quarta-feira, novembro 03, 2004

Notícias de Portugal

Hoje vou passar para um tema completamente diferente do que habitualmente abordo: o Portugal contemporâneo.
Recentemente conversei com uma pessoa mais velha oriunda do campo, e fiquei tão interessado na descrição que me fez do seu mundo, que não resisti a escrever alguns dos temas da conversa.
Essa pessoa pertencia a uma família de caseiros. O seu avô fora um jornaleiro (trabalhava as terras de outrem em troca de um salário por dia de trabalho); o pai, depois de imensos anos conseguiu comprar uma junta de bois, algumas alfaias agrícolas e deste modo tornar-se um caseiro. Para quem não sabe o que significa, os caseiros eram pessoas que combinavam cultivar uma terra de um proprietário por um determinado período (1, 2, ou mais anos), em troca de uma renda (que para determinados produtos era em quantidade fixa, para outras era percentual).
Numa das propriedades, o Sr. X (chamemos-lhe assim) a principal produção era de milho e deviam entregar 9000 litros de milho; mais uma determinada quantidade de cebolas, frutas, e metade do vinho; caso não conseguissem atingir a quantidade acordada, teriam de comprar milho para entregar. E se a colheita corresse bem? Bem, a resposta deixou-me espantado: o regedor (uma espécie de funcionário local) observava a quantidade que sobrava ao caseiro (depois de ter sido pago ao proprietário o estipulado) e podia retirar o excesso em proveito do governo (o argumento invocado, é que era utilizado em favor dos mais pobres, mas quando lhe perguntei se alguma vez recebeu alguma coisa em maus anos, e tiveram de facto maus anos passando fome, deu-me uma resposta negativa), deixando unicamente aquilo que seria suficiente para o seu sustento e da sua família (ainda gostava de saber se isso era um imposto, ou uma requisição-o que era mais provável dado que a quantidade dependia da vontade do regedor, embora pareça roubo puro e simples a coberto de qualquer esquema legal).
Ora os caseiros também não eram idiotas, e o que faziam era esconder o excesso, deixando apenas à mostra o suficiente para comerem para mostrar como o ano era mau; o regedor partia sempre do princípio de que estavam a mentir e retirava uma parte do que estava à mostra. De qualquer modo, a parte que já era entregue ao proprietário era muito elevada, e apenas dava para manter o que tinham, sendo impossível sonhar com adquirir uma propriedade própria (de qualquer modo, a sua sorte era muito mais invejável que a dos jornaleiros, dado que estes só recebiam quando trabalhavam, e nas épocas mortas nada tinham). Os caseiros eram obrigados a contratar jornaleiros em determinadas alturas (como nas colheitas); os diferentes caseiros acordavam entre si quando os jornaleiros trabalhavam em que propriedade (para evitar que sendo muitos poucos em cada terreno, não se efectuasse o trabalho a tempo). Quando era terminada a tarefa, no último dia efectuava-se uma festa, em que quem tivesse um instrumento tocava, e os outros dançavam e cantavam. Era uma vida difícil (trabalhando de sol-a-sol), mas o Sr. X disse-me que preferia essa vida, pois era mais alegre que a vida e trabalho de cidade.
Se descobrir mais coisas interessantes (e tenho a certeza que sim) irei coloca-las aqui.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Última hora!

Parece que foram encontrados fósseis de hominídeos numa ilha da indonésia com características muito arcaicas (entre o austrolopiteco e homo erectus), com... 13.000 anos. Se estes Homo floresiensis de facto existiram é uma descoberta fantástica: que uma população pré-humana tivesse aguentado até a um tempo tão recente (parece que existem na ilha estórias de uma população de símios com caracteristicas de bipedismo que ainda lá andam, mas seria demasiada coincidência, ou podem apenas ser uma espécie de macacos desconhecidos). Tenho de apanhar um exemplar da nature: vi uma fotografia de um cranio num site, mas nos dias de hoje, isso pouco significa.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Jogo Musical-VII

Para novo género musical, escolhi o Tango. Intérprete: Carlos Gardel (1890-1935). Música: Mi noche triste.
O Tango é um estilo que tal como outros da América, é de discutível origem. Provavelmente baseado em temas cantados pelos imigrantes italianos na argentina, misturado com música creoula, era tocado em bares frequentados por marinheiros, dançado nos bordeis até se espalhar pelas ruas populares. Quando as elites aceitaram-no, já era a música nacional. O tango fala de amor, da perda do objecto amado, do desgosto. Com o tempo surgiram diferentes tipos de tango, internacionalizou-se, de instrumental passou também a ser cantado, foi transformado em dança de salão respeitável (tal como a valsa, a salsa e quase tudo o que se dança fora de uma discoteca).
Carlos Gardel era filho de emigrantes franceses. Começou a cantar em bares músicas populares, até que decidiu cantar temas de tango (que até então como disse eram apenas instrumentais). Com “Mi noche triste” em 1917 obteve um sucesso retumbante por toda a América latina, que se prolongou nas décadas de 20 e 30, participando mesmo em filmes; morreu no auge da fama num acidente de avião (quem pensa que as mortes trágicas de ídolos da música foram inventados pelas estrelas do rock nos anos 50, poderia apanhar uma grande desilusão).
Infelizmente não consegui arranjar um "sample" dessa música (embora já a tenha ouvido) e portanto terão de contentar com outros êxitos.

http://www.amazon.com/exec/obidos/tg/detail/-/B000001H8X/qid=1098719344/sr=1-21/ref=sr_1_21/002-0574681-6592811?v=glance&s=music

terça-feira, outubro 19, 2004

Boa educação

No século XIII, um manual anglo-normando de etiqueta dizia que sempre que um nobre fazia amor com uma camponesa devia usar uma quantidade moderada de força: assim, ela poderia argumentar que fora violada (e evitar ser corrida de casa pelo marido ou pais); claro que se partia do princípio que ela concordava e este subterfúgio apenas servia para manter as aparências (violações a sério não eram sequer consideradas no manual).

terça-feira, outubro 12, 2004

Reconstituições

Encontrei este site e não podia deixar de colocar o link; mesmo que não tenham forma de garantir a autenticidade, soa bem http://www.oeaw.ac.at/kal/sh/ .

segunda-feira, outubro 11, 2004

Justiça Poética

Na Grécia clássica, existia uma história sobre os riscos de ser-se mercador de escravos. Uma criança que fora castrada e vendida para a corte Persa tornou-se um poderoso funcionário. Ora um dia, foi-lhe apresentado um homem que cometera um delito contra a lei: era nem mais nem menos do que o homem que o comprara, castrara e vendera. Como castigo, o eunuco mandou-o castrar assim como a todos os seus filhos. A profissão de mercador de escravos era legal, mas de facto não era muito bem vista (e ainda pior castrar crianças).

quinta-feira, outubro 07, 2004

Kepler

Este fim-de-semana estive a ler umas coisas sobre Kepler (1571-1630). Levou uma vida conturbada (também o séc. XVII não foi uma época fácil). Estudou na universidade, deu aulas (embora tivesse poucos alunos), trabalhou com o mais famoso astrólogo da época (Tycho) que também se dedicava à observação astronómica, mas por ser protestante, acabou mais tarde por ter de abandonar a corte imperial, com o progressivo endurecimento face aos protestantes. A mãe que ganhava a vida a fazer umas mezinhas quase que ia sendo queimada por bruxaria; uma falha no procedimento legal da aplicação da tortura foi o que a salvou. Dedicando-se à astronomia e usando a matemática, acabou por recusar o sistema preconizado por Ptolomeu (uns bons 1500 anos antes) utilizando o de Copérnico, criando as 3 leis de Kepler. No final da vida ganhava a vida a fazer horóscopos a Wallenstein, o melhor estratega católico na época da guerra dos 30 anos.