segunda-feira, agosto 14, 2006

Desenhos pré-dinásticos no Egipto


Público 11.08.2006 - 16h55 Lusa

Arqueólogos egípcios descobriram sete conjuntos de desenhos zoomórficos da época pré-dinástica (entre 6000 e 3500 A.C.) esculpidos em rochedos a noroeste do Cairo, revelou hoje a imprensa local.

Os desenhos que representam formas de animais foram encontrados durante um rastreio arqueológico nos vales de Al Doun e Al Rasis, na província de Port Said, na costa mediterrânica, precisou Zahy Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades.

Os desenhos representam cabras, camurças, carneiros, coelhos, gatos selvagens, escorpiões e répteis, para além de animais semelhantes a girafas e elefantes.

"Entre essas figuras, parecendo inspirado num combate, destaca-se a de dois homens lutando com bastões, um deles montado num animal semelhante a um camelo e o outro defendendo-se do primeiro com um escudo circular", adiantou Hawass.

Na mesma zona foram descobertos vestígios de duas habitações.

O plano de rastreio de vestígios arqueológicos pré-históricos está a ser realizado em todo o país pelo Conselho Supremo de Antiguidades.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Herodes o grande

Ficou conhecido como um rei cruel e caprichoso (o massacre dos inocentes). Mas conseguiu deixar aos seus filhos um reino em paz.
O seu pai Antipater, um idumeu (uma etnia que fora conquistada pelos judeus e obrigada a converter-se ao judaísmo), era amigo do rei Hircanio da Judeia. Este foi destronado pelo seu irmão (bastante mais competente), mas Antipater conseguiu com intervenções estrangeiras (árabes e romanos) devolver o trono a Hircanio. Antipater foi colocando os seus filhos e parentes em lugares chave, enquanto que a guerra civil entre os reis irmãos continuava. Com o assassínio de Antipater, Herodes sucedeu na direcção do reino. Tendo comandado os exércitos do pai (e combatendo mesmo na frente), continuou a faze-lo. Marco António decidiu que entre Hircanio (incompetente) e Antígono (anti-romano), dar a realeza a Herodes que sempre lhe fora fiel era o melhor. Quando Octávio venceu, Herodes decidiu jogar de forma franca: em vez de dizer que fora obrigado a apoiar Marco António e dizer que este fora um mau líder, assumiu que sempre lhe fora fiel e amigo e que se não tivesse sido desviado por outros motivo, teria combatido contra Octávio em Actium. Devolvia portanto a coroa ao vencedor. Octávio apreciou a franqueza e manteve-o no poder; nos anos seguintes iria até aumentar o território de Herodes pela ajuda que lhe iria prestar.
Herodes passaria numerosos anos a pacificar o território que passara anos em guerra civil e sofrera com o banditismo, utilizando uma repressão brutal. As tensões religiosas (pois muitos viam com maus olhos a submissão a romanos que eram pagãos), aliava-se a um problema dinástico: Herodes continuava a ser visto como usurpador estrangeiro que destronara com o apoio romano a dinastia legítima. Esta rapidamente se extinguiu, pois Herodes eliminou sucessivamente todos os representantes masculinos. Só sobreviveram 2 mulheres com quem ele casou (e mandou matar depois) de quem teve filhos. Na sua própria família as coisas não correram bem: sofreu diversas conspirações de familiares, mandou matar 3 filhos, várias esposas, parentes e amigos.
Pelo menos uma coisa não lhe pode imputado: não há nenhuma descrição de mandar matar bebés como é dito no novo testamento (se bem que ordenou imensas outras execuções igualmente repugnantes).
Mandou construir palácios, monumentos e restaurar o Templo de Jerusalém. Basicamente teve uma vida semelhante a numerosos soberanos helenísticos, com a diferença de que sendo plebeu, continuou a ascensão ao trono começada pelo pai, criando uma dinastia que durou um século.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Ordens idiotas

A 2 de novembro próximo de Verdum em 1916, os alemães decidem evacuar o forte de Vaux. Os franceses apercebem-se mas decidem certificar-se primeiro, antes de ocupar o forte. Um oficial ordena então a 12 homens para se aproximar do forte, fazer muito barulho para atraír o fogo inimigo e assim confirmarem (ou não) a notícia. Os homens partem sem entusiasmo, mas tem a sorte de chegar depois do forte estar deserto. Com ordens destas e oficiais deste calíbre, não admira que no ano seguinte parte do exército se amotinasse.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Arquimedes

Aparece hoje a seguinte notícia no público: foram descobertos vários tratados de Arquimedes inéditos num palimpsesto (manuscrito que foi raspado do texto para ser reaproveitado). O manuscrito era do séc. X e foi reutilizado como livro de orações no séc. XIII, sendo em grego.

terça-feira, agosto 01, 2006

Fim das férias




Voltei de férias. Aproveitei para ler um pouco de tudo. No entanto, vou continuar a descrever o que li da vida de Genji.
O velho imperador pai de Genji decidiu tornar Fujitsubo a sua imperatriz (em detrimento de Kokidem, sua concubina de há anos, mãe do próximo herdeiro e filha do ministro da direita), mas passado pouco tempo faleceu.. Ora isso provocou imensas alterações na corte. O novo imperador, meio-irmão de Genji (e filho de Kokidem) deixou-se facilmente dominar pela sua família materna. Tornou o seu avó ( o ministro da direita) todo poderoso, em detrimento do ministro da esquerda (sogro de Genji). Ainda por cima Kokidem tinha um ressentimento pessoal contra Genji, que se recusara a casar com uma irmã sua, em favor da filha do ministro da esquerda. Genji e todos familiares membros e aliados do ministro da esquerda vão sendo progressivamente afastados dos seus cargos. Mas Genji dá o golpe final: teve um “caso” com uma irmã de Kokidem e foi apanha do na cama com ela. Ora a agravar a situação, essa irmã costumava ser “visitada” pelo novo imperador. Este ficou desgostoso e terminou a relação com ela: esta percebeu a asneira que cometera, pois se Genji era amável, ela nunca passaria com ele de mais uma das numerosas conquistas, enquanto que com o imperador, ela poderia quem sabe chegar a imperatriz… Agora com o escândalo, dificilmente conseguiria ter um marido decente. O ambiente na corte acabou por ficar insuportável, e Genji acabou por ser exilado (embora não de forma oficial), levando um pequeno número de companheiros. A facção do ministro da direita era totalmente vencedora. Fujutsubo morre. E é aí que Genji vê com quem pode contar. Várias pessoas propõem-se a partir para exílio com ele mas ele recusa: não tem recursos para sustenta-las, e precisa de olhos na corte. Tono seu rival/amigo, desafia a corte e vai visitá-lo; alguns escrevem-lhe mas outros fazem de conta que nada se passa. Curiosamente, um antigo governador que se tornou monge e é vizinho deGenji, vê a oportunidade de ouro: embora seja de baixa categoria (era “apenas” um governador residente na província e não um cortesão) quer apresentar a sua filha a Genji pois sabe que um dia a situação deste irá mudar e ela terá uma vida melhor e decerto que ficará grato a quem o apoiou nos maus dias. A rapariga era extraordinariamente tímida (dado o desnível de origem social), mas Genji lá a engravida (e adquire mais uma esposa).
Entretanto o ministro da direita morre, Kokidem e o imperador adoecem; este acha que é por ter exilado Genji e acaba por chama-lo de volta. Lentamente as coisas compõem-se. Quando o imperador abdica em favor do suposto meio-irmão (que na realidade era filho de Genji e que rapidamente é posto ao corrente de que este era o seu pai), as coisas mudam radicalmente. Genji torna o seu antigo sogro (o ministro da esquerda) chanceler (o governo prático do país), Tono é tornado ministro do centro, enquanto que ele trata de tudo o que é relacionado com a corte (cerimónias, nomeações, festas). Casa com Murasaki, a sua grande paixão (sobrinha de Fujutsubo, a sua outra grande paixão). E começa a época da retribuição. Não tanto contra a facção do ministro da direita (afinal eles apenas trataram de se governar), embora percam a maior parte dos cargos e poder, mas sobretudo contra os que lhe devendo favores, o ignoraram quando as coisas lhe correram mal. A começar por Hyobu, pai de Murasaki e irmão de Fujutsubo. De facto, estando tão próximo de Genji, ele “colou-se” à facção de Kokidem, contra a sua própria família. Ora tendo Hyobu uma outra filha que ele pretendia que fosse nomeada aia imperial, Genji veta essa nomeação em favor de uma filha de Tono; sem nunca lhe fazer má cara (afinal era o sogro), Genji paralisa-lhe qualquer hipótese de progressão. Com o tempo, Genji volta a ter uma certa rivalidade com Tono e a sua família, tudo dentro de limites muito estritos: hoje é um que ganha, amanhã é o outro (para escolha de concubinas e vitórias em concursos artísticos), pois uma divisão mais forte poderia ser aproveitada por outro clã.
Mas Genji também recompensa as mulheres que lhe foram fieis.
Uma princesa com quem ele tivera um romance tornara-se pobre (tão pobre, que o porteiro tinha de abrir a porta sozinho, não tendo ajudante); ele ajudou-a financeiramente. Outra ficou mesmo numa situação extrema (o nome dado em inglês é sawflower): sendo de sangue imperial, não podia casar com quem quer que fosse (nos velhos tempos, Genji tentara ter um relacionamento com ela, mas ao ver-lhe a cara desistiu (por ser feia), mas tendo pena, manteve-se amigo), mas ao morrer o pai, ficou sem fonte de rendimento. Não podia casar abaixo da sua condição, ninguém do seu estatuto queria casar com ela, e se fora fei em jovem, a idade não a favorecia. Foi sendo abandonada por criados e amigos até ficar sozinha no palácio em ruínas, tendo de procurar comida e apanhar lenha para sobreviver, esquecida pela corte e vivendo com a recordação da amizade que teve com Genji (que não passou disso). Só uma pessoa se lembrou dela: uma sobrinha, que fugira de casa quando a família começara na sua decadência para casar com um governador causando um escândalo sendo assim excluída dos círculos imperiais (o mesmo que sucedeu à sua tia, sem ter de passar fome). Ofereceu o cargo de governadora em sua casa, o que era uma humilhação para a tia que recusou. Por sorte, um dia Genji passou por lá (depois de voltar a brilhar na corte), e ao saber da história levou-a para o seu palácio, instalando-a numa das alas. Ela acaba por tratar dos assuntos da casa de Genji como governadora oficiosa) pois ele tem imensa confiança nela), mas de forma gradual e com tacto, para não chocar com Murasaki.
Genji acaba por encher o palácio de antigas amantes que caíram em dias difíceis (já não sendo jovens, sendo viúvas ou solteiras elas ficam em situação muito complicada); Murasaki tolera isto melhor do que as suas escapadelas actuais (tornando-se na realidade amiga de algumas delas). Mas no entanto, um novo romance irá complicar tudo.
Genji encontrou a filha de uma velha paixão (essa filha era de Tono mas morrera de desgosto do seu não romance com Genji). Apesar de criada na província, e ter 20 anos Genji enviou-a a sawflower para ser educada rapidamente nas maneiras da corte, pois pretendia adopta-la (ele só tinha uma filha e Tono tinha várias) e usa-la para um casamento que o favorecesse. Mas com o tempo começou a achar um desperdício entrega-la a outros e decide tornar-se seu amante. A rapariga fica destroçada: livrara-se de complicações na província, achava que finalmente a sua vida ia ter um rumo, quando é o seu próprio benfeitor que tenta aproveitar-se! E sabe que desta vez ninguém a poderá ajudar (se bem que conseguiu manter Genji à distância em 2 capítulos; verei depois como se safa).
Conclusões destes capítulos: os governadores das províncias, são senhores absolutos nas terras que governam, mas são humilhados e troçados pela corte como incultos; a escolha dos governadores é rotativa e dependente do patrocínio de cortesão a quem enviam presentes (mas dentro de um século eles conseguirão fixar-se nas terras e livrar-se da dependência da corte). As mulheres por mais bem nascidas que sejam, se não tiverem um pai, irmão ou marido que as mantenha, estarão numa situação verdadeiramente aflitiva se estiveram por sua conta.
Passado um momento de certa austeridade sobre o regime dos Fujiwara do ministro da direita, com os Fujiwara do ministro da esquerda, a vida volta ao que era: concursos de pintura, de poesia, declamação de versos (japoneses ou chineses), e muita música. A mulher que dá um filho a Genji, tem como principal dote saber usar o Koto (uma espécie de guitarra) de forma exímia; o mesmo com sawflower. Murasaki não tem qualquer capacidade especial mas é bonita. A nova imperatriz é escolhida num concurso de pintura, entre facções rivais. Outras amadas de Genji sabem bem escrever quer na forma (a caligrafia em si é uma arte para os japoneses), quer no conteúdo (as missivas nunca são feitas descrevendo algo directamente, mas sempre com recurso a poemas).

quinta-feira, junho 29, 2006

segunda-feira, junho 26, 2006

Os mistérios

Os mistérios de Eleusis foram um conjunto de cerimónias celebradas em Eleusis (arredores de Atenas), desde um período indeterminado da antiguidade até à sua proibição em 392 pelo imperador Teodósio. Baseado em mitos (Deméter deusa da agricultura viu a sua filha Perséfone raptada por Hades deus dos mortos para a fazer sua esposa, o que levou à esterilidade da terra; depois de um compromisso, Perséfone passaria uma parte do ano no sub-mundo e o resto do ano à superfície), representava o ciclo das estações com a morte no inverno e o renascer na primavera. No período clássico, os mistérios eram das cerimónias mais importantes (a par dos jogos olímpicos) e levados a sério. Atenas perdoou muitos disparates a Alcibíades, mas a profanação desses mistérios custou-lhe a pena de morte (de que fugiu) e provavelmente a vitória da sua cidade na guerra do Peloponeso. O imperador romano Juliano participou nesses mistérios.
Em que consistiam? Na realidade pouco se sabe. Como os participantes tinham de manter segredo, só alguns aspectos públicos se conhecem (uma procissão). O resto pode-se deduzir: cânticos, orações, sacrifícios, embora se ignore o conteúdo exacto. Qualquer grego, independentemente da sua classe social podia participar (e ausência de cadastro) tornando-os relativamente igualitários e dando uma sensação de fraternidade; no período romano conseguiriam manter um forte prestigio (apesar da decadência dos cultos tradicionais greco-romanos) e só a sua limitação geográfica (o cerimonial tinha de ser cumprido localmente) impediu uma maior difusão.