domingo, junho 19, 2005

Pestes e Epidemias I

Resolvi abordar uma temática sobre uma das maiores causas de morte durante a história: as epidemias e/ou pestes.

É sabido que os seres humanos não sofrem da mesma maneira relativamente a todas as doenças. Meras doenças infantis numa zona tornam-se epidemias mortíferas noutra. Até uma tosse convulsa (Bordetella pertussis) ou mesmo a varicela (virus varicela-zoster) podem matar milhões numa "zona epidemicamente virgem", se ninguém (de entre esse milhões de pessoas) tiver qualquer resistência a eles. Por exemplo, a tosse convulsa pode ter morto metade da população no Japão nos finais do século IX d.C. Mas o caso mais conhecidona história é a taxa de mortalidade de 90% (aproximadamente) de Ameríndios após os contactos constantes mantidos com os Europeus desde 1492. Embora os conquistadores tenham morto grande parte da população em várias zonas, era fisicamente impossível terem massacrado tão vastas populações. Grupos pequenos demais para levarem com eles as doenças do "Velho Mundo", estabeleceram-se no "Novo Mundo" durante as Glaciações, e poucas doenças surgiram nos 30 mil anos seguintes.
(continua)

sexta-feira, junho 17, 2005

O período Heian

Em 794, uma intriga de corte, levou ao trono do Japão o neto de um anterior imperador, em vez de um filho. A mudança dinástica teria consequências importantes. Depois de vários problemas, o imperador Kammu decidiu abandonar a capital Nara, e depois de sucessivas mudanças foi construída uma definitiva, Kyoto. Embora essas mudanças custassem caro ao estado, foram ruinosas para a aristocracia que em poucas décadas teve de pagar sucessivos palácios. Por coincidência, a morte por conspiração ou velhice de vários elementos seniores da nobreza e menoridade dos seus sucessores, garantiu ao imperador um controle dos assuntos de estado como nunca sucedera. Apontando governadores locais a seu bel-prazer, Kammu e os seus sucessores imediatos tinham um razoável nível de controle, podendo mesmo organizar expedições contra os ainu (ou emishi, um povo aborígene) que controlavam ainda o nordeste do Japão. No entanto, vários elementos minaram esse poder. Os gastos na capital e nas expedições eram muito elevados sem trazer retornos (os ainus eram uma povo muito primitivo). Outro problema foi o sustento da família imperial: cada membro tinha direito a receber alojamentos, uma generosa pensão e criados (sabendo que vigorava a poligamia e que vários imperadores irmãos subiam ao trono sucessivamente abdicando pouco depois em favor dos parentes próximos, vemos a multiplicação que isso gerava). Um imperador decidiu limitar o direito a ser príncipe/princesa até descendentes de 5ª geração, reduzindo mais de 500 membros ao estatuto de nobres (que se tornaram taira ou minamoto), mas mesmo assim o número era enorme. E finalmente, a perca de controlo das terras em favor da formação de uma nobreza terratenente: os taira e minamoto para arranjarem colocação casavam-se com nobres locais, obtinham cargos de administração provincial, ou partiam à conquista de territórios com os seus efectivos. O poder central via assim perder lentamente o controlo do país.
Progressivamente, na própria corte os clãs apoderaram-se do exercício de funções, sendo de todos o mais poderoso, o clã Fujiwara do norte (existiam mais 3 clãs Fujiwara aparentados entre si). Este, graças a uma rede de clientelas, menoridades imperiais e casamento de filhas suas com os imperadores conseguiram tornar-se os senhores da corte.

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O templo de cima localizado em Kyoto, e dedicado aos imperadores Kammu e Meiji, é uma réplica em menor escala de um palácio imperial do séc VIII.

quarta-feira, junho 15, 2005

Botticelli

Um quadro agora de Botticelli, uma Madona como pedida...


Entretanto, ninguém votou ainda em quadros renascentistas extra-itália.

segunda-feira, junho 13, 2005

Como se tornar num deus involuntariamente

Nos finais do séc. IX, em pleno período “Heian” um ex-imperador que governava em nome do imperador (que era uma criança), decidiu para suplantar a influência do clã Fujiwara, promover um funcionário de origens modestas (leia-se: de um clã de importância secundária) de nome Michizune para servir de contra-poder. Michizune fora governador nas províncias e conhecia bem os seus problemas. Com o apoio de outros semelhantes a si, tentou efectuar reformas que permitissem evitar a perda de autoridade e rendimentos que o estado estava a sofrer devido à apropriação da autoridade do estado pelos governadores e senhores locais. Mas os clãs da corte opuseram-se, e o chefe do clã Fujiwara conseguiu convencer o imperador quando este chegou à maioridade, que Michizune pretendia destroná-lo em favor de outro parente. Michizune foi então exilado para a província (e o ex-imperador seu protector colocado num mosteiro). Mas a história seria caprichosa. Michizune que já era idoso, morreu pouco depois e por coincidência, o mau tempo e tempestades assolaram o Japão. Os adivinhos foram peremptórios: o fantasma do defunto estava a vingar-se. Foram efectuados sacrifícios e cerimónias de expiação e algum tempo depois o tempo melhorou. Começou-se a associar o nome de Michizune a um deus dos raios, e (não percebo bem como) a protector dos letrados; ainda actualmente ele tem um culto no Japão, com templos.
Algumas das suas reformas seriam implementadas um século depois, mas por essa altura já era tarde demais para fazer frente aos senhores feudais e os Fujiwara tinham um poder reduzido à corte; no séc. XII começaria o conflito Taira/Minamoto. Vou assim começar uma série de posts sobre o período Heian.

quarta-feira, junho 01, 2005

Concurso de arte

Bem, posso dizer que no concurso de maio todos foram vencedores (literalmente), já que houve 5 votos para 5 autores diferentes. Vou colocar durante o mês quadros desses artistas. E seguindo a ordem de votação, começo com Rafael.



Entretanto para o mês de Junho o tema será pintura renascentista extra Itália. Portanto vale tudo: flamengos, ibéricos, ingleses.

terça-feira, maio 31, 2005

Lixo

Embora esta estória não esteja relacionada com História, é tão tenebrosa que acho que merece ser contada. Uma pessoa minha amiga conhece uma jovem (que vamos chamar “A”) licenciada e que está a efectuar um mestrado que se queixou de recentemente a avó estar a ficar velha. “A”, não estava com os seus pais para “aturar a velha” (palavras textuais) e então tiraram-na da sua casa onde norava sozinha (note-se, a casa da “velha”) e colocaram-na num lar (e ficaram com a casa). Qual foi o espanto de “A” ao descobrir que a casa da “velha” estava repleta de livros aos milhares (fora professora), velhos (alguns com mais de 100 anos). Tiveram um enorme trabalho para deitar tudo ao lixo (os livros pesam muito). Nem sequer teve o lampejo de tentar vender os livros num alfarrabista ou doa-los: eram apenas livros velhos. Só não devem ter deitado a avó para o lixo porque se calhar dava muito nas vistas e a vizinhança era capaz de reparar.
Correndo o risco de parecer maldoso, espero duas coisas: que a pobre senhora tenha Alzheimer para não se ter apercebido do que se passou ao despejarem-na num lar e privarem-na dos livros que imagino lhe fossem queridos e que à sua neta (A”) lhe façam exactamente o mesmo só que estando lúcida. O pior, é que como me disse a minha colega, esta gente costuma ter sorte.
Quando amigos meus se queixam de que os políticos e pessoas de outras áreas têm uma indiferença pelas coisas da cultura, acho isso coisa de pouco monta por comparação a isto.