sexta-feira, junho 01, 2007

Guns, Germs and Steel-IV

Como o João Moutinho referiu, o facto de a eurasia se estender em milhares de kilómetros de oeste a este, foi outra vantagem. As plantas podiam ser transportadas na mesma latitude e espalhar-se sem problemas de adaptação por extensas zonas. Ora na américa isso é impossível: uma planta ou animal criado nos andes, um pouco mais a norte onde o clima é muito mais quente, demoraria extenso tempo a adaptar-se; uma planta cultivada na california não se poderia ser cultivada a lestem pois aí o clima é desertico e os povos aí existentes não lhe dariam qualquer uso; deste modo nunca a passariam para os povos que estavam a leste em zonas mais férteis, que teriam de aprender por sua própria conta. Este isolamente devido aos climas e diferenças geogáficas, reduzia mais a possibilidade de evolução, pois cada zona tinha de inventar tudo, sem beneficiar das descobertas de outros povos.
Algo semelhante se passou com a escrita: na eurásia foi inventada pelo menos pelos sumérios, egipcios (embora o egipto faça parte de africa, tal como o norte de africa, forma uma zona distinta do centro e sul), Índia e China. Todas estas zonas tinham a particularidade de terem sociedades fortemente hierarquizadas, com parte da população que não se dedicava a funções produtivas do sector primário (artesãos, funcionários, nobres, sacerdotes); as necessidades administrativas obrigaram a inventar sistemas de registo que partindo de formas muito simples (um símbolo fácil de de compreender traduzia uma palavra ou ideia), que se foram tornando mais abstractos. Esses sistemas foram difundidos, copiados, alterados e simplificados ou complicados conforme os povos por onde se espalhavam. Na américa a escrita foi inventada pelos olmecas no actual méxico, e de uma maneira ou de outra foi sendo transmitida até aos aztecas na zona da américa central; em nenhuma outra zona da américa foi inventada a escrita, dado que os povos que rodeiavam a meso-américa viviam em sistemas políticos mais simples que não necessitavam da escrita ou tendo culturas mais sofisticas, não beneficiaram do conhecimento de outros devido ao seu isolamento (ao contrário do que sucedeu na eurásia). Apenas os incas utilizaram um sistema de registar dados através de fios (os Quipus), mas cujo funcionamento é ainda um mistério.

segunda-feira, abril 23, 2007

Guns, germs and steel-III

Bem, no livro Guns, Germs and Steel, o autor foca nos capítulos seguintes a importância da distribuição geográfica de animais e plantas passíveis de serem facilmente domesticados: a zona do crescente fértil por estar numa zona central da eurásia (que é uma massa de terra enorme) estava em vantagem em relação a outras zonas de clima semelhante noutras zonas do globo, pois teria forçosamente maior diversidade e quantidade de plantas/animais (por exemplo, o milho que é das plantas mais conhecidas, demorou milhares de anos a conseguir crescer de forma a tornar-se aceitável para se tornar a planta principal de cultivo dos índios, que tiveram de cultivar outras coisas antes em regime semi-nómada; no crescente fértil, os primeiros agricultores tinham logo acesso a trigo, centeio e cevada que lhes dava elevado rendimento (quer em quantidade quer a nível nutricional) e permitiu dar o salto rápido. O mesmo se passava com os animais: o lama, o único animal de maior porte domesticável nos andes não se compara em força a um boi ou um cavalo o que impedia o trabalho de muitas das terras (e respectivo crescimento populacional); no crescente fértil também existia um grande número de animais disponíveis para servir de alimento (porco, vaca, galinha, vaca, ovelha) que fornecem um maior número de proteínas. Só esses factores garantiam que a zona do crescente fértil ( e civilizações por ela influenciadas) possuía uma vantagem de milhares de anos no desenvolvimento civilizacional (o que quer dizer que os habitantes do Peru ou da Nova Guiné, poderiam ter chegado ao nível das civilizações do ocidente ou algo equivalente, desde que lhes dessem mais alguns milhares de anos suplementares). E o autor recusa que os habitantes da eurásia fossem culturalmente mais disponíveis à mudança que os de outras zonas: os índios usaram imediatamente o cavalo assim que puderam, os africanos sub-saharianos o gado bovino quando puderam: se eles não domesticaram nenhuma espécie indígena, foi porque nem todas espécies de animais em estado selvagem podem ser domesticados como espécie (uma coisa é transformar uma hiena individual em bicho de estimação, outra é tentar transformá-lo num substituto do cão, coisa que não resulta).

quarta-feira, abril 04, 2007

Como destruír os amigos e ajudar os inimigos

Quando os franceses se estabeleceram na américa do norte, eles utilizaram métodos muito diferentes dos espanhois. Eles decidiram que os indios iriam ser integrados como franceses, não devendo demorar muito tempo, dado que consideravam que os indígenas iriam receber de braços abertos uma civilização tão superior; como o objectivo era assimilá-los, não fazia sentido, conquistar/confiscar as terras. Mas as coisas não correram como previsto...
Em meados do séc. XVII os franceses escolheram determinadas tribos como parceiros privilegiados para o comércio (sobretudo os hurons), e enviaram grupos de Jesuitas para os converter. Mas rapidamente entraram em conflito com os xamãs locais; os Jesuitas pretendiam que os novos convertidos deixassem as tribos e vivessem como os brancos (deixando em participar em todas as cerimónias vistas como pagãs, mas que serviam para solidificar os laços tribais); isso irritou os chefes locais; a política de casamentos entre franceses e índias não deu grandes frutos, dado que as índias só se casavam quando o marido estava em condições de as sustentar pela caça, e os franceses dedicavam-se ao comércio o que os tornava dependentes dos índios para o fornecimento de víveres. Quando se começaram a propagar diversas doenças, a que acrescido das divisões entre assimilados e não assimilados, os iroqueses (inimigos de hurons e franceses) aproveitaram para atacar, não podendo os franceses que eram em escasso número ajudar os seus aliados que foram destroçados. Na segunda metade do séc. XVII, os franceses repetiram a mesma política de ajuda a outra tribo, a dos Ilinois, com o mesmo resultado. Os franceses decidiram então mudar de táctica, e passaram a usar as suas forças em pequenos grupos de guerrilha que atacavam de surpresa os iroqueses até que estes foram obrigados a pedir paz e estabeleceram-se novas relações.

terça-feira, março 13, 2007

Diferenças

Os capacetes franceses usados em 1940 tinham um design feito pelos melhores artistas da época. Os capacetes alemães tinham sido concebidos por médicos para limitar os danos. Toda a diferença entre os 2 exércitos (e resultados em batalha) resumem-se bastante bem aqui.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Guns, germs and steel-II

Os capítulos seguintes do livro são dedicados à agricultura. Para esta começar, são necessárias determinadas condições (a existência de plantas adequadas ao cultivo, de um solo fácil de plantar com ferramentas rudimentares e climas favoráveis), que se encontraram junto a grandes rios em zonas tropicais ou sub-tropicais: Egipto, Mesopotânia, China, Índia, México. Mas o autor depois coloca uma questão: não tendo os bandos de caçadores recolectores qualquer experiência sobre o assunto, o que os levaria a desistir da sua vida nómada e andar a fazer experiências?
São apresentados diversos exemplos de economia intermédia, ainda actualmente existentes. Existem povos, que ao verem as plantas crescerem, tratam delas, eliminam ervas daninhas, adubam-nas, mas não as plantam; outros que se limitam a plantar mas nada mais fazem até à altura da colheita, podendo residir aí, ou continuar com as suas deambulações. Diversos povos nómadas devem ter começado a recorrer a uma proto-agricultura que se limitava a ser mais um elemento da sua dieta. Depois poderão ter sucedido duas coisas diferentes que justifiquem um aumento da população: ou devido à abundância de alimentos própria do paleolítico superior/inícios do neolítico a população foi aumentando até que provocando uma diminuição da fauna selvagens o homem teve de recorrer cada vez mais à agricultura não podendo voltar ao seu estilo de vida anterior, ou pelo contrário, o uso da agricultura possibilitou logo um aumento da população (devido à disponibilização de maior quantidade segura de alimentos). Ou seja, na hipótese um, deu-se primeiro um aumento da população e a agricultura foi a solução adoptada para manter o nível populacional, na segunda hipótese foi a própria agricultura que possibilitou esse aumento.
A agricultura em relação à caça-recolecção tem vantagens e desvantagens. A área utilizada para cultivo é muito menor do que a necessária para andar a recolher plantas e animais selvagens, possibilitando um enorme crescimento populacional; as mães também podem ter filhos a um ritmo superior (para nómadas, só é possível ter um novo filho, quando o anterior já andar e se desenrascar razoavelmente); com um maior número de pessoas e de reserva de alimentos é possível a criação de profissões especializadas que criarão novas ferramentas mais sofisticadas (artesãos) e a existência de classes não produtivas (nomeadamente comerciantes, escribas, sacerdotes e nobres) e a criação de reservas de alimentos para os maus anos. Em compensação, o número de horas destinadas ao trabalho agrícola é muito superior, a excessiva especialidade de produção de alimentos pode conduzir a dificuldades no caso de uma má colheita.
Ora se os povos agrícolas ficam em vantagem competitiva contra os caçadores-recolectores (que desaparecem, são integrados na nova economia ou ficam reduzidos a zonas isoladas), o mesmo não se passa com os povos que se dedicam à criação de gado; não atingindo um nível de sofisticação tão elevado como os agricultores, conseguem ter as vantagens de ambos os povos (mobilidade, diversidade de dieta, relativa especialização da sociedade reserva de alimentos); desde que o seu gado não seja atingido, se houver dificuldade só se tem de mudar. Dado o seu tipo de vida, estão normalmente bem adaptados a conflitos, sendo toda a população mobilizável. No entanto costumam estar divididos entre tribos que entram em conflito entre si, e apesar de alguns conquistadores bem sucedidos (Atila e Gengis Khan são os mais famosos), na maioria das vezes não tem hipóteses de conquistar os povos sedentários que possuem efectivos muito superiores (a não ser que estes estejam também divididos e enfraquecidos por epidemias e guerras).