segunda-feira, janeiro 23, 2006

A Maldição de Marialva

Tive oportunidade de ver ontem na RTP Memória o filme "A Maldição de Marialva", de António Macedo, que sendo talvez o único filme português que recria a Idade Média (apesar de ser sobre o fantástico, baseado no conto de Alexandre Herculano, A Dama de Pés de Cabra, com demónios, bruxas e um alquimista), consegue prender pela caractetização que faz do que seria um burgo no Portucale do sec. X, ao qual não falta até um maometano pedinte, que para matar a sede acaa por beber vinho, enquanto ouve os cristãos a gozarem com por ter bebido "o sangue de Cristo" (Tens fome? Come porco.)
Desde o vestuário, a linguagem, os nomes, a música, o retrato das actividades quotidianas, tudo contribui para que este filme seja do agrado dos amantes desta época.

Já agora, será que é possível adquiri-lo em DVD?

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Música



Há uns dias atrás estive a ouvir um cd de música do séc. XVII das Provincias Unidas (vulgo, Holanda) países baixos. A maior parte peças era para virginal e alaúde. Não existia uma corte e aristocracia palaciana, o que dava um carácter diferente à sua música; a música era tocada dentro das casas por um dos membros da família (pertencentes à burguesia ou pequena aristocracia) como forma de distração ao serão, não podendo ser muito complicadas, dado que não eram interpretadas por músicos profissionais; os modelos eram habitualmente italianos ou ingleses.

terça-feira, janeiro 17, 2006

O Papa desenterrado




Formoso nasceu em Itália em princípios do séc. IX. Seguiu uma carreira clerical e como numerosos sacerdotes serviu reis como diplomata (por curiosidade: era bispo não residente do Porto, que estava em mãos muçulmanas). Entrou em conflito com o papa João VIII e foi excomungado e foi destituído das suas funções (nomeadamente como bispo). Mas foi perdoado, retomou os seus cargos e acabou por ser eleito Papa; morreu em 896. Ora a partir daqui é que a sua “vida” se torna interessante. Em 897, um dos seus sucessores (Estêvão) decidiu organizar um sínodo, mandou desenterrar o cadáver de Formoso, vesti-lo com as vestes Pontifícias e julga-lo. Foi considerado culpado das acusações, destituído, mutilado, atirado ao rio e todos os seus actos considerados inválidos, incluindo a consagração e nomeação de bispos e por aí além (de padres nomeados por esses bispos, dos sacramentos feitos por estes, etc). O resultado foi uma tremenda desorganização da Igreja (dado que se considerava nulos todos os actos recentes). Isto provocou uma reacção que levou à prisão e assassínio do Papa Estêvão. Depois de uma série de peripécias, um Papa acabou por considerar válidos todos os actos de Formoso, anular o seu julgamento e deposição (colocando um ponto final à situação de confusão que se dera). Todo o episódio foi considerado uma aberração, e serviria de base para a doutrina da Igreja de não anular actos de pessoas consagradas. Mas alguns séculos depois, a Igreja voltaria a efectuar julgamentos de pessoas acusadas de heresia já falecidas.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Guilherme o marechal



Guilherme o marechal representou para muitos o epíteto do cavaleiro perfeito.
Era o filho mais novo de um nobre de alguma importância com cargos na casa real de Inglaterra. Mas sendo o benjamim, a herança familiar estava-lhe vedada. Foi criado por um tio materno (que era mais importante) e depois de ser tornado cavaleiro e equipado, foi deixado por sua conta. Começou a participar em torneios para ganhar a vida. Nos torneios na época (conhecidos por “melee”), duas equipas participavam e combatiam (evitando matar embora por vezes sucedessem os acidentes) por nações às ordens de um capitão; o objectivo era derrubar os adversários para capturá-los e pedir resgate. Venceu centenas de combates, nunca sendo derrotado; era procurado e requisitado para os torneios. Recebeu mesmo um pequeno feudo em França, e o convite por vários grandes senhores com pensão perpétua. Ganhou muito dinheiro, mas esse era todo gasto: ter as melhores montadas, armas, homens a acompanhar, pagar (como era costume) a arautos e escudeiros nos torneios e sustentar toda a comitiva o ano inteiro segundo um padrão de vida aristocrático ficava caro. Foi nomeado tutor do príncipe, e quando este morreu, manteve-se ao serviço do rei Henrique II. Combateu contra os seus filhos (Ricardo coração de Leão e João sem Terra). Quando Ricardo ascendeu ao trono, esqueceu os ressentimentos, e deu-lhe como noiva a 2ª mais rica herdeira de Inglaterra. Para Guilherme terminaram as preocupações pelo seu futuro (já tinha mais de 40 anos e só um pequeno feudo); por curiosidade, acabou por casar o filho mais velho com uma filha de João sem Terra. Guilherme sempre defendeu o soberano quem quer que ele fosse, contra os revoltosos (mesmo que fossem os herdeiros do trono): assim foi com Henrique II, Ricardo I, João sem Terra e Henrique III. Quando João estava a morrer entregou-lhe a custódia do filho menor, dado que deixava o reino em estado aflitivo: uma guerra contra a França (que invadiu a Inglaterra imediatamente) e os nobres em revolta. Guilherme conseguiu vencer em repetidos combates, negociando uma paz que levou à submissão dos nobres e retirada dos franceses. Conseguiu acalmar a situação (confirmou a magna carta), mas quando estava a agonizar (1219), nomeou o legado papal como regente, dada a sua desconfiança para com qualquer membro da nobreza ou clero.
Georges Duby tinha um bom livro sobre esta figura, tendo-se baseado num poema épico encomendado pelo filho de Guilherme (também chamado Guilherme).

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Aguirre o conquistador




Vi o filme há uns anos atrás e lembro-me que me espantou a princípio: actores alemães a representarem conquistadores espanhóis? Mas acabei por gostar muito do filme; mais tarde li uma crónica do séc. XVI de um seu companheiro (creio que se chamava Eldorado o livro) e vou começar por esta, dado que retrata parte da vida de Aguirre.
Lopo de Aguirre nasceu no reino de Espanha em 1510 e era filho de um nobre. Partiu como outros para o novo mundo em busca de riquezas, que tinham feito a fama de Pizarro e Cortês. Ora se essas são as duas expedições mais conhecidas, numerosas outras existiram. Grupos de aventureiros procuravam descobrir novos impérios e atingir o El Dorado. Aguirre participou em várias expedições. Também se meteu em problemas e esteve foragido depois de um assassinato. Conseguiu um perdão da coroa e voluntariou-se (1560) numa outra expedição pelo rio amazonas, liderada por Pedro de Ursua. No ano seguinte (ainda na expedição) participou numa conspiração que substituiu Ursua por Fernando de Guzmão; Aguirre livrou-se dele mais tarde e tomou a liderança. Decidiu então proclamar-se senhor da América do sul e escreveu uma extraordinária carta a Carlos V dizendo-lhe para não se meter no território que era o seu por direito de conquista e esforço de tantos anos. Os seus seguidores mantinham-se fiéis devido à sua crueldade e pronta execução de potenciais traidores. Quando entrou em contacto com as tropas da Coroa, tudo se esborou, os seus seguidores abandonaram-no e depois de conseguir matar a filha, foi morto.
O filme (Aguirre, a ira de Deus) acompanha unicamente a última expedição, embora contenha elementos retirados de outras expedições e contenha alterações em relação à história. Vemos Aguirre que é uma personagem relativamente menor, crescer de importância, as conspirações e a progressiva loucura de Aguirre. No final do filme, vemos os sobreviventes deitados em jangadas à deriva (sem sabermos se estão vivos ou mortos) com Aguirre a gritar as suas futuras conquistas e que criará uma nova estirpe com a sua filha, enquanto uma série de macacos estão nas jangadas indiferentes aos seus gritos. A maneira como a selva é filmada é opressiva: é um inimigo do homem que não devia lá estar e que parte para a morte. E as representações são excelentes, com bons retratos psicológicos.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Textos primitivos-II

Este é o mais antigo texto em língua italiana que sobreviveu (séc. IX). É bastante semelhante ao latim (mais do que o texto francês que já apresentei anteriormente; no entanto já não usa as regras gramaticais que o definiria como tal. É um poema sobre a vida no campo.

Se pareba boues
alba pratalia araba
& albo uersorio teneba
& negro semen seminaba.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

A vida de Brian





Neste natal tive de ver vários filmes, a maioria para esquecer, mas ofereceram-me um que compensa todos os outros: “A vida de Brian”.
Não sendo um filme histórico propriamente dito, é uma sátira bem concebida; já tinha visto o filme há uns anos atrás (sem legendas o que dificultava a compreensão de muitas piadas).
Brian é um jovem que nasce na mesma altura que Jesus Cristo em Israel e leva uma vida paralela (mas não similar). Leva uma vida banal (assistindo a sermões e apedrejamentos), até que entra num grupo anti-romano (creio que é o Judean People's Front, mas não tenho a certeza), que passam o tempo a reunir-se para discutir a opressão romana mas que consideram o seu maior inimigo os outros movimentos. Sem querer torna-se num profeta seguido e adulado por uma multidão (quando ele lhes diz que devem pensar por eles próprios eles repetem em coro que devem pensar por si próprios; formam-se também 2 movimentos rivais, os seguidores da cabaça e os da sandália); acaba por ser preso e crucificado (com os outros crucificados a cantar). As piadas variam entre uma feroz critica ao fanatismo religioso e grupos políticos e outras mais inofensivas, embora não sejam simples (romanes eunt domus). Pareceu-me curioso como muitas ideias apresentadas como nonsense iriam ter outro desenvolvimento.