quarta-feira, outubro 18, 2006

Luís V

Ironicamente foi em França, o berço da dinastia (em Itália e na Alemanha já tinham perdido os tronos) que viu morrer o último soberano carolingio, Luís V. Reinou de 986 a 987 (morreu com 20 anos). Ficou assim conhecido como um rei que pouco fez. Incompatibilizou-se com o clero, e quando morreu, a assembleia de nobres que deveria ter eleito um tio, decidiu por influência de vários eclesiásticos, eleger o conde de Paris, Hugo Capeto, que fundou uma nova dinastia (só por curiosidade: Hugo Capeto graças ao sistema de casamentos entre famílias nobres era também descendente de Carlos Magno por via feminina, embora tivesse outro nome de família). Alguns carolingios como tal continuaram a existir com pequenos feudos por mais algum tempo, mas extinguiram-se, só se mantendo as famílias descendentes por via feminina.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Santuário de Panóias

Fiz algumas viagens recentemente e aproveitei para visitar algum património nacional. Vi vários monumentos de interesse, mas aquele que mais me entusiasmou foi o Santuário de Panóias.
Este interessantíssimo monumento foi mandado construir no século II d.C. pelo senador de Roma, Gaio Calpúrnio Rufino, e dedicado aos deuses infernais, nomeadamente Serápis, um deus dos infernos surgido em Alexandria, fruto da necessidade de conciliar os panteões grego e egípcio.
Além de ser um local belíssimo e com vestígios ainda bastante perfeitos, o santuário tem a particularidade, única no mundo, de ter em cada local do santuário indicações escritas que descrevem com algum pormenor cada passo do ritual.
Assim, havia uma primeira estação, aberta a todos os cultos, onde os animais eram mortos, o seu sangue recolhido e assado e as vísceras incineradas. Sucedia-se uma segunda estação, com a indicação que era dedicada aos deuses severos (infernais), e uma terceira, dedicada aos deuses dos Lapitae, supostamente os deuses dos povos indígenas da região. Sucedia-se então a fase em que a carne era assada e comida pelo sacerdote que presidia à cerimónia. Na última fase, haveria uma espécie de representação ritual da morte e ressurreição.
Louve-se ainda que o acesso é muito barato (1,5 euros por pessoa) com direito a um vídeo ilustrativo e a uma visita guiada muito bem feita.

Já agora, quero referir que, segundo o guia que nos levou na visita, o local tem uma média de 15 visitantes por dia, dos quais 6 a 7 são espanhóis. Isto porque grande parte dos estudos arqueológicos e da divulgação turística do local são feitas no nosso país vizinho. Em Portugal, o local teve direito a menção no Expresso há dois anos e pouco mais. Triste, mas típico.

Se não puderem visitar, recomendo a consulta desta página.

quinta-feira, outubro 12, 2006

O Corão

Nos últimos tempos dediquei-me à leitura do Corão. Li metade e desisti.
Na tradição, o Corão é apresentado como sendo as palavras de Alá, ditadas a Maomé pelo Anjo Gabriel (610). Sendo analfabeto, Maomé teria contado aos seus companheiros as revelações que teriam sido passadas a escrito. O problema é que esses escritos circulavam mais ou menos livremente, sem se procurarem juntar num livro. Depois da morte de Maomé, o primeiro califa encarregou Zaid (que fora escravo e depois uma espécie de secretário de Maomé) de reunir todos os escritos e ditos do profeta que eram transmitidos oralmente pelos seus antigos companheiros (o critério de selecção, era um verso estar escrito ou ser recordado por duas pessoas). Só que outros antigos companheiros tinham tido a mesma ideia, e fizeram a sua própria compilação, o que começou a provocar confusão. Um novo califa ordenou então que se fizesse uma nova compilação e esse Corão seria o definitivo, devendo todas as versões anteriores serem destruídas. Mesmo assim o mais antigo exemplar completo que resta é do séc. X (o tempo é pouco amável para os materiais perecíveis).
A versão que li é escrita em francês e tem um excelente estudo crítico, com uma boa introdução e numerosas notas de rodapé que explicam o sentido do texto (muitas vezes obscuro para quem não foi educado no Islão). Na introdução é apresentada a sociedade árabe pré-islâmica. Vemos o estado miserável em que as mulheres eram tratadas (o divorcio por parte dos homens era feito sem quaisquer restrições, o assassínio dos bebés do sexo feminino também). O álcool e jogo eram considerados como problemas sérios da sociedade.
O Corão tem 2 influências: a Bíblia (são constantemente referidos episódios, mesmo que tenham por vezes pequenas variantes, o que não é de admirar, dado que Maomé se apresenta como um sucessor de Abraão, Moisés e Jesus) e a literatura árabe pré-islâmica (a cultura onde Maomé foi educado).
O Corão é constituído por “suras” (capítulos). A sua organização parece ser relacionada com o período em que os ditos foram pronunciados (se no exílio em Medina, se em Meca, etc), dado que por vezes fazem referência (mesmo que de forma indirecta) a acontecimentos reais. Os seus temas são muito variados desde coisas genéricas (a bondade de Alá, a necessidade de creditar nele de forma sincera e não apenas para salvar as aparências) a aspectos práticos do dia-a-dia (em que condições se pode divorciar um homem). Existem por vezes aspectos contraditórios; os estudiosos consideram que nesses casos, um verso mais recente anula o valor do anterior.
A minha opinião pessoal: achei a leitura extremamente aborrecida. O Corão é poético e eu não sou apreciador de poesia (detestei ler o livro dos salmos, assim como os vários livros de profetas no Antigo Testamento), É uma questão de gosto pessoal. Também a constante repetição de temas (dada a génese que teve é normal) aborrece-me. Os temas também não são particularmente aliciantes (referências do que se deve fazer para agradar a Alá, e aspectos jurídicos que podemos considerar reguladores da sociedade).
Isto quanto à forma. Quanto ao conteúdo. Apresenta normas que devem ser aplicas à sociedade (de modo semelhante ao do Antigo Testamento. Simplesmente, enquanto que as normas do AT são obrigatórias, sem apelo nem agravo, as do Corão apelam sempre ao perdão e reconciliação por parte do ofendido. Um marido pode legalmente divorciar-se da esposa (se forem cumpridas uma série de requisitos), mas era melhor que ele não o fizesse. Comparando com o Novo Testamento, este tem uma moral mais elevada e difícil de aplicar como o perdão das ofensas (mas o NT não procura legislar sobre uma sociedade, mas apresentar uma moral para pessoas que se consideravam diferentes da sociedade que os rodeiava). O Corão é extremamente flexível, podendo adaptar-se a imensas situações, mas dependendo da interpretação de quem o lê. E a ausência de uma autoridade suprema (de um califa) que sirva de guia, significa que qualquer estudioso qualificado pode dar a interpretação que bem entender e ser válido.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Colonização da terra

Este site mostra o modo como a terra foi colonizada pela nossa espécie de acordo com os conhecimentos actuais.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Morte de Pirro

Pirro ficou conhecido pelo termo "vitória pírrica". Notável foi a sua morte. Depois de diversas campanhas invadiu a cidade de Argos. Num combate corpo-a-corpo já dentro da cidade (pois Pirro combatia com as suas tropas, não se limitava a comandar), estava quase a matar um soldado adversário, quando a mãe deste que estava no alto da casa a ver o combate, ficou aflita ao ver que o seu filho ia ser morto e atirou uma telha a Pirro, que lhe quebrou o cranio. Assim morria o grande general.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Childerico III

Foi o último soberano merovíngio, e “reinou” de 743 a 751. De facto, há cerca de um século que o governo do reino estava nas mãos dos mordomos do palácio. Estes, oriundos da alta nobreza, passavam parte do tempo em conflito com outros nobres que não acatavam as suas ordens, a enfrentar ameaças exteriores e os rivais de outros territórios da França (cada vez que um soberano morria, os seus territórios eram divididos pelos filhos, criando uma corte em duplicado incluindo mordomos do palácio). Os reis por uma sucessão de incompetentes, reis menores e divisão constante do reino tinham ficado reduzidos a um mero papel de reis fantoches. Pepino o breve, o mordomo do palácio decidiu às tantas que era inútil manter a ficção dos reis merovingios e foi coroado rei com a aprovação do Papa. Mas o cerimonial era muito diferente: os merovingios sempre tinham sido soberanos por direito próprio, sendo aclamados pelos guerreiros em cima de um escudo. Para ser legitimizado, Pepino o breve decidiu recorrer a outra autoridade, a da Igreja, tornando-o mais legítimo do que os merovingios (para efeitos de propaganda, dado que o poder já estava nas suas mãos). Childerico foi enviado para um convento com o seu filho, sem outras consequências.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Kagemusha




Mais um filme do Akira Kurosawa. Este baseia-se em factos reais. Um senhor da guerra (Takeda Shinzen) recebe um indivíduo (um ladrão que ia ser executado) que é extremamente parecido consigo e decide usálo como Kagemusha (duplo). Quando Shinzen morre, os seus generais decidem manter a ficção de que o líder do clã está vivo. O filho fica pouco satisfeito mas tolera a situação. O duplo tem de se portar como um grande senhor, assistir a peças de teatro No, banquetes, reuniões familiares e conselhos de guerra, mantendo a ficção. Por fim acaba por ser desmascarado. O filho de Shinzen toma as rédeas do clã e lança-se num ataque contra os seus principais adversário Tokugawa e Oda Nobunaga que estão cercados numa fortaleza, contra o conselho dos generais do seu pai. A famosa cavalaria Takeda lança-se num ataque contra tropas inferiores em número. Só que estas entrincheiraram-se e estão a utilizar arcabuzes de forma coordenada (uma fila dispara, sendo substituídos imediatamente por outra fila e assim sucessivamente, até que finalmente o primeiro grupo já recarregou a arma e dispara novamente, mantendo um tiro contínuo): o resultado é que a cavalaria que ataca por secções é completamente aniquilada (e vemos o resultado da carnificna). O Kagemusha lança-se num ataque sozinho, é ferido e dirige-se para o estandarte Takeda que se está a afundar num curso de água, morrendo aí, simbolicamente com o destino do clã.
No mundo real, o clã aguentou-se alguns anos à batalha de Nagashimo, mas perdidas as melhores tropas e generais foi o alvo do ataque dos inimigos e viu os vassalos revoltar-se, acabando por desaparecer como força real. Só acabou por sobreviver um filho de Takeda Shinzen que se colocou ao serviço de Tokugawa.
Uma última ironia: se na batalha, o exercito Takeda se tivesse limitado a esperar e a cercar os seus adversários, dada a pequena quantidade de abastecimentos que as tropas cercadas tinham, era provável que as tropas fossem vencidas (quando a capturar Tokugawa e Oda era outra história), e era esse o conselho dado pelos generais, mas o filho de Shinzen queria vencer numa batalha espectacular.