quarta-feira, abril 21, 2004

Estórias pitorescas

Vou contar duas histórias que considero interessantes.
No século III A.C. um grupo de gauleses (as crónicas diziam que eram 800) foi exilado e decidiu servir as cidades gregas da Magna Grécia; traíram os vários senhores e acabaram por ser contratados por Roma; ao serviço desta, saquearam templos de aliados e Roma rapidamente os despediu pelos protestos. Depois de mais umas aventuras, foram contratados pelos epirotas que os colocaram como guarnição da sua capital; estes mercenários traíram mais uma vez os seus senhores e venderam a população a um grupo de piratas Ilírios que estavam de passagem; depois a História não fala mais deste grupo.
A segunda estória é ainda mais curiosa. Quando os americanos desembarcaram na Normandia, do exército eclético que os alemães lhes opuseram, estava uma unidade coreana. Ora pergunta o leitor, como chegaram coreanos até aí? Bem, recuando um década, o território estava em mãos dos japoneses; estes tiveram uma curta guerra contra a URSS nas vésperas da II Guerra, chamada o “Incidente Manchu” (em que Jukov os deixou muito mal-tratados, fazendo com que evitassem declarar-lhes a guerra quando Hitler lhes pediu). Ora uma unidade de Coreanos recrutada pelos Japoneses foi assim aprisionada pelos soviéticos. Estando nos campos de concentração, quando se deu a invasão da URSS pela Alemanha, estes homens foram remobilizados mas rapidamente se renderam aos nazis, dado o fraco estímulo que tinham para combater por um país que nada lhes dizia. Ora se a Alemanha era muito exigente em termos de pureza de raça para detalhes administrativos, era-o muito menos quando se tratava de recrutar soldados para as SS (que eram os únicos que podiam recrutar estrangeiros, dado que o exército só aceitava alemães), levando a que a unidade de elite alemã, aceitasse todos os “sub-humanos” possíveis e imaginários, que eram reclassificados para serem aceites (mongóis, bálticos, asiáticos, latinos), considerando-se que se estavam afinal a combater pelo Reich; foram colocados na Normandia e claro que quando puderam, renderam-se imediatamente aos americanos; não sei o que lhes sucedeu de seguida, mas imagino que tenham ido parar a um campo de concentração americano e com um bocado de sorte tenham ficado a trabalhar nos E.U.A.; seja como for, acabaram por sobreviver a uma série de guerras que não eram a deles, de exército em exército, e de campo de concentração em campo de concentração, o que já não é mau.

domingo, abril 18, 2004

Pioneiro da Estatística

Lutero, o grande reformador do cristianismo, casou-se aos 42 anos com uma monja de 26. Sabemos que teve 104 relações sexuais durante o primeiro ano de casamento porque anotava todos os factos importantes da sua vida num diário que que constitui a primeira estatística sobre frequência de relações sexuais. Não tece é comentários acerca do grau de satisfação de cada um!

sexta-feira, abril 16, 2004

Jogo musical-III

A escolha seguinte é terrivelmente complicada: se excluirmos alguns dos génios maiores do séc. XVIII como Bach, Mozart, todos eles com obras importantíssimas, ainda ficam autores fundamentais como Haendel, Haydn, Vivaldi, os Scarlatti pai e filho; creio que se pode dizer que este é um dos períodos mais fecundos da música. Logo, a escolha seguinte é quase aleatória e vai para... as peças de cravo bem temperado de Bach.
A escolha justifica-se porque corresponde a um tipo de obras representativa da época, que eram bastante apreciadas (embora estas na época tivessem passado relativamente despercebidas); a sua carreira também é semelhante à de numerosos músicos seus contemporâneos: pertencente a uma família de músicos luteranos, deambulou pela Alemanha servindo diversos patronos, e ocupando vários cargos: podemos destacar na sua vida que foi organista em Arnstadt, músico de corte em Weimar, director musical em Leipzig (chegou mesmo a compor uma missa para um eleitor católico). Sei que existem outras obras mais geniais quer no domínio profano quer religioso (concertos de Brandemburgo, as cantatas, as paixões ou as variações de Goldberg no seu caso; diversas sinfonias, concertos e óperas no caso de Mozart, só para falar dos casos mais famosos), mas essas peças mais humildes não representando a genialidade ou a revolução, espelham melhor o espírito da época.
Uma chamada de atenção: os links de música que eu faço, tem samples das músicas que escolhi e que podem ser ouvidas, não os coloco para fazer publicidade à amazon; digo isto, porque já me foi perguntado porque é que eu não punha exemplos das músicas.

terça-feira, abril 13, 2004

Veneza-IV

Não vou colocar hoje os links relacionados com os artistas em questão; qualquer busca na Internet ou numa enciclopédia de arte permitirá encontrá-los sem qualquer dificuldade.
A basílica de São Marcos é sem dúvida o monumento mais conhecido de Veneza. Construída seguindo o modelo Bizantino, as cores, os mosaicos, os dourados, as cúpulas, tudo lhe dá um ar bem diferente das Igrejas ocidentais; as pilhagens de Constantinopla em 1204 iriam acrescentar com peças do modelo original, a magnifica igreja. Claro que outras influências artísticas ocidentais se notam; mas a marca do original ficou lá; aliás, até muito tarde, na pintura continuaram a seguir a paleta de cores bizantinas. O palácio dos doges é outra obra arquitectónica notável; construído em estilo gótico, sofreu vários incêndios e remodelações. Multiplicam-se os palácios e Igrejas num estilo muito próprio; Palladio, mais tarde iria mostrar como as suas fachadas adaptavam-se maravilhosamente nesta cidade. Com o renascimento, a pintura veneziana revelou grande originalidade, pois dava primazia à cor (sobretudo quentes) em vez do desenho como em Florença; os seus temas eram também mais exuberantes (com roupas e paisagens sumptuosas). Quadros como “As bodas de Canaa” de Veroneso ou “A apresentação da Virgem ao Templo” de Tintoretto ilustram isso perfeitamente. Muitos outros autores se destacaram em Veneza: Titiano, Giorgione, depois deste verdadeiro brilho artístico, contemporâneo dos últimos tempos de glória de Veneza, a cidade parece entrar em letargia. É certo que ainda faltava Tiepolo, Guardi e Canaletto retratarem a cidade, mas esta já tinha os seus dias de glória passados. Ela começa então a viver da sua imagem, das suas festas, do Carnaval mascarado, mistura de luxo e requinte, onde estrangeiros procuram os seus divertimentos, as suas cortesãs, o anonimato que lhes garante uma máscara e uma bolsa recheada. Figuras do mundo artístico dirigem-se para lá como Byron, Wagner. Mesmo actualmente a cidade mantém o seu atractivo: Visconti no “Morte em Veneza” baseada na obra de Thomas Mann (e a música belíssima de Mahler), ou na banda desenhada de Pratt com o “Fábula de Veneza”. Todos os anos, passam na época do Carnaval ainda imagens da sua festa; a bienal de Veneza e o seu festival de cinema são elementos incontornáveis da arte, pois a cidade é sinónimo de cultura.

domingo, abril 04, 2004

"VITAMINAS" DOS GUERREIROS SAXÕES

O afã de vitória levou os homens de todas as épocas a fazer coisas surpreendentes. Loga após a queda do Império Romano do Ocidente, os guerreiros saxões, antes de entrarem em batalha, preparavam algumas ovelhas e cabras com as quais copulavam. Depois matavam-nas e devoravam-nas. Consideravam que estes rituais os tornavam invulneráveis.

quarta-feira, março 31, 2004

Jogo musical-II

A nossa segunda peça é o Orfeu (1607) de Cláudio Monteverdi (1567-1643): foi durante anos considerada a primeira ópera e embora agora se saiba que não foi assim, continua a ser considerada importante. Vários elementos estiveram por base desse novo género musical: o teatro medieval (que por vezes era cantado), as pastorelas e madrigais que eram compostos de forma a contar uma história e um esforço deliberado de tentar imitar o antigo teatro grego; tudo isso deu origem a uma nova forma de arte, no qual um libretista escrevia a estória (nós diríamos o argumento) com as falas que era musicada pelo compositor. Monteverdi adaptou o modelo, incluiu uma verdadeira orquestra e não alguns músicos de acompanhamento (tinha recursos para isso na corte de Mântua), e a sua popularidade adquirida em outros géneros permitiu-lhe fazer mais algumas (já em Veneza). Orfeo conta a estória do mito grego de Orfeo e Eurídice: ela morrera e ele um mestre da música desce aos infernos onde consegue comover Hades (senhor dos infernos) a deixá-la partir embora o senhor dos mortos põem como condição de que ele não olhe para trás a confirmar que ela o segue; ele concorda mas mais tarde por não ouvir os seus passos, não resiste e ela desaparece de vez .
Entretanto o género (que surgira em Florença) foi-se difundindo nos anos seguintes em Roma onde os eclesiásticos patrocinavam o novo estilo. Nesses primeiros anos, as óperas eram pagas por um mecenas que encomendavam a peça para comemorar um acontecimento importante (subida ao trono, casamento, etc) que podia ser aberto ao público ou unicamente representado perante um pequena assembleia; uns anos depois os Venezianos pragmaticamente resolveram o problema dos mecenas, permitindo o acesso do público ao teatro onde seria representada a ópera em troca de um pagamento. As óperas variavam de acordo com as tradições culturais: maior importância à música e subordinação do libreto (que era um mero pretexto para efeitos líricos) ou pelo contrário era realçada a estória, sendo a música apenas um acompanhamento; quando existissem meios, era utilizadas máquinas para fazer efeitos cénicos e encenações que espantassem os espectadores (efeitos especiais como agora se diz).