quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Recordações

Bem, gostaria em primeiro lugar dar as boas vindas ao Jorge; embora sempre tivesse feito parte do grupo do Tempore, é a primeira vez que escreve. Espero que o continue a fazer.
O meu post de hoje vai fugir bastante ao normal, dado que vai ser sobre recordações pessoais; a origem da reflexão foi a morte da irmã Lúcia a última vidente de Fátima (mesmo que não vá falar dela, acho que acaba por estar relacionado).
Conheci duas “videntes” (utilizo esse nome à falta de melhor). Uma delas era minha vizinha. Quando era pequeno, não percebia o que se passava, só que imensos carros lá paravam. Vi a casa crescer muito no sentido literal do termo, aumentando anexos e andares. Brincava muito com os seus filhos (só com os 3 mais velhos, os 2 mais novos eram muito crianças). De qualquer modo não simpatizava muito com a senhora, achando-a muito arrogante (os filhos e o marido eram completamente diferentes dela). Ela bem tentou que os filhos estudassem mas eles não quiseram (de facto ter dinheiro não basta, teria sido necessária toda uma educação em casa e o estímulo da leitura). Apesar irem para lá pessoas relevantes a nível social e com estudos (pelo menos para nós), como as vizinhas diziam, “ela dava-lhes a volta”.
A 2ª “vidente” que conheci era muito diferente. Era a avó de uma amiga minha, uma senhora portanto idosa. Era bastante humilde, analfabeta, e simpática (o que se espera de uma avó). Mas tinha uma excelente capacidade de análise, e quando estávamos a brincar, ela falava connosco, perguntava-nos coisas, completava o que dizíamos. Não aceitava dinheiro dos seus clientes (quanto muito poderia receber prendas de coisas inúteis), por isso continuou a ser uma pessoa pobre. Ela achava que tinha um dom que não era dela e portanto nada devia cobrar. Acho que a minha vizinha teria sido uma boa advogada, e a avó da minha amiga uma excelente psicóloga, dados os seus talentos naturais. Mas como tiveram a tragédia de nascer em Portugal, ficaram condenadas a ser mulheres incultas usando as suas capacidades como bruxas de aldeia, desprezadas pela vizinhança, pelas igrejas locais e por todas as pessoas mais instruidas que as viam como focos de superstição.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Amor em tempos de guerra

Tendo em conta o dia que se celebra hoje, e sem grande considerandos sobre o seu bom gosto, relevância ou origens, vou deixar esta pequena história:

Montaigne relata num dos seus ensaios um episódio supostamente verídico. Um aristocrata general, depois de ter vencido e ocupado uma cidade, resolveu dar mostras da sua galantaria, permitindo que as mulheres pudessem partir em liberdade com os filhos e ainda levando qualquer objecto que lhes pertencesse e que fossem capazes de carregar às costas.
De imediato, quase todas as mulheres em causa se dirigiram aos seus maridos e namorados aprisionados e começaram a levá-los às cavalitas.
Enternecido com o gesto, não só o general lhes permitiu a ousadia, como ainda decidiu não incendiar e arrasar a cidade.

Blitzkrieg-IV

Não há como uma boa gripe para nos prender à cama e obrigar a ler. Infelizmente nenhum dos livros era de história, portanto vou ter de continuar com os assuntos que estava a desenvolver.
O exército da Holanda é apresentado sob cores muito favoráveis; embora tivessem poucos tanques e aviões, tinham muita anti-aérea e canhões anti-tanques. Também tinham outra arma eficaz: a destruição dos diques que permitia inundar parte do país. Sendo invadidos pelos alemães, estes tentaram ocupar as pontes com paraquedistas que teriam de aguentar até à chegada de reforços. Bem, a situação correu até bem para os holandeses: de pouco mais de uma centena de aviões tinham perdido 80% em 2 dias, mas os alemães perderam cerca de 330 aviões sendo a maioria os transportadores aéreos e bombardeiros (280), o que significa que perderam ainda dezenas de caças modernos. O famoso bombardeamento de Roterdão foi feito por engano: tinha-se decidido adiar o ataque mas alguém ignorou a ordem e a vaga foi lançada. Os paraquedistas e unidades de assalto tiveram um sucesso muito mitigado contra as tropas recrutas holandesas: só a rendição do exército holandês (que na maioria nem combateu e ficou espantado com a ordem), deu livre acesso aos alemães.
Com a Bélgica as coisas foram ainda mais estranhas: possuía um pequeno exército que se preparara durante uns anos para a eventualidade de um conflito, mesmo com os seus políticos a tentarem evitar a situação a todo o custo. Tinham anti-aéreas, canhões anti-tanques, e muita, muita infantaria. Resistiram enquanto puderam.
Quanto ao exército francês, este sofreu imensas calúnias, que o autor tenta clarificar (mesmo não escondendo os defeitos). Uma delas, é a de que não existia aviação francesa de jeito, composta por aviões velhos que foram destruídos no solo pelos alemães. Ora, o autor diz que existiam aviões bons e maus. Mas o que salienta mais é a inexistência de D.C.A. e que isso fez toda a diferença (ele apresenta 1 exemplo de 2 baterias alemães que destruíram 540 aviões aliados que tentaram destruir uma ponte que os alemães usavam e que ainda por cima se manteve intacta). Ora, enquanto os alemães tinham o famoso stuka, os aliados nada tinham de comparável em termos de pontaria, o que significou que os contra-ataques aliados eram esmagados. Os aliados sacrificaram a sua aviação em Sedam, e passado uns dias, foram obrigados a retirar o que restava dos seus aviões. Os alemães também optaram por ter os seus aviões perto das linhas da frente o que lhes permitia fazer imensas surtidas por dia o que lhes dava uma vantagem numérica mesmo tendo um número inferior de aviões; os aliados para manter a sua aviação segura, tinham-na em aeroportos longe, o que reduzia o número de ataques que podiam efectuar. Em 2 batalhas de tanques vemos curiosamente a vitória inclinar-se para o lado aliado, com menos número de perdas. Os alemães atacavam sempre com tudo independentemente das perdas. Então, apesar das coisas terem corrido mal em Sedam, como é que a França perdeu? Bem, depois da ruptura de Sedam (que era uma derrota, mas não o fim), o primeiro-ministro Reynoud contagiado pelo comandante francês (Gamelin) telefonou a Churchill a dizer que a França estava derrotada. Churchill ainda o tentou animar mas mandou as tropas se prepararem para uma retirada pelo sim ou pelo não... O comandante das tropas inglesas cujas tropas ainda pouco tinham combatido, em vez de as mandar contra-atacar em Sedam mandou retirar tudo. Os Belgas ficaram isolados e tiveram de se render e de repente, todo o norte da França ficava descoberto; toda a gente sabia que a França estava condenada excepto os soldados e oficiais no terreno que continuavam a combater (parece que mesmo Hitler não sabia da queda eminente da França já que se estava preparado para mais uns meses de guerra). Entretanto a linha Maginot resistia sem problemas aos ataques alemães. O novo comandante francês (Weygand), ordenou a resistência no terreno, organizando contra-ataques, e conseguiu manter a defesa até Junho, quando o governo assinou a capitulação.
Basicamente, o autor culpa Churchill por ter dado ouvidos ao governo francês, quando já sabia que por experiência estes eram sempre derrotistas, prontos a assinar uma capitulação à primeira oportunidade; a Inglaterra deveria ter mantido uma posição firme o que teria permitido sustentar a frente (como sucedeu na 1ª guerra).

Quando o bêbado salva a vila

Rothenburg (sobre o Tauber), uma vila do noroeste da Baviera, a 64 Km oeste de Nuremberga é conhecida por um acontecimento durante da Guerra dos Trinta Anos quando foi assediada e capurada pelo exército Católico comandado por Tilly (1631) - a localidade foi salva de ser saqueada quando um cidadão apostou que conseguia beber mais de 3 quarts (1 quart = 3 litros) de uma só vez. Esta ocasião é comemorada todos os anos entre Maio e Junho com uma festa.

http://www.meistertrunk.de/thissiteinenglish/thissiteinenglish.html

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Casamentos perigosos

Imaginem que são reis de um povo civilizado. Utilizam como mercenários um povo bárbaro que por acaso é extremamente eficiente em combate contra os seus adversários (embora eles estejam submetidos à nossa vontade). Para fortalecer os laços com essa tribo decidem casar a vossa filha com o chefe deles. Quando eles dizem que a vão tratar como uma deusa vocês pensam que:
A)Eles vão honra-la e trata-la com todo o respeito.
B)Tolera-la como mais uma mulher/concubina do chefe, mas pelo menos respeitam as aparências.
C) Esfola-la, confeccionar com a pele dela um “vestido”para o sumo-sacerdote usar em cerimónias e tingir o templo com o sangue dela.
Esta situação sucedeu na primeira metade do século XIV. O rei de Colhuacan (noroeste do México), descobriu (às custas da sua filha), que a tribo dos “mexicas” (que ficariam conhecidos como aztecas), tinham uma religião particularmente sanguinária; declarou-lhes guerra e expulsou-os. Depois de muitas peripécias começaria a sua lenta ascenção.

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Blitzkrieg-III

Sobre as campanhas da Finlândia e da Noruega o autor não desenvolve muito. Ficamos a saber que os finlandeses tinham uma arma semi-automática (outros exércitos também a tinham) mas que eles a usaram em grandes quantidades, destroçando unidades inteiras soviéticas. Contra os tanques inventaram o coktail molotov (muito arriscado de se usar, mas o desespero faz milagres). Os soviéticos tinham excelente equipamento, e atacaram de “forma moderna”: lançando primeiro a aviação, depois os tanques e no fim a infantaria. A aviação tinha má pontaria (num bombardeamento em Helsinkia falharam todos os alvos propostos e conseguiram para cúmulo acertar na embaixada soviética); os tanques eram destruídos por grupos emboscados, e a infantaria era exterminada no fim: o que falhou foi mesmo a teoria que foi aplicada. Para se justificar esse falhanço os historiadores socorrem-se habitualmente a diversas causas: as purgas de Estaline, a inexperiência do exército, a coragem dos finlandeses, etc, desviando-se das causas reais. Se para os finlandeses a guerra foi terrivelmente custosa (quase uma centena de milhar mortos e feridos para um país de 4 milhões), para os soviéticos foi bem pior: os números oficiais na época indicavam mais de 100.000 mortos e feridos, mas desde então o valor foi actualizado para 10 vezes esse número...
A campanha da Noruega é apresentada como um desperdício de recursos dos aliados, que depois de terem abandonado a Polónia, queriam (devido à pressão das suas opiniões públicas) mostrar acção. Desviaram assim tropas de elite (a legião estrangeira), aviões e barcos que fariam falta na frente principal.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Madame de Maintenon

Esta mulher como numerosas outras com influência política foi acusada de todos os males possíveis e imaginários da França do final do reinado de Luís XIV. Nascida em 1635 e oriunda de uma família huguenote (protestante) arruinada, foi pressionada em jovem a converter-se ao catolicismo, de que seria mais tarde uma fervorosa adepta. Desprovida de recursos financeiros, acabou por receber o inesperado apoio do escritor Scarron que a propôs em casamento-1651 (ele era inválido e assim obteve uma reconhecida enfermeira); neste período foi adquirindo contactos com a alta sociedade e meios literários. Enviuvando 9 anos depois, ficou novamente em situação difícil, mas a Favorita do rei Luís XIV (madame de Montespan), entregou-lhe a educação dos seus bastardos (dado que estava demasiada ocupada com a vida da corte). O seu carácter demasiado sisudo levou a que o rei a desprezasse, mas lentamente ao ver a maneira afectuosa como tratava os seus filhos começou a apreciar a sua companhia (por oposição a Montespan que ignorava completamente os seus filhos), e recompensou-a tornando-a marquesa. Madame de Maintenon esforçou-se por tornar a corte mais virtuosa e o rei acabou por correr com Montespan (um processo de feitiçaria e envenenamento em que esta esteve envolvida também devem ter ajudado a decidir o rei, apesar de ele ter abafado o caso; aliás quem ficou encarregado de a expulsar do palácio de Versailhes foi um dos seus filhos que a odiava e adorava aquela que considerava a sua verdadeira mãe, Maintenon). Bem, por conselho de Maintenon, o rei aproximou-se da rainha Maria Teresa (quem já viu uma das versões do filme com Richard Chamberlain “O homem da máscara de ferro” lembra-se da mulher idosa e careca) e voltou a ser afectuoso com ela; a família real e sobretudo Maria Teresa ficaram extremamente gratas a Maintenon. Com a viuvez de Luís XIV em 1683, o rei provavelmente acabou por casar com ela em segredo (digo provavelmente, porque embora os historiadores o aceitem de forma pacífica, não ficaram registos escritos da cerimónia, mas apenas testemunhos de outras pessoas). A partir daí, é um pouco delicado avaliar a sua influência. Vários autores atribuem-lhe a responsabilidade da revogação do édito de Nantes (1685) ou pelo menos o seu apoio a essa medida (que implicou o fim da tolerância de que os protestantes tinham tido até então, optando muitos pelo exílio - boa parte deles eram artífices o que foi um golpe na economia - ou a luta aberta, ao mesmo tempo que aumentou a hostilidade dos países vizinhos). Também lhe é atribuída responsabilidade pela intervenção francesa na guerra da sucessão de Espanha. Conseguiu também que fosse afastada da regência o boémio duque de Orleães em caso de morte do rei (e na prevista menoridade do futuro Luís XV), mas este conseguiu que depois do falecimento de Luís XIV (1715) o parlamento anulasse essa decisão (que teria graves consequências nos reinados seguintes).
De concreto sabemos que criou um colégio para jovens aristocratas empobrecidas (Saint Cyr) de vida austera, ajudou raparigas pobres, procurou remodelar conventos que não vivessem de acordo com o modelo de vida proposto. Fez um esforço para moralizar a corte francesa de Versailhes (essa corte que fora das mais alegres e dissolutas acabaria por segundo as palavras de um observador "tornar-se tão religiosa que até um calvinista se aborreceria"). Boa parte da nobreza aí residente acabaria por se afastar para além dos período obrigatórios de presença. Faleceu no colégio que criara em 1719.