quinta-feira, abril 07, 2005

O caso da amante assassinada

Através do Público descobri esta interessante nota (como o conteúdo deste jornal é pago, link antes para a notícia do Guardian).
Análises de ADN confirmaram que Agnés Sorel, a amante oficial do rei Carlos VII de França, foi efectivamente assassinada. A confirmação deveu-se aos altíssimos níveis de mercúrio que foram detectados no pêlo de uma das axilas do corpo exumado.
O caso é interessante, não só pela figura castiça de Agnés Sorel - transformou Carlos VII de homem casto em monarca tarado sexual, inventou o decote um-peito- tapado-outro-destapado e as caudas de vestidos de 8 metros, mas substancialmente por revelar a utilidade que as descobertas científicas podem trazer à história: por exemplo, recorrendo à informática foi possível reconstituir o rosto Agnés tal como seria e confirmar semelhanças com quadros da época (como este abaixo).

quinta-feira, março 31, 2005

Blitzkrieg-XII

Bem, restam só a conclusões do livro que são de qualquer modo muito interessantes.
O exército alemão não possuindo uma superioridade numérica por aí além (na campanha da polónia tinham um exército de igual número, na França e URSS estava em desvantagem), sem armamento extraordinário (os seus tanques eram inferiores aos franceses, para não falar dos soviéticos, os tigres e panteras apareceram muito tarde para não falar das armas maravilhas como o V-1, V-2 e messerchmit 262 que só apareceram no fim da guerra), no entanto conseguiu numerosas e espectaculares vitórias, e depois na fase das derrotas aguentou-se muito bem. A que se deve esse segredo? Segundo o autor é preciso recuar nos anos. Até à velha Prússia e Alemanha do Kaiser.
Em 1914, a Alemanha tinha uma população recrutável um pouco superior à francesa, mas inferior à inglesa e francesa juntas. Mas possuía o dobro dos oficiais. E estes estavam bem treinados (é certo que as unidades alemãs estavam divididas conforme a proveniência dos estados mas os prussianos é que acabavam por dirigir as coisas). Durante a guerra, por razões propagandísticas, espalhou-se o boato que os alemães funcionavam como máquinas, frios e obedientes mas incapazes de iniciativa. Ora o que sucedia era precisamente o contrário: aos oficiais e sub-oficiais era dado o máximo de informação para no caso de faltar um superior, o subordinado saber o que fazer e como reagir (e dar-lhe a compreensão dos objectivos propostos em vez de se limitarem a ordenar o que fazer). O contrário do que sucedia com os aliados. O resultado foi um número de perdas muito inferiores aos aliados (e um número de perdas de oficias muito inferiores). Quando a Alemanha foi obrigada a desarmar-se, teve de reduzir o seu exército a 100.000, que tinham um elevado número de oficiais (demasiado elevado em proporção ao que era normal), em que aliás se tinha feito uma selecção criteriosa. Quando a Alemanha se rearma, possuí mais oficiais que os seus adversários para treinar os soldados, e tem um maior número de sobreviventes da primeira guerra. Apesar de dos oficiais em 1940 se queixarem que os soldados estavam pior treinados do que na guerra anterior (a queixa do costume, ou modificação populacional, com menos agricultores e mais soldados oriundos da cidade com menos resistência?). Mesmo as Waffen SS, eram enquadradas na maioria das vezes por antigos soldados ou sub-oficiais da primeira guerra (como Sepp Dietrich), que tinham a vantagem de serem claramente fanáticos e experientes (Himmler sem experiência de combate era claramente uma excepção). Os franceses consideravam que os seus soldados estavam melhor treinados, mas para além de resistir pouco mais faziam. Possuíam unidades provavelmente melhores (a legião estrangeira, tal como os ingleses), mas no computo geral, tinham um exercito claramente inferior no campo de batalha.
Isto não quer dizer que as armas não foram importantes, ou as tácticas, simplesmente, o que contou no final de tudo para explicar o sucesso alemão foi simplesmente o factor humano: os soldados alemães eram melhor treinados e “usavam melhor o cérebro” (usando uma expressão do autor). Tanto que os contra-ataques na Normandia e nas Ardenas contrariaram o que os oficiais superiores apontavam como sensato e apressaram assim - felizmente - o fim da guerra.

quarta-feira, março 23, 2005

Blitzkrieg-XI

Para as derrotas de Market-Garden (a célebre ponte muito longe), Metz e a ofensiva das Ardenas, autor dá a mesma explicação: o ignorar deliberadamente as realidades do terreno.
Para a operação de Market-Garden, os ingleses estavam fixados nas vitórias que os alemães tinham obtido com os para-quedistas, ignorando os custos tremendos em homens que tinham implicado. Por julgarem os alemães completamente abatidos depois das derrotas da na França, Montgomery julgava que quaisquer tropas aí presentes desatariam a fugir, incapazes de esboçar reacção; ora isso era ignorar a capacidade de os alemães em pegarem em restos de unidades, criar grupos de ataque funcionais e ripostarem. Para resumir, os para-quedistas ficaram espalhado por uma extensa zona longe dos pontos de aterragem acordados (como é costume), estiveram muito tempo sem ordens, mas segundo o autor nada disso influi, já que é eles efectivamente ocuparam as zonas planeadas (reagindo os alemães com grande lentidão por não acreditarem na operação). Quando às célebres 2 Pz SS aí presentes, não passavam de destacamentos de reconhecimento (que tinham veículos blindados mas nada de tanques panteras ou tigres como habitualmente se julga). O que provocou a catástrofe, foi mesmo o atraso do exército de socorro. Existia uma única estrada viável, que tinha peças anti-tanques com pequenos destacamentos de infantaria e ninhos de metralhadoras que não desataram a fugir. Os britânicos não podiam deixá-los aí tranquilos a disparar e tiveram de combater todos esses grupos para limpar o caminho. Para os para-quedistas foi o fim.
Em Metz foi o exército de Patton que teve de enfrentar a realidade. Os alemães tinham guarnecido as velhas fortificações do séc. XIX com tropas de 2ª linha e tudo o que não era considerado capaz de combate em frente móvel. Ora nem a aviação nem os blindados americanos podiam fazer alguma coisa e teve de se travar um combate semelhante a Estalinegrado de 2 meses que sangrou profundamente os americanos. Quando Patton declarou a vitória e mandou avançar, existiam ainda grupos alemães isolados que possuindo abastecimentos e mantiveram a luta.
A ofensiva das Ardenas preconizada por Hitler em Dezembro de 1944, estabelecia que grandes forças blindadas (beneficiando do mau tempo que impediria os aviões aliados de travar os alemães) deveriam varrer os americanos e chegar a Antuérpia. O que sucedeu foi que os enormes tanques alemães avançavam com dificuldade pelas más estradas (fora mais fácil em 1940 com Pz1 e Pz2) e tinham de enfrentar os grupos de americanos que iam resistindo ou recuando mas nunca se desmoronando. É certo que houve efeito de surpresa, mas o alto-comando aliado rapidamente se refez e lançando tropas ao contra-ataque detiveram os alemães que perderam as suas últimas reservas.
A partir daí era o fim: a frente desmoronou-se quer pela pressão aliada por toda a linha quer (mas sobretudo) pela rendição em massa dos alemães (no leste continuaram a lutar ferozmente até Berlim).

sábado, março 19, 2005

O raio dos revisionistas...

Quem os lê até pensa: "Como é que aqueles incompetentes dos americanos e dos britânicos, que ainda por cima tinham armas piores, conseguiram derrotar àquela magnífica, maravilhosa, infalível máquina-alemã-de-guerra-que-tudo-esmaga?"

Já repararam que as vitórias dos Aliados são sempre diminuídas, fruto da sorte ou apenas da superioridade numérica ou logística? Há sempre um "apesar de", um "lá conseguiram".

Quer se queira, quer não, por muito que custe a engolir aos germanófilos (e há muitos encapotados) e aos revisionistas, a invasão da Normandia foi um grande feito de armas. Lançar um ataque anfíbio e aerotransportado daquela dimensão contra posições fortificadas era uma jogada extremamente arriscada que tinha tudo para correr mal. Não era por acaso que Eisenhower tinha uma mensagem preparada para ser transmitida ao mundo no caso das coisas correrem mal.

Bastava que os alemães tivessem conseguido travar o ataque nas praias. Como se sabe, a artilharia naval e os ataques aéreos pouca ou nenhuma mossa fizeram nas defesas costeiras, pelo que a infantaria teve de avançar direita aos canhões, de peito feito. Mesmo assim venceram. O resto é conversa.

quinta-feira, março 17, 2005

Um jantar no deserto

Para já uma palavra de agradecimento pelos simpáticos cumprimentos dos colegas de blog. Não sou um especialista em história como eles, mas um mero curioso, pelo que não me debruçarei sobre grandes questões de fundo, deixando aqui apenas alguns episódios e factos que me despertaram a atenção.
A propósito da série Blitzkrieg do Parca, relato a seguinte historieta:
Montgomery era um homem espartano, habituado e apreciador da sobriedade saudável e esta característica garantiu-lhe várias anedotas a propósito dentro da instituição militar. Garantiu também uma funda antipatia com Churchill, gourmet dos prazeres da vida. Ficou lendária a fúria do general quando descobriu que o primeiro-ministro lhe enchera a tenda de fumo de charuto. E não admira, portanto, que, perante a interpelação de um deputado trabalhista, indignado por saber que Montgomery havia convidado o general alemão vencido Von Thoma para jantar nos seus aposentos, Churchill tenha replicado: - Pobre Von Thoma. Eu tive de passar pelo mesmo.

terça-feira, março 15, 2005

Blitzkrieg-X

Algumas surpresas são-nos reservadas para o desembarque da Normandia. Ficamos a saber que a equipa inicial (inglesa) que projectou o desembarque, pretendia um ataque com apenas 7 divisões numa pequena área, que deveriam numa operação relâmpago furar as linhas alemães. Os norte-americanos discordaram fortemente do projecto por o considerar insuficiente; Montgomery considerou o plano um disparate e com Eisenower acabou por elaborar uma “modificação” que seria a operação Overlord; Churchill acabou por dar o seu aval contra o seu estado-maior.
Quanto à campanha, os aliados pareciam desconhecer completamente o tipo de terreno que enfrentava pelos ataques que efectuavam: grandes grupos em colunas sem apoio de infantaria passeando pelo Bocage, que eram normalmente parados por peças anti-tanques ou tanques isolados- o caso de Witermann que deteve sozinho o exército britânico é bem conhecido. Os alemães adaptaram-se às mil maravilhas, estudando bem o terreno, aproveitando cada ponto de defesa (normalmente sebes que escondiam as suas tropas)
A Normandia apesar de numerosos atrasos lá foi conquistada e depois de um contra-ataque ordenado por Hitler, o exército alemão teve de debandar da França para não ser aprisionado (mesmo assim as perdas em homens somam-se em centenas de milhares de homens mais o material); mas a maioria lá conseguiu chegar às suas linhas. E enquanto que os aliados tinham de enfrentar novas dificuldades (o desmoronamento da frente alemãs ao permitir-lhes avançar rapidamente, dificultou-lhes o reabastecimento de carburante, munições e alimentos, enquanto que os alemães deslocando-se a pé, acabavam por ser mais rápido). Como a ofensiva começou a “patinar”, os vários generais (Patton, Montgomery, Bradley) sugeriram cada um lançar uma ofensiva que fosse directa ao coração da Alemanha (comandada por só obviamente). Eisenower fez o que foi imensamente criticado na época mas que para o autor era a única atitude correcta: dividiu os recursos pelos vários exércitos em vez de concentrar tudo num. É que o autor considera que a Alemanha só poderia ser vencida por uma pressão contínua em todas as suas fronteiras impedindo-a de lançar contra-ataques com imensos recursos numa zona só. Se só um dos exércitos aliados fosse privilegiado, esse ataque seria facilmente neutralizado dada a superioridade no terreno dos alemães do ponto de vista táctico.

segunda-feira, março 14, 2005

O mercador de Veneza

Este fim-de-semana fui ver “o mercador de Veneza”. Excelentes cenários, bom guarda-roupa, enfim, o costume. Foram acrescentadas algumas falas que na minha opinião melhoraram a peça (estou a falar de cor, mas creio que são de outras peças). Al Pacino está fantástico como Shylock, tornando-o profundamente humano e levando-nos a ter pena pelo seu esmagamento final (pelo menos eu tive). Depois de ver tanto mau filme histórico ultimamente no cinema, ver um bem representado é um prazer (mesmo que não retrate nenhuma situação que se possa considerar “real”).