Embora esta estória não esteja relacionada com História, é tão tenebrosa que acho que merece ser contada. Uma pessoa minha amiga conhece uma jovem (que vamos chamar “A”) licenciada e que está a efectuar um mestrado que se queixou de recentemente a avó estar a ficar velha. “A”, não estava com os seus pais para “aturar a velha” (palavras textuais) e então tiraram-na da sua casa onde norava sozinha (note-se, a casa da “velha”) e colocaram-na num lar (e ficaram com a casa). Qual foi o espanto de “A” ao descobrir que a casa da “velha” estava repleta de livros aos milhares (fora professora), velhos (alguns com mais de 100 anos). Tiveram um enorme trabalho para deitar tudo ao lixo (os livros pesam muito). Nem sequer teve o lampejo de tentar vender os livros num alfarrabista ou doa-los: eram apenas livros velhos. Só não devem ter deitado a avó para o lixo porque se calhar dava muito nas vistas e a vizinhança era capaz de reparar.
Correndo o risco de parecer maldoso, espero duas coisas: que a pobre senhora tenha Alzheimer para não se ter apercebido do que se passou ao despejarem-na num lar e privarem-na dos livros que imagino lhe fossem queridos e que à sua neta (A”) lhe façam exactamente o mesmo só que estando lúcida. O pior, é que como me disse a minha colega, esta gente costuma ter sorte.
Quando amigos meus se queixam de que os políticos e pessoas de outras áreas têm uma indiferença pelas coisas da cultura, acho isso coisa de pouco monta por comparação a isto.