quinta-feira, outubro 13, 2005

Madame du Barry


Ao ver no fim-de-semana passado o filme “A inglesa e o duque” apeteceu-me fazer um post sobre a última favorita de Luís XV.
Luís XV foi-se democratizando com o tempo: no princípio do reinado escolhera como amantes, aristocratas da corte, depois teve Madame de Pompadour, oriunda da burguesia (o que provocara escândalo), e finalmente teve Madame du Barry, oriunda do povo. Du Barry que fora uma ex-prostituta e amante de diversos homens ricos fora introduzida à corte e rapidamente se tornou a favorita do monarca. O escândalo foi enorme: a sua origem social, a sua má reputação, linguagem livre, atiraram-lhe o ódio de todos. Teve uma rivalidade com Maria Antonieta (que sendo de sangue real não se dignava a falar-lhe), o que levou à divisão da corte e imensas intrigas, que contribuíram para aumentar o desagrado popular para com a corte real. Du Barry nunca tentou ter real influência no país, limitava-se a pedir festas, palácios e jóias ao seu real amante. Por muito mal visto que isso fosse, na prática acabava por ser muito mais inofensivo para as finanças francesas do que qualquer guerra.
A morte do seu amante, levou ao seu exílio. Mas com as riquezas adquiridas pôde manter um bom nível de vida. Com o rebentar da revolução francesa, usou a sua riqueza para apoiar exilados e a causa monárquica; numa viagem a França, foi presa e guilhotinada. Assim terminava um dos “símbolos” do antigo regime.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Béria-IV

Depois da campanha da Polonha, os serviços secretos soviéticos foram recebendo sucessivos avisos de espiões seus e de outras potências dos planos alemães de invasão. Ora Béria tendo transmitido essas informações ao aperceber-se de que Estaline não lhes dava crédito decidiu fazer o mesmo: independentemente da sua opinião sobre o assunto, deve ter concluído que não valia a pena desagradar ao chefe e passou a esconder essas informações ou a desvaloriza-las (elas chegavam por outras vias a Estaline que as refutava com Béria a concordar com ele). Revelou-se a melhor decisão a nível pessoal, pois com a invasão todos os que tinham concordado com Estaline foram sendo recompensados, não sucedendo o mesmo às “Cassandras”. Béria entretanto mandou a prisão de e deportação de centenas de milhares de pessoas pertencentes a etnias que eram suspeitas (algumas nem o eram, mas Béria arranjava provas para mostrar o seu valor). Esses deportados eram transportados em comboios de gado, por vezes sem alimentos, aquecimento ou instalações sanitárias com paragens ocasionais para retirarem os mortos, durado semanas as viagens, sendo depois deixados em descampados onde teriam de recomeçar a vida: boa parte morreria quer nas viagens quer depois no Inverno.
O império do NKVD entretanto iria crescer: divisões eram criadas para policiamento das zonas libertadas, campos de internamento, e com o medo de Estaline do exército, o NKVD vigiava atentamente possíveis derrotismos no exército (ajudados pelos comissários). Béria pessoalmente intervinha em frentes de combate, passando por cima da autoridade dos militares, criando confusão. Para além disso, ajudou na mobilização da população no esforço de guerra.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Béria-III




Na década de 20. Béria foi com habilidade livrando-se sucessivamente dos seus superiores e rivais na Geórgia, escrevendo relatórios e acumulando provas contra eles por incompetência ou falta de firmeza revolucionária, acabando por se tornar num líder local, e colocando os seus amigos em todos os cargos de confiança. Aproveitava também as visitas de Estaline à Geórgia para se tornar seu íntimo e da sua família. Quando se decidiu acabar com os Kulaks (proprietários fundiários), como estes eram praticamente inexistentes mas tinham de ser cumpridas quotas de prisioneiros, qualquer pessoa com um talhão de terra era incluída nessa categoria; Béria aproveitou-se da renitência dos seus superiores em prender e deportar os camponeses para os denunciar.
Ora a leitura do capítulo sobre as purgas dos anos 30 é surreal para se compreender o funcionamento do sistema soviético. Estaline substituiu o chefe do NKVD (futura KJB) e começaram-se a descobrir numerosos inimigos internos (dentro do partido comunista) a soldo de potências estrangeiras sendo boa parte deles, velhos membros do partido comunista que sempre tinham sido fiéis. Por alto, deu-se uma “renovação” em cerca de 10% do partido e a esmagadora maioria dos oficiais a partir de coronel. A explicação actualmente encontrada, é de que Estaline teria procurado eliminar todas as figuras que tinham alguma independência e que poderiam opor-se ao seu domínio absoluto (para além de uma paranóia inerente). Para tal, contou com a colaboração de pessoal mais jovem, e de segundo plano que colaborou activamente na eliminação dos seus superiores ascendendo aos cargos; numa segunda vaga, também foram eliminados, para acentuar o clima de terror, e não ficarem com a ideia de que o chefe dependia deles. Parece-me que o assunto é um pouco mais complexo (nomeadamente a desorganização na economia que a eliminação dos quadros superiores provocou, deve ter levado à necessidade de arranjar bodes expiatórios).
E Béria no meio de isto tudo? Ajudou a denunciar traidores (normalmente adversários seus ou pessoal com quem tinha velhas contas a ajustar), mas as purgas afectaram-no pois quase foi executado e viu vários dos seus apoiantes a caírem (não tendo a paranóia de Estaline, criara uma clientela na Geórgia que lhe era fiel e a quem cumulava privilégios).
Ordenou que fosse escrita um a biografia de Estaline que exaltava o seu papel na sua juventude (teria organizado ainda no seminário manifestações, sabotagens e jornais), absolutamente inventada; ao aperceber-se que outras biografias e histórias da URSS anteriores não “provavam” esses factos, mandou prender os historiadores traidores. Aliás, mandou mais tarde fuzilar os colaboradores que tinham escrito esse livro de história, dado que poderiam por em causa a autoria de Béria. Boa parte dos intelectuais e artistas Georgianos acabaria por ser presa também.
Quando depois de uma série de purgas, foi necessário substituir o chefe da NKVD (que foi eliminado depois de conduzir as purgas, deixando de ser necessário), Béria foi chamado a Moscovo e substituí-o. Ora parece que de modo geral, a melhoria foi para melhor (de acordo com a lógica soviética). Béria mandou executar toda a cúpula da NKVD (se o chefe fora um traidor, os subordinados logicamente também o eram), como era natural, mas abrandou o terror (que já não era tão necessário). Os presos deixavam de ser espancados muitas vezes até à morte e depois convencidos a assinar a confissão e (como fora a regra), e passavam a ser instados a assinar, dado que seriam condenados de qualquer modo (a menos que Béria tivesse assuntos pessoais a resolver, o que era em casos pontuais e aí ele poderia ser verdadeiramente selvagem). Começou a haver alguma preocupação em alimentar os presos de forma conveniente (mesmo assim, morriam todos os anos milhares de presos pelas más condições) e em aproveitá-los de forma eficaz para trabalhos úteis ao país. Construindo-se barragens, pontes, estradas e explorando fontes de riqueza, (petróleo, carvão), Béria pôde mostrar brilhantes resultados económicos a Estaline e construir um pequeno império particular. Os subordinados de Béria gostavam dele, dado que ele lhes garantia a segurança e condições de vida.
A menina ao colo de Béria, é a filha da figura com o cachimbo; a foto foi tirada ainda nos anos 30, antes da ascenção de Béria ao NKVD.

terça-feira, outubro 04, 2005

Falta de memória...

...É o nosso grande mal. É extraordinário como a homenagem de ontem do Presidente da República aos prisioneiros do Tarrafal passou completamente despercebida. Em qualquer país que vivesse um bocadinho melhor consigo próprio este acontecimento teria sido transformado, no mínimo, num dia de reflexão nacional. A cerimónia teria sido transmitida nas televisões em directo, teria havido solenidade e emoção. Não é todos os dias que se lembra um dos episódios mais negros da história contemporânea portuguesa, e seria bom que as gerações mais novas soubessem que Portugal também teve o seu campo de concentração.

O que vimos foi a tristeza envergonhada do costume: uns discursos, umas coroas de flores, e acabou. Espero que isto, para os sobreviventes que estiveram presentes, tenha parecido melhor do que me pareceu a mim. Com o passar dos anos (e já lá vão quase 70 desde a abertura do campo), não é previsível que haja muitas mais oportunidades para homenagear os antigos prisioneiros.

Nestas alturas, a comunicação social está sempre à mão para servir de bode expiatório do nosso desconforto com a nossa própria História. Mas não tenhamos ilusões: se estes acontecimentos são quase ignorados, não é porque os jornalistas não lhes dão importância; nós, enquanto povo, é que os usamos apenas como descarga da nossa má consciência; não os assumimos, queremos que passem depressa; frequentemente, tornam-se em exercícios fúteis e indignos.

Como outros já o disseram, Portugal tem História a mais, e o pior é que vivemos mal com ela. Continuamos a misturar a política e a ideologia com tudo o resto. Preferimos continuar divididos onde devíamos estar unidos. Não gostamos de nós próprios, e quando não gostamos de nós próprios a História e as pessoas que a fizeram são maltratadas.

terça-feira, setembro 27, 2005

concurso

Bem, já que ninguém votou para já num pintor barroco, começo eu. Tenho um fraquinho pelos mestres dos países baixos e entre eles destaco Vermeer. Aproveito para colocar um quadro e como já coloquei uma vez aqui o "rapariga com brinco de pérola", coloco outro que aprecio muito "Jovem com dois senhores"



Fólios Virtuais

Não resisto a recomendar seriamente este site: www.bl.uk/onlinegallery/ttp/ttpbooks.html. Um serviço da Biblioteca Nacional Britânica que permite consultar e folhear virtualmente alguns dos mais preciosos livros do mundo, como um Atlas de Mercator, o De Humani Corporis Fabrica de Vesálio, o Livro das Horas da família Sforza e um dos cadernos de apontamentos de Leonardo da Vinci.
Consultem e deslumbrem-se. (É necessário ter o Macromedia Flash Player instalado).

segunda-feira, setembro 26, 2005

Béria-II

Béria era oriundo da Geórgia, de uma remota aldeia, pertencendo a uma minoria aparentada com a maioria dos Georgianos. Estudou, e na adolescência aderiu ao movimento bolchevique (a maioria dos Georgianos era menchevique). Quando estalou a revolução russa, fez trabalhos de infiltração como agente contra outros partidos. Casou com a filha dum importante membro do partido comunista russo. Com a fundação da cheka (polícia contra-revolucionária), pela sua experiência recebeu cargos de importância regional. Contribuiu para que as repúblicas recém-independentes do trans-caucaso, voltassem a ser ocupadas pelos russos. A partir de 1922, depois de alguma moderação, Moscovo decidiu esmagar todo a oposição (antiga nobreza e outros partidos) que tinham sido mais ou menos tolerados nessas novas repúblicas, participando Béria activamente nessa repressão (executando milhares de pessoas), o que lhe permitiu ascender dentro da hierarquia do partido.