quinta-feira, dezembro 15, 2005
quarta-feira, dezembro 14, 2005
terça-feira, dezembro 13, 2005
Druidas

Depois de falar de um óptimo filme, vou falar de um péssimo.
“Os druidas”, relatam o conflito de César com os gauleses, sendo Vercingetorix o herói. A história é relativamente fiel aos acontecimentos (com algumas aventuras pelo meio para entreter). O problema é que Vercingetorix é representado por Christopher Lambert (o que fez o filme “Os imortais”), tendo poucas capacidades de representação; nem a melhor representação dos outros actores (nomeadamente Max Von Sidow) o salvam. O filme apesar de tentar ser profundo e dramático não o consegue, e como filme de aventuras também falha. O armamento romano é posterior (mas imagino que tivessem aproveitado os materiais de outros filmes por razões orçamentais) e nem sequer as batalhas são minimamente credíveis (poucos actores e má coreografia: existe um plano filmado de cima que supostamente representa o ponto onde os soldados passam, mas percebe-se que são sempre os mesmos 6 ou 7). Enquanto que o gladiador atropelava completamente a história, inventando alegremente o que queria mas era um razoável filme de aventura, este é apenas aborrecido. É certo que o filme resiste à tentação muito comum de apresentar bons e maus: cada lado tenta defender os seus interesses; também comete muitos atropelos à história. Mas não compensa a má representação e o aborrecimento.
segunda-feira, dezembro 12, 2005
Longevidade

Imagem do imperador Meiji
Quando no séc. XII, os samurais apoderaram-se das rédeas do poder no Japão, os Kuge (aristocracia palaciana aparentada com o imperador), ficaram reduzidos a um papel simbólico, preenchendo os cargos da corte que eram meramente honoríficos. Mas sobreviveram. A velha família fujiwara (que remontava a um período anterior ao séc. VII) com os seus vários ramos (Ichijo, Kujo, Nijo, Konoe and Takatsukasa), assim como outras famílias (Daigo, Hamuro, etc) mantiveram-se como nobres à volta do imperador na capital Quioto, e guardando o que restava dos cargos e terras. No séc. XVI, saiu nova legislação que acabou por os arruinar: todas as terras de uma província pertenciam ao daymio (senhor da província) ou a seus vassalos não se podendo ter terras espartilhadas. A partir do séc. XVII os shoguns atribuíram um rendimento ao imperador equivalente à mais pequena província, o que daria para sustentar a sua família, palácio e alguns servidores mais próximos. Os restante kuge ou ainda tinham terras nos arredores de Quioto, ou tinham de arranjar meio de subsistência. Através do ensino das artes aos samurais, e servindo de mestres de etiqueta e cerimónia, lá foram sobrevivendo até ao séc. XIX (ainda as mesmas famílias do séc. VII, a poligamia assim como um sistema flexível de sucessão com primos tem essas vantagens). Quando se dá a revolução Meiji, parte da nobreza samurai que se recusou a aceitar as mudanças foi destruída. Ora, o novo imperador decidiu criar uma nova aristocracia (Kazoku), e fundiu os kuge com os samurai, existindo uma hierarquia de 5 graus desde príncipes a barões (1884). Por mera coincidência, o grau mais elevado da hierarquia foi atribuído unicamente aos Fujiwara e parentes imperiais, com uma excepção: o último shogun Tokugawa que abdicara do poder pôde formar o seu próprio ramo principesco; todos os outros Tokugawa e daymios ficaram em escalões inferiores da nobreza (quando décadas antes dominavam o país), ainda por cima equiparados às velhas famílias kuge que há um milénio que não tinham qualquer influência real e que se vingavam agora… Toda esta nobreza representada na câmara dos pares, iria reconverter-se em banqueiros e industriais. Mas enquanto que os descendentes dos Kuge se dedicariam mais à política (grande parte dos ministros e primeiros ministros eram príncipes ou marqueses), parte dos descendentes dos antigos samurais iria para o exército. Na década de 20 e 30, com as dificuldades do país, os militares começaram novamente a exigir uma política mais agressiva e a apoderar-se das rédeas do poder em detrimento dos civis. Com a derrota na segunda guerra mundial, os títulos nobiliárquicos foram abolidos. Mas pouco importa: os Fujiwara, Tokugawa e toda as velhas nobrezas do país ainda são as famílias que importam na política e na economia. De facto, cada vez que sentiam um período de uma mudança, tomavam em mãos o processo em vez de esperar que outros o fizessem, de forma a poderem adaptar-se e manter-se como grupo dominante.
sexta-feira, dezembro 09, 2005
As revoltas francesa-V
O maio de 68 como outras revoltas surgiu aparentemente de pequenos factores. Os estudantes da Universidade de Paris que estavam em conflito latente com a universidade e, ao verem a ameaça de expulsão de colegas seus, juntaram-se em protesto na sorbonne (6 de Maio); as autoridades reagiram mandando prender alunos e começaram motins, terminando com centenas de prisões. Nos dias seguintes mais alunos foram à universidade em protesto (que entretanto fora encerrada) e deram-se mais confrontos (e prisões); a partir do dia 6 as coisas pioraram, na medida em que alunos do liceu, professores, trabalhadores apoiaram os estudantes da universidade, e continuaram os confrontos entre a polícia e os manifestantes mas agora pela cidade. No dia 13 os próprios sindicatos vieram em apoio dos estudantes (apesar das renitências do PC francês). Apesar de cedências do governo (libertação dos presos, negociação de reivindicações), a partir daí as coisas espalharam-se pelo país, deixando de ser uma mera coisa de estudantes, com trabalhadores a ocupar fábricas e greves gerais; as exigências feitas pelos sindicatos (aumentos de salários e condições de vida), tornavam-se muito moderadas comparadas com as atitudes dos trabalhadores. Curiosamente as coisas em Junho acalmaram: de Gaulle que recusara demitir-se, marcou eleições para o parlamento, conseguiu que os trabalhadores voltassem a trabalhar e a polícia ocupasse a sorbonne; conseguindo um resultado confortável nas eleições, o assunto ficou para trás.
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Ran
Decidi apresentar neste blog alguns filmes históricos ou vagamente históricos. E o primeiro vai ser um dos que considero um dos melhores do realizador Akira Kurosawa.
O contexto do filme passa-se algures na segunda metade do séc. XVI (uma vez que os portugueses introduziram as armas de fogo em 1542 e demorou-se algum tempo a divulga-las). A estória é vagamente baseada na do rei Lear: um velho senhor (Hidetora) abdica em favor dos filhos (eram 3) esperando que eles se dêem bem, o terceiro discute com o pai dizendo que não deve fazer isso que o entendimento entre eles não durará e o pai exila-o; claro que rapidamente os dois irmãos se coligam contra o pai e assiste-se a batalhas excelentes do ponto de vista visual (nomeadamente o massacre do seu séquito e a destruição do castelo). Hidetora acaba por passar por um período de loucura e deambula acompanhado por dois servidores, encontrando antigas vítimas suas e reflectindo sobre o vazio em que se encontra. Quando percebe (e reconhece) que a razão estava do lado do seu filho mais velho, junta-se a ele, vendo-o ser assassinado às ordens de outro filho e morre de desgosto.
O filme sem se basear numa história verídica, acaba por ser uma excelente amostra do que foi o séc. XVI japonês, com as suas traições e combates. Numa determinada cena, Hidetora pede aos seus filhos para tentarem partir 3 flechas juntas e nenhum o consegue, dando como lição de moral de que se ficassem juntos seriam invencíveis, mas o filho mais novo replica-lhe que o mundo real não se compadece com essas estórias e parte-lhe as flechas sozinhas; depois de tanto sangue que ele derramou, tem de manter o poder, se abdicar será destruído por todo o ódio que semeou (a parábola das flechas foi efectivamente contada por um daimyo do séc. XVI e admira-me ninguém ter feito uma mensagem das que se reencaminham nada na Internet com isso). Uma das personagens que ajudaria à sua destruição foi a mulher de um dos seus filhos que fora casada à força depois de ver o seu clã aniquilado pelo velho Hidetora.
Por curiosidade: não conseguindo Kurosawa financiamentos para os seus filmes no Japão, foram admiradores seus no ocidente (Copola, George Lucas, Steven Spielberg) que lhe pagaram os últimos filmes, nomeadamente Ran.
quarta-feira, novembro 30, 2005
As revoltas francesas-IV
A comuna de Paris foi mais um episódio sangrento. Em 1870, o imperador Napoleão III declarara guerra à Prússia (que formaria o núcleo da Alemanha); a guerra foi um desastre para a França: os seus generais eram de forma geral incompetentes e invejosos, o equipamento e treino também inferiores. Napoleão III acabaria por ter de abdicar, e um governo auto-proclamado (do que seria a III república) iria receber as condições de paz. Parte da população de Paris que fora armada para uma eventual invasão (formando a guarda nacional), e que vira as suas condições de vida degradarem-se sensivelmente no período da guerra, começou a formar comités. O governo ordenou a desmilitarização das milícias pelo exército em Paris, mas este liquidou os oficias fieis ao governo e juntou-se aos agora revoltosos. O governo fugiu e deu ordem de evacuação a todos os que seguissem a sua autoridade. O comité da guarda nacional demitiu-se e nas eleições marcadas saiu um governo municipal (Março de 1871) chamado comuna (tinha nos seus membros desde operários a jornalistas, com tendências tão variadas como anarquistas e republicanos), que dava imenso poder aos comités eleitos localmente.
O novo governo de Paris (pois o seu poder limitou-se à capital) era bastante moderado quando comparado com os governantes da revolução francesa: a propriedade privada não foi tocada (nem confiscações nem nacionalizações), não foram feitas perseguições políticas (embora se planeasse uma rigorosa separação entre Igreja e estado), concentrando-se as mudanças em reformas sociais e laborais (fim de horários laborais nocturnos, devolução das ferramentas aos trabalhadores que tinham sido requisitadas para o esforço de guerra). O governo da III república entretanto conseguiu formar um novo exército com o apoio dos prussianos e passou à ofensiva, conquistando bairro a bairro a cidade. Calcula-se que tinham sido mortos umas 30.000 pessoas, mais um número indeterminado de fuzilados (e depois os presos e exilados).
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