ainda, temos a informação de que a administração Kennedy só "despediu", aparentemente, seis dos nove homens que receberam a carta do anterior presidente. Parece mesmo que os EUA continuaram a recorrer durante mais uns anos à nomeação ad hoc de responsáveis governativos para o caso de uma eventual catástrofe nuclear.

Ah, e já agora, o site da Conelrad, onde está toda esta informação, é um excelente repositório de história da Guerra Fria.

Os Judeus na Idade Média-I

Li recentemente um post sobre as consequências da expulsão dos Judeus nas descobertas, e decidi fazer um sobre a Idade Média.
Depois da guerra romano-judaica no reinado de Adriano, com a proibição dos judeus voltarem ao seu território de origem, a situação ficou resolvida para os romanos: sem uma terra que pudessem tentar tornar independente, as revoltas estavam suprimidas. Espalharam-se um pouco por todo o mediterrâneo, onde já existiam comunidades. Com o édito de Caracala em 212, todos os homens livres adquiriram a cidadania romana, incluindo os Judeus. Apesar de serem monoteístas, estavam dispensados de prestar sacrifícios ao génio do Imperador; também tinham um patriarca que de algum modo representava os interesses judaicos perante o estado. A que se deve essa dispensa? Ao reconhecimento de uma tradição antiga, que sempre os livrara do culto imperial e ao facto de pertencerem a um grupo étnico (o mesmo não sucedia com os cristãos: eram uma religião recente sem prestígio, e vindos de todas as raças). Mesmo embora a sociedade se fosse tornando mais totalitária do ponto de vista religioso, até à conversão de Constantino no séc. IV, a situação pouco mudou. Progressivamente, com o estabelecimento do Cristianismo como religião estatal, todos os “não católicos” (pagãos, cristãos de outras confissões, judeus), foram perdendo os seus direitos; deixaram de poder ser nomeados para cargos honoríficos, possuir escravos cristãos (que a longo prazo significava perder a possibilidade de ter terras), a própria liberdade de culto.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Algumas evoluções do exército romano-III

No séc. II, com a paz e certa prosperidade, os italianos apenas querem ficar na guarda pretoriana (onde usufruem de um soldo mais elevado, prestígio de servir directamente o imperador, e claro poder), e as coortes urbanas, onde gozam as delícias da vida em Itália sem se aborrecer com a guerra. Os legionários são todos colonos. Mas um fenómeno importante começa a impor-se: os soldados que foram desmobilizados numa zona, casaram e ficaram aí a viver e os seus filhos alistam-se mas pretendem servir nessa zona, e não serem colocados noutra terras distante. Ou seja, as legiões de unidade móveis começam a tornar-se fixas, quase guarnições. Este fenómeno do recrutamento e defesa local, só ficaria completo com as reformas no séc. IV entre a divisão entre um exército estacionário e um móvel. Outro elemento, é o progressivo alistamento de cidadãos nas unidades auxiliares (porque os filhos de pais que tinham adquirido a cidadania pretendiam servir nessa unidade e não queriam ir para outro local). As unidades auxiliares vem as suas tropas perderem agressividade na medida em que as zonas que tinham sido anteriormente bárbaras (península ibérica, Gália), estavam a romanizar-se e a ficar mais civilizadas com os progressos da pax romana; vão-se esbater assim as diferenças com as legiões. De qualquer modo mantém-se sempre unidades mais flexíveis (para combate de escaramuça contra salteadores bárbaros), devido ao tipo de função que lhes é exigido. No séc. III devido às dificuldades de recrutamento, é estendida a cidadania a todos os homens livres, o recrutamento fica facilitado, mas vemos, que o critério deixa de ser a qualidade para ser a quantidade. Quanto às tropas auxiliares, vão lentamente ser preenchidas com bárbaros, até que no séc. IV elas detêm o seu quase monopólio com as auxilia palatinae, tornando-se a tropa de escol do império, em detrimento das legiões (é certo que treinadas e equipadas à romana).