Estou a acabar de ler um livro sobre o Afrika korps; este conseguiu obter uma fama admirável para os “fãs” da segunda grande guerra. Composto pela 5ª ligeira, as 15ª e 21ª divisões panzer tendo um cenário de guerra único (os desertos do norte de africa), e colocando por 2 anos em cheque exércitos bastante superiores, obtiveram uma fama de cavalheirismo pouco comum nos alemães (recordados sobretudo pelas sua eficiência... e extrema brutalidade).
Tudo começou em 1941 quando os italianos depois de sofrerem uma série de derrotas na Líbia contra os britânicos (rendiam-se aos milhares) foram obrigados a pedir ajuda aos alemães: Hitler enviou 3 divisões e Rommel. Nos 2 anos seguintes cobriu-se de glória, na vitória e na derrota. Não vou fazer uma cronologia desse exército prestigiado, mas apresentar algumas ideias do livro.
O afrika korps combateu num meio privilegiado para fazer a guerra: o deserto. Logo, nunca sofreu o problema de provocar vítimas civis (dado de que estes viviam nas poucas cidades que existiam e não viam combates ocorrer dentro delas). O facto de não terem unidades das SS, Gestapos, e outras unidades do género, reduzia o perigo de contaminação dos ideais nazis; a estadia num local tão remoto, sem grandes contactos e com raras licenças contribuiu para lhes dar valores e uma cultura próprios (e desenvolvendo uma identidade que os levaria 30 anos depois a continuarem a reunir-se); e sobretudo a influencia de Rommel que ignorava as ordens que considerava que violavam o espírito militar (fuzilamentos de comandos, retaliações contra actos de sabotagem): num incidente em que soldados italianos tentaram violar mulheres árabes e foram mal sucedidos (alguns deles sendo mortos), pediram a Rommel que fosse feita uma expedição punitiva para castiga-los; ele recusou e disse que não se insistisse mais no assunto.
quinta-feira, julho 01, 2004
terça-feira, junho 29, 2004
Regresso
Voltei depois de uma ausência de 2 semanas de férias. Aproveitei para ler mas ainda não tive tempo de escrever nada de substancial. Fica só então uma pequena anedota: O Marechal Kesselring da força aérea alemã na segunda guerra mundial (notabilizou-se curiosamente no comando das forças alemãs terrestres em itália), estava a sobrevoar Túnis num velho biplano; a Flak (defesa anti-aérea alemã)fez confusão e tentou destrui-lo; quando ele pousou, deu uma descompostura à flak... por ter falhado um alvo tão fácil como o seu avião!
Já agora, no domingo fizemos um ano de existência. Toda a equipa do tempore agradece aos nossos leitores e sobretudo ao J do Cruzes, que sempre nos apoiou (literalmente foi ele que criou o blog do ponto de vista informático).
Já agora, no domingo fizemos um ano de existência. Toda a equipa do tempore agradece aos nossos leitores e sobretudo ao J do Cruzes, que sempre nos apoiou (literalmente foi ele que criou o blog do ponto de vista informático).
terça-feira, junho 08, 2004
Tróia- I
Fui no sábado ao cinema ver o filme Tróia. Tinham-me avisado de que para gostar teria de esquecer o livro e ir sem preconceitos; ainda por cima cheguei 30 minutos atrasado (já só apanhei a viagem de Heitor e Paris). Deste modo, comparando o filme com outros épicos históricos recentes (gladiador), o filme faz boa figura (o filme foi consideravelmente mais curto para mim e não tive tempo de me aborrecer).
Não é histórico, nem o poderia ser, pois os acontecimentos reportam-se a uma mítica guerra do período micénico final (séc. XII a.c.), mas a sociedade que Homero descreve na Ilíada corresponde a uma amálgama de recordações dos séculos posteriores (sobretudo aquilo que é convencional chamar a “Idade das trevas grega” – séc. X a VIII a.c.. de uma sociedade dominada por heróis que rivalizam no campo de batalha para aumentarem a sua glória e fama individual. Como é complicado reproduzir na exactidão as indumentárias e cenários, fez-se uma mistura: os soldados são hoplitas, na recepção que Priámo faz aos filhos aparecem 2 popes; não é muito realista, mas também não é grave em si, dado que a Ilíada sendo um poema também não pretenderia ser realista nesses detalhes.
Passando à história em si, foi feita uma condensação dos acontecimentos (o poema em si, só tem mesmo a desavença de Aquiles com Aganémnon, o massacre dos gregos e o duelo final entre Aquiles e Heitor, com numerosas acções secundárias e intervenções de deuses), o que é normal, pois assim os espectadores ficam a perceber a história.
Tem acção, algumas cenas de batalha como é de esperar bem feitas embora nada de extraordinário (mas desde a cena inicial do soldado Ryan que é difícil fazer melhor), as reproduções em computador são habituais; os diálogos não são nada por aí além, mas também não se tornam ridículos. Fica-se com a ideia de que os diálogos servem para cortar o que seria um filme excessivamente monótono se fossem apenas batalhas (para mim, resultou, mas é uma opinião pessoal).
Quanto à representação das personagens (que foi o que deu mais controvérsia), a critica é bastante mais delicada: até que ponto a caracterização das personagens resulta da visão do realizador ou pelo contrário, da própria interpretação do próprio actor? Falando no caso mais óbvio: o Aquiles de Brad Pitt tem pouco a ver com o da Ilíada, funcionando mais como um mercenário implacável no momento da acção, apreciando poucas coisas (além de ter sido claramente inferior a Peter O’Toole no diálogo entre os dois), enquanto o da obra era sujeito a violentas paixões (e não só pelo Patróclo), preocupado com a sua glória e honra, mas bastante caprichoso. Heitor sempre foi um favorito das sociedades que se pretendem estáveis: alguém que cumpre o seu papel de forma obediente, luta e está disposto a morrer pela sua comunidade (claro que na Ilíada as coisas são um pouquinho diferente: ele vai combater contra Aquiles sabendo que vai morrer e deixar a sua comunidade, mulher e filho desamparados mas combate na mesma dado que a sua honra a tal o impele).
Os restantes personagens estão razoavelmente caracterizados (Páris, Menelau, Ulisses), mesmo que nem sempre muito fiel ao livro, não estando lá apenas para fazer número. O cinema épico actualmente adquiriu certos tiques de que não se livra: a morte de um herói, filmada lentamente (a flecha a atingir o calcanhar de Aquiles).
O filme é assim um bom entretenimento como filme ligeiro e se comparado com outros bem piores. Então qual é o problema? É que a Ilíada não é texto qualquer, é uma obra-prima e uma das obras fundadoras da literatura ocidental, e embora a realização e interpretação embora fossem razoáveis não passaram disso; daí a desilusão.
Não é histórico, nem o poderia ser, pois os acontecimentos reportam-se a uma mítica guerra do período micénico final (séc. XII a.c.), mas a sociedade que Homero descreve na Ilíada corresponde a uma amálgama de recordações dos séculos posteriores (sobretudo aquilo que é convencional chamar a “Idade das trevas grega” – séc. X a VIII a.c.. de uma sociedade dominada por heróis que rivalizam no campo de batalha para aumentarem a sua glória e fama individual. Como é complicado reproduzir na exactidão as indumentárias e cenários, fez-se uma mistura: os soldados são hoplitas, na recepção que Priámo faz aos filhos aparecem 2 popes; não é muito realista, mas também não é grave em si, dado que a Ilíada sendo um poema também não pretenderia ser realista nesses detalhes.
Passando à história em si, foi feita uma condensação dos acontecimentos (o poema em si, só tem mesmo a desavença de Aquiles com Aganémnon, o massacre dos gregos e o duelo final entre Aquiles e Heitor, com numerosas acções secundárias e intervenções de deuses), o que é normal, pois assim os espectadores ficam a perceber a história.
Tem acção, algumas cenas de batalha como é de esperar bem feitas embora nada de extraordinário (mas desde a cena inicial do soldado Ryan que é difícil fazer melhor), as reproduções em computador são habituais; os diálogos não são nada por aí além, mas também não se tornam ridículos. Fica-se com a ideia de que os diálogos servem para cortar o que seria um filme excessivamente monótono se fossem apenas batalhas (para mim, resultou, mas é uma opinião pessoal).
Quanto à representação das personagens (que foi o que deu mais controvérsia), a critica é bastante mais delicada: até que ponto a caracterização das personagens resulta da visão do realizador ou pelo contrário, da própria interpretação do próprio actor? Falando no caso mais óbvio: o Aquiles de Brad Pitt tem pouco a ver com o da Ilíada, funcionando mais como um mercenário implacável no momento da acção, apreciando poucas coisas (além de ter sido claramente inferior a Peter O’Toole no diálogo entre os dois), enquanto o da obra era sujeito a violentas paixões (e não só pelo Patróclo), preocupado com a sua glória e honra, mas bastante caprichoso. Heitor sempre foi um favorito das sociedades que se pretendem estáveis: alguém que cumpre o seu papel de forma obediente, luta e está disposto a morrer pela sua comunidade (claro que na Ilíada as coisas são um pouquinho diferente: ele vai combater contra Aquiles sabendo que vai morrer e deixar a sua comunidade, mulher e filho desamparados mas combate na mesma dado que a sua honra a tal o impele).
Os restantes personagens estão razoavelmente caracterizados (Páris, Menelau, Ulisses), mesmo que nem sempre muito fiel ao livro, não estando lá apenas para fazer número. O cinema épico actualmente adquiriu certos tiques de que não se livra: a morte de um herói, filmada lentamente (a flecha a atingir o calcanhar de Aquiles).
O filme é assim um bom entretenimento como filme ligeiro e se comparado com outros bem piores. Então qual é o problema? É que a Ilíada não é texto qualquer, é uma obra-prima e uma das obras fundadoras da literatura ocidental, e embora a realização e interpretação embora fossem razoáveis não passaram disso; daí a desilusão.
sexta-feira, junho 04, 2004
Suicídio
Algures na primeira metade do séc. XX, é pedido que um grupo de voluntários leve uma carga de explosivos até próximo de um bunquer inimigo e a faça detonar. Apresentam-se voluntários que são abatidos; novos voluntários desta vez conseguem fazê-lo, mas o inimigo apaga a mecha. Outro grupo de voluntários repete a tarefa e o mesmo sucede. O comandante dá uma ordem aos voluntários seguintes: eles terão de se certificar de que o inimigo não apague a mecha, ficando junto próximo a ela até explodir: basicamente, pede-lhes o suicídio; eles aceitam perfeitamente. A missão é levada em diante com sucesso.
Este episódio decorreu na guerra russo-japonesa de 1901, e os soldados eram claro, nipónicos. O oficial em situação normal deveria ser levado a tribunal marcial, pois não é aceitável a exigência de suicídio a soldados (situação apesar de tudo subtilmente diversa de ordens do género “corram para a trincheira inimiga com um ninho de metralhadoras”, ou “resistam às forças esmagadoras que vem na vossa direcção”, pois por vezes o imprevisto sucede), mas o caso foi abafado. Pior: os soldados foram apresentados como modelo de patriotismo e espírito marcial (busho), digno dos antigos samurais. O que é de espantar neste caso, é que eles eram de origem humilde (camponeses) e foram promovidos post-mortem, contando-se a sua história nas escolas para servir de exemplo às crianças, sendo-lhes mesmo erigidas estátuas. Aos poucos, os ideias que tinham sido apanágio de uma classe, foram sendo inculcados a toda a população, resultando em parte na tragédia que foi a participação japonesa na II guerra.
Este episódio decorreu na guerra russo-japonesa de 1901, e os soldados eram claro, nipónicos. O oficial em situação normal deveria ser levado a tribunal marcial, pois não é aceitável a exigência de suicídio a soldados (situação apesar de tudo subtilmente diversa de ordens do género “corram para a trincheira inimiga com um ninho de metralhadoras”, ou “resistam às forças esmagadoras que vem na vossa direcção”, pois por vezes o imprevisto sucede), mas o caso foi abafado. Pior: os soldados foram apresentados como modelo de patriotismo e espírito marcial (busho), digno dos antigos samurais. O que é de espantar neste caso, é que eles eram de origem humilde (camponeses) e foram promovidos post-mortem, contando-se a sua história nas escolas para servir de exemplo às crianças, sendo-lhes mesmo erigidas estátuas. Aos poucos, os ideias que tinham sido apanágio de uma classe, foram sendo inculcados a toda a população, resultando em parte na tragédia que foi a participação japonesa na II guerra.
segunda-feira, maio 31, 2004
Perseguições
Li recentemente ums artigo sobre a ascensão dos nazis. São referidos alguns pontos importantes sobre o anti-semitismo, embora não propriamente originais.
Embora os nazis fossem claramente racistas e anti-semitas, para a maioria dos alemães (que variariam entre o não racistas e o moderadamente racistas em situação normal, tal como a restante população europeia da época), isso não seria um obstáculo para votar neles: era considerada uma componente secundária do seu programa (tirar o país da crise, dar uma liderança forte). Os ataques que efectuavam contra outros grupos (comunistas, sociais-democratas, sindicatos), em vez de serem vistos como desordens, eram pelo contrário a demonstração que alguém estava a restabelecer a ordem. Ora, enquanto que os ataques contra os adversários políticos, eram um meio para atingir um fim (aterrorizar e quebrar a oposição), a violência contra os judeus representava um “bónus”, para as S.A., que davam largas à sua fúria (vandalizando lojas e espancando pessoas) contra um povo visto como inimigo e em que tudo valia (dado que não existia uma ideia concreta do que se devia fazer com eles). Mais, ao subirem ao poder isso permitiu com a erradicação dos cargos e funções que os judeus ocupavam, que numerosos nazis ou simples alemães ocupassem esse lugares. A própria educação da sociedade alemã que apelava a uma obediência à autoridade e uma tácita aceitação de que certas pessoas são mais adequadas que outras ao governo, facilitava essa tarefa (embora a posição nazi fosse extrema e não aceitável pela maioria das pessoas- em situação normal). Assim, por oportunismo, comodismo ou ódio sincero, poucas pessoas estavam dispostas a discutir uma situação que se tornava própria do ambiente (curiosamente, o velho Hindemburg exigiu que os veteranos de guerra fossem livres das discriminações, o Kaiser no seu exílio protestou contra essa política, e o exército conseguiu proteger com um par de excepções todos os oficiais com sangue judeu que eram numerosos
Embora os nazis fossem claramente racistas e anti-semitas, para a maioria dos alemães (que variariam entre o não racistas e o moderadamente racistas em situação normal, tal como a restante população europeia da época), isso não seria um obstáculo para votar neles: era considerada uma componente secundária do seu programa (tirar o país da crise, dar uma liderança forte). Os ataques que efectuavam contra outros grupos (comunistas, sociais-democratas, sindicatos), em vez de serem vistos como desordens, eram pelo contrário a demonstração que alguém estava a restabelecer a ordem. Ora, enquanto que os ataques contra os adversários políticos, eram um meio para atingir um fim (aterrorizar e quebrar a oposição), a violência contra os judeus representava um “bónus”, para as S.A., que davam largas à sua fúria (vandalizando lojas e espancando pessoas) contra um povo visto como inimigo e em que tudo valia (dado que não existia uma ideia concreta do que se devia fazer com eles). Mais, ao subirem ao poder isso permitiu com a erradicação dos cargos e funções que os judeus ocupavam, que numerosos nazis ou simples alemães ocupassem esse lugares. A própria educação da sociedade alemã que apelava a uma obediência à autoridade e uma tácita aceitação de que certas pessoas são mais adequadas que outras ao governo, facilitava essa tarefa (embora a posição nazi fosse extrema e não aceitável pela maioria das pessoas- em situação normal). Assim, por oportunismo, comodismo ou ódio sincero, poucas pessoas estavam dispostas a discutir uma situação que se tornava própria do ambiente (curiosamente, o velho Hindemburg exigiu que os veteranos de guerra fossem livres das discriminações, o Kaiser no seu exílio protestou contra essa política, e o exército conseguiu proteger com um par de excepções todos os oficiais com sangue judeu que eram numerosos
terça-feira, maio 25, 2004
Jogo musical-V
Os princípios do séc. XX representam um corte com a música com a tradição musical europeia (é certo que autores como Wagner, Mussorgsky e Mahler já tinham empregue na sua linguagem musical, recursos extremamente inovadores), mas neste período procurou-se criar deliberadamente novas expressões. A música atonal, o dodecafonismo e a experiência utilizando um sem número de timbres e gamas de sons de forma original deram à música erudita um carácter fragmentário e claramente original, que nunca mais parou até à actualidade. Diversos nomes se salientaram: Schoenberg como iniciador, Alban Berg e Webern (mais recentemente com o serialismo e minimalismo e autores como Boulez, Cage e Reich para referir só os mais famosos). Se o autor passa a ter uma liberdade sem precedentes, é no entanto de notar que em grande parte essa nova música erudita não beneficiou com a divulgação feita pelos meios modernos de comunicação, devido à sua natureza muito experimental e afastada das sonoridades mais tradicionais a que o publico está habituado.
Uma obra? Microcosmos de Bela Bartok (1881-1845). Interessou-se pela música popular de leste (era Húngaro) que recolheu, compilou e utilizou como material de base para as suas próprias composições (apesar de ser considerado imaginativo, cheio de recursos, a sua sonoridade não me agrada minimamente, questão de gostos). Incorporando muitas das inovações do seu tempo, fez uma síntese com a música do passado.
Uma obra? Microcosmos de Bela Bartok (1881-1845). Interessou-se pela música popular de leste (era Húngaro) que recolheu, compilou e utilizou como material de base para as suas próprias composições (apesar de ser considerado imaginativo, cheio de recursos, a sua sonoridade não me agrada minimamente, questão de gostos). Incorporando muitas das inovações do seu tempo, fez uma síntese com a música do passado.
quinta-feira, maio 13, 2004
A Paixão de Cristo
Este post deveria aparentemente pertencer ao Roma Antiga, mas dado que são dúvidas e reflexões minhas, coloco-o no tempore.
Vi recentemente um filme que foi polémico “A paixão de Cristo”. Vou discutir alguns erros ou incorrecções históricas que notei (não, não vou discutir o anti-semitismo, a crueldade, a suposta historicidade ou não dos acontecimentos ou outros elementos que foram debatidos há uns tempos atrás).
A primeira é inofensiva (por comparação com o que se discutiu) e quase passa despercebida: um oficial chama a Pilatos de Cônsul. É um erro algo grosseiro. Era o cargo mais prestigiado da república e como tal se mantinha no império; existiam 2 cônsules em Roma, um normalmente o imperador, e outro uma pessoa que tivesse cumprido o cursus honorum e o seu favor (de boas famílias). Terminado esse período, podia-se tornar procônsul (governador de uma província senatorial), o que não era o caso de Pilatos que era um legado (nomeado directamente pelo imperador e não pelo senado, sendo comandante das tropas locais e saído de uma família equestre). Ou seja, é um erro algo básico para quem teve tantos cuidados de reconstituição (bastava consultar um daqueles esquemas hierárquicos sobre a administração romana que se encontra numa história universal para evitar esse erro) do período.
O outro é uma questão de opinião: Pilatos a falar em aramaico? Em Itália aprendia-se latim como língua mãe (os outros dialectos e línguas como o celta, osco, etrusco e afins tinham desaparecido ou estavam em vias de extinção reduzidas às populações camponesas de zonas isoladas); quem tivesse pretensões a ser culto aprendia o grego que era a língua literária (e para cargos nas zona oriental do império dava jeito, dado ser a língua franca, tal como o inglês actualmente). Ora o aramaico era a língua usada pelas populações semitas do próximo oriente (palestina, síria), mas quem vivesse em zonas urbanas também acabava por aprender o grego que se espalhara com os reinos helenísticos; quais as probabilidades de um governador romano dar-se ao trabalho de aprender uma língua de gente que desprezaria como bárbara (aramaico), se bastava usar outra que seria em princípio compreendida (grego). Poderia quanto muito usar um intérprete; além de que os legados eram normalmente rotativos; estaria num período numa província, terminado o seu mandato iria para outra e dar-se ao trabalho de aprender a nova língua (digamos o celta, o púnico)? Dá-me ideia de que não estiveram foi para filmar numa terceira língua e ficaram-se pelas duas (que já era complicado suficiente para os actores).
Outra dúvida: no filme, Jesus fala com Pilatos em latim (que era completamente ignorado no oriente fora das casernas). Duvido muito que soubesse latim; poderia saber como pequeno artesão o grego, o que não era invulgar (e comunicar com judeus vindos da diáspora) e comunicar com Pilatos nessa língua, mas isto é apenas uma suposição.
Vi recentemente um filme que foi polémico “A paixão de Cristo”. Vou discutir alguns erros ou incorrecções históricas que notei (não, não vou discutir o anti-semitismo, a crueldade, a suposta historicidade ou não dos acontecimentos ou outros elementos que foram debatidos há uns tempos atrás).
A primeira é inofensiva (por comparação com o que se discutiu) e quase passa despercebida: um oficial chama a Pilatos de Cônsul. É um erro algo grosseiro. Era o cargo mais prestigiado da república e como tal se mantinha no império; existiam 2 cônsules em Roma, um normalmente o imperador, e outro uma pessoa que tivesse cumprido o cursus honorum e o seu favor (de boas famílias). Terminado esse período, podia-se tornar procônsul (governador de uma província senatorial), o que não era o caso de Pilatos que era um legado (nomeado directamente pelo imperador e não pelo senado, sendo comandante das tropas locais e saído de uma família equestre). Ou seja, é um erro algo básico para quem teve tantos cuidados de reconstituição (bastava consultar um daqueles esquemas hierárquicos sobre a administração romana que se encontra numa história universal para evitar esse erro) do período.
O outro é uma questão de opinião: Pilatos a falar em aramaico? Em Itália aprendia-se latim como língua mãe (os outros dialectos e línguas como o celta, osco, etrusco e afins tinham desaparecido ou estavam em vias de extinção reduzidas às populações camponesas de zonas isoladas); quem tivesse pretensões a ser culto aprendia o grego que era a língua literária (e para cargos nas zona oriental do império dava jeito, dado ser a língua franca, tal como o inglês actualmente). Ora o aramaico era a língua usada pelas populações semitas do próximo oriente (palestina, síria), mas quem vivesse em zonas urbanas também acabava por aprender o grego que se espalhara com os reinos helenísticos; quais as probabilidades de um governador romano dar-se ao trabalho de aprender uma língua de gente que desprezaria como bárbara (aramaico), se bastava usar outra que seria em princípio compreendida (grego). Poderia quanto muito usar um intérprete; além de que os legados eram normalmente rotativos; estaria num período numa província, terminado o seu mandato iria para outra e dar-se ao trabalho de aprender a nova língua (digamos o celta, o púnico)? Dá-me ideia de que não estiveram foi para filmar numa terceira língua e ficaram-se pelas duas (que já era complicado suficiente para os actores).
Outra dúvida: no filme, Jesus fala com Pilatos em latim (que era completamente ignorado no oriente fora das casernas). Duvido muito que soubesse latim; poderia saber como pequeno artesão o grego, o que não era invulgar (e comunicar com judeus vindos da diáspora) e comunicar com Pilatos nessa língua, mas isto é apenas uma suposição.
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