segunda-feira, outubro 11, 2004

Justiça Poética

Na Grécia clássica, existia uma história sobre os riscos de ser-se mercador de escravos. Uma criança que fora castrada e vendida para a corte Persa tornou-se um poderoso funcionário. Ora um dia, foi-lhe apresentado um homem que cometera um delito contra a lei: era nem mais nem menos do que o homem que o comprara, castrara e vendera. Como castigo, o eunuco mandou-o castrar assim como a todos os seus filhos. A profissão de mercador de escravos era legal, mas de facto não era muito bem vista (e ainda pior castrar crianças).

quinta-feira, outubro 07, 2004

Kepler

Este fim-de-semana estive a ler umas coisas sobre Kepler (1571-1630). Levou uma vida conturbada (também o séc. XVII não foi uma época fácil). Estudou na universidade, deu aulas (embora tivesse poucos alunos), trabalhou com o mais famoso astrólogo da época (Tycho) que também se dedicava à observação astronómica, mas por ser protestante, acabou mais tarde por ter de abandonar a corte imperial, com o progressivo endurecimento face aos protestantes. A mãe que ganhava a vida a fazer umas mezinhas quase que ia sendo queimada por bruxaria; uma falha no procedimento legal da aplicação da tortura foi o que a salvou. Dedicando-se à astronomia e usando a matemática, acabou por recusar o sistema preconizado por Ptolomeu (uns bons 1500 anos antes) utilizando o de Copérnico, criando as 3 leis de Kepler. No final da vida ganhava a vida a fazer horóscopos a Wallenstein, o melhor estratega católico na época da guerra dos 30 anos.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Perseguições-II

Para equilibrar as coisas, vou referir um caso que se passou nos E.U.A. (também na II Guerra Mundial). Com o ataque de Pearl Harbour, boa parte da comunidade Japonesa, ou de origem Japonesa foi "internada" em campos para evitar possíveis actos de sabotagem. Poderiamos dizer que foi um reflexo natural da guerra contra o Eixo se não fosse o caso da comunidade Italo-Americana e Germano-Americana não terem sido incomodados; afirmou-se que foi um acto nítido de racismo, mas provavelmente a explicação é outra: a alemanha e itália declararam guerra segundo as regras enquanto que o Japão atacou de uma forma considerada traiçoeira e ao destruir a frota feriu o amor-próprio americano; os nipo-japoneses teriam sido deste modo o bode expiatório. Dado que muitos tinham carreiras construídas (como médicos ou comerciantes), estar durante anos presos, arruínou-lhes as carreiras.

segunda-feira, setembro 27, 2004

Perseguições

Nas vésperas da II Guerra Mundial, Estaline interrogava-se sobre o possível perigo que representaria a comunidade alemã na URSS de quase um milhão de pessoas, no caso de uma invasão nazi. Béria (chefe do NKVD, futura KGB) decidiu colocá-los à prova: enviou perto de 6000 agentes disfarçados de espiões alemães. Só menos de 10, não foram denunciados; concluí-se que a comunidade alemã representava um perigo e decidiu-se deportá-los. para a sibéria. Estando aí, achou-se que eles não representavam perigo e foram deixados no meio da tundra (sem alimentos ou abrigos- existem de facto coisas piores do que ser internado num campo de concentração). Boa parte deles morreu no primeiro inverno. Os sobreviventes dos descendentes estão actulamente a emigrar para a Suiça alemã (o único país que lhes reconhece o estatuto de etnia germânica). Para a próxima, conto uma estória sobre os E.U.A. para equilibrar as coisas.

terça-feira, setembro 21, 2004

Coreia do Norte

Estes últimos tempos têm sido muito atarefados, e por isso não tenho tido tempo para escrever. No entanto, fiz uma leitura este fim-de-semana que não podia deixar de referir, apesar de abordar assuntos que não aprecio muito (história contemporânea). Em casa dos meus pais, tenho em 6 volumes, uma série de discursos de Kim-Il-Sung; este fim-de-semana aproveitei para ler uma parte de um deles (referente ao ano de 1976).
Um dos discursos que mais me chamou à atenção, foi proferido perante um comité de representantes de agricultores (o nome oficial é diferente). O discurso começa com uma parte retórica (o capitalismo está a cair, o socialismo está cada vez mais forte, as massas oprimidas por todo o mundo irão levantar-se contra os exploradores, etc, etc). Depois temos uma parte referente à situação económica nacional (mais retórica: nunca se viveu tão bem na correia do norte, os resultados económicos são excelentes, etc). Finalmente temos a análise da situação que de facto interessa: neste caso, as dificuldades sentidas na agricultura. Aqui, temos uma análise fria e relativamente realista da situação. Em várias províncias, as colheitas de arroz e milho (o livro é uma tradução espanhola, e creio que o cereal era de facto este) tinham sido inferiores ao esperado. As justificações são várias: excepcional mau ano agrícola, mas sobretudo descoordenação entre vários ministérios, departamentos e organismos. Eu contei os que foram referidos: 5 pelo menos (um para planificar o ano agrícola, outro para fornecer máquinas, outro para adubos, e não me lembro dos outros). Kim-Il-Sung queixava-se também de que os funcionários do ministério da agricultura planificavam as estimativas das colheitas, as necessidades de material, e todos os pormenores, sem se preocupar em falar com os camponeses (ou melhor, com os chefes das cooperativas), o que dava mau resultado; eram demasiado burocráticos, não se conseguindo coordenar entre si (os funcionários); para dar resposta às necessidades em tempo útil da agricultura quando viam que era necessária mão-de-obra extra para outras actividades, desviavam-na da agricultura, atrasando o transplante do arroz (deitando assim a colheita a perder), ou transferindo operários para essa tarefa (sem lhes dar informação de como efectuar os trabalhos piorando a situação) desorganizando outros serviços, sem se preocupar em saber quantas pessoas eram necessárias. A substituição de máquinas e peças era também bastante complicada, dada a escassez de materiais do país e a desorganização dos serviços. No entanto (por motivos ideológicos provavelmente), nunca reconheceu, que as falhas de produtividades da agricultura poderiam ser remediadas, centralizando todos os assuntos relacionados com a agricultura num único ministério (e organismos por si dependentes), em vez de os ter partilhados por vários, já que deixar que fossem os próprios camponeses tratassem dos seus assuntos estava fora de questão. À medida que for lendo sobre outros assuntos, irei escrever mais.

segunda-feira, setembro 13, 2004

11 de Setembro

Foi nessa data em 1609 que foi ordenada a expulsão dos mouriscos de Valência, seguindo-se depois por toda a Espanha (o decreto original para expulsão é um pouco anterior).
Quando em 1492 Granada foi conquistada pelos reis Católicos (Fernando e Isabel, os futuros patrocinadores de Cristóvão Colombo), aos muçulmanos fora-lhes garantido num tratado o direito a manter a sua religião, hábitos e costumes. No entanto rapidamente os seus direitos começaram a ser cerceados o que os levou a revoltarem-se; tal foi o pretexto para lhes retirarem tudo o que fora acordado, exigindo-se-lhes a conversão. De facto, o que se pretendia na península ibérica era ter um reino, um povo e uma religião; a existência de minorias estragava esse panorama (Portugal também, mas isso é outra história). Continuaram a praticar a religião em segredo e os períodos de perseguição (com a inquisição) e revoltas (isso levou Guilherme de Orange a aperceber-se de que se um punhado de camponeses conseguia pôr em xeque a poderosa Espanha, as terras da Flandres muito mais ricas deveriam ter boas hipóteses de se tornar independentes), alternavam com uma relativa tolerância (eles viviam no sul e as suas terras pertenciam a membros da grande nobreza que os apreciavam pela sua capacidade de trabalho e por isso os protegiam). Depois de um endurecimento de posições (eram acusados de ajudar a pirataria muçulmana e outras traições), acabaram por receber ordem de expulsão. Assim terminava uma presença que se iniciara em 711, e o sonho do Al-Andalus.

sexta-feira, setembro 10, 2004

Akhenaton-II

Mandou construir a cidade Akhetaten, do nome da divindade (conhecida actualmente como Tel-El-Amarna, o seu nome árabe) para se afastar do clero tradicional e honrar o seu deus. A arte egípcia tornou-se de algum modo mais realista (o retrato de Nefertiti, as deformações e deficiências das pessoas não eram escondidas nos retratos). Mas enquanto mantinha o seu zelo religioso, esquecia-se do mundo temporal: os territórios dos pequenos potentados ao serviço do Egipto iam sendo conquistados pelos Hititas. Sabemos da situação, porque uma extensa correspondência diplomática do Egipto conservou-se numa parte do palácio (a língua usada era o acádico e eram gravadas em tabuinhas). Eis o excerto de uma carta:
“Eu escrevi repetidamente por tropas, mas nenhumas me foram concedidas, e o rei não ouviu as palavras do seu servo. E enviei um mensageiro para o palácio mas ele voltou de mãos vazias- ele não trouxe tropas”.
Ao fim de alguns anos morreu de forma algo controversa (ainda se está para descobrir a sua múmia, apesar de alguns arqueólogos dizerem que ela foi encontrada), sendo sucedido por Tutenkamon (sim, o do túmulo da maldição: provavelmente era um meio irmão de Akhenaton que casou com uma filha deste, morrendo aos 18 anos). A religião tradicional foi restabelecida, o palácio abandonado e a Akhetaten destruída (o que paradoxalmente salvou-a, pois ficaram os alicerces e materiais que teriam sido destruídos, caso se continuasse a construir por cima), e o nome de Akhenaton foi martelado das inscrições e votado à maldição. No entanto, o seu acto revolucionário (fanático ou inovador conforme as preferências), tornou-o relativamente popular perante o auditório moderno, fazendo-se filmes e mesmo uma ópera sobre ele.