Não vou colocar hoje os links relacionados com os artistas em questão; qualquer busca na Internet ou numa enciclopédia de arte permitirá encontrá-los sem qualquer dificuldade.
A basílica de São Marcos é sem dúvida o monumento mais conhecido de Veneza. Construída seguindo o modelo Bizantino, as cores, os mosaicos, os dourados, as cúpulas, tudo lhe dá um ar bem diferente das Igrejas ocidentais; as pilhagens de Constantinopla em 1204 iriam acrescentar com peças do modelo original, a magnifica igreja. Claro que outras influências artísticas ocidentais se notam; mas a marca do original ficou lá; aliás, até muito tarde, na pintura continuaram a seguir a paleta de cores bizantinas. O palácio dos doges é outra obra arquitectónica notável; construído em estilo gótico, sofreu vários incêndios e remodelações. Multiplicam-se os palácios e Igrejas num estilo muito próprio; Palladio, mais tarde iria mostrar como as suas fachadas adaptavam-se maravilhosamente nesta cidade. Com o renascimento, a pintura veneziana revelou grande originalidade, pois dava primazia à cor (sobretudo quentes) em vez do desenho como em Florença; os seus temas eram também mais exuberantes (com roupas e paisagens sumptuosas). Quadros como “As bodas de Canaa” de Veroneso ou “A apresentação da Virgem ao Templo” de Tintoretto ilustram isso perfeitamente. Muitos outros autores se destacaram em Veneza: Titiano, Giorgione, depois deste verdadeiro brilho artístico, contemporâneo dos últimos tempos de glória de Veneza, a cidade parece entrar em letargia. É certo que ainda faltava Tiepolo, Guardi e Canaletto retratarem a cidade, mas esta já tinha os seus dias de glória passados. Ela começa então a viver da sua imagem, das suas festas, do Carnaval mascarado, mistura de luxo e requinte, onde estrangeiros procuram os seus divertimentos, as suas cortesãs, o anonimato que lhes garante uma máscara e uma bolsa recheada. Figuras do mundo artístico dirigem-se para lá como Byron, Wagner. Mesmo actualmente a cidade mantém o seu atractivo: Visconti no “Morte em Veneza” baseada na obra de Thomas Mann (e a música belíssima de Mahler), ou na banda desenhada de Pratt com o “Fábula de Veneza”. Todos os anos, passam na época do Carnaval ainda imagens da sua festa; a bienal de Veneza e o seu festival de cinema são elementos incontornáveis da arte, pois a cidade é sinónimo de cultura.
terça-feira, abril 13, 2004
domingo, abril 04, 2004
"VITAMINAS" DOS GUERREIROS SAXÕES
O afã de vitória levou os homens de todas as épocas a fazer coisas surpreendentes. Loga após a queda do Império Romano do Ocidente, os guerreiros saxões, antes de entrarem em batalha, preparavam algumas ovelhas e cabras com as quais copulavam. Depois matavam-nas e devoravam-nas. Consideravam que estes rituais os tornavam invulneráveis.
quarta-feira, março 31, 2004
Jogo musical-II
A nossa segunda peça é o Orfeu (1607) de Cláudio Monteverdi (1567-1643): foi durante anos considerada a primeira ópera e embora agora se saiba que não foi assim, continua a ser considerada importante. Vários elementos estiveram por base desse novo género musical: o teatro medieval (que por vezes era cantado), as pastorelas e madrigais que eram compostos de forma a contar uma história e um esforço deliberado de tentar imitar o antigo teatro grego; tudo isso deu origem a uma nova forma de arte, no qual um libretista escrevia a estória (nós diríamos o argumento) com as falas que era musicada pelo compositor. Monteverdi adaptou o modelo, incluiu uma verdadeira orquestra e não alguns músicos de acompanhamento (tinha recursos para isso na corte de Mântua), e a sua popularidade adquirida em outros géneros permitiu-lhe fazer mais algumas (já em Veneza). Orfeo conta a estória do mito grego de Orfeo e Eurídice: ela morrera e ele um mestre da música desce aos infernos onde consegue comover Hades (senhor dos infernos) a deixá-la partir embora o senhor dos mortos põem como condição de que ele não olhe para trás a confirmar que ela o segue; ele concorda mas mais tarde por não ouvir os seus passos, não resiste e ela desaparece de vez .
Entretanto o género (que surgira em Florença) foi-se difundindo nos anos seguintes em Roma onde os eclesiásticos patrocinavam o novo estilo. Nesses primeiros anos, as óperas eram pagas por um mecenas que encomendavam a peça para comemorar um acontecimento importante (subida ao trono, casamento, etc) que podia ser aberto ao público ou unicamente representado perante um pequena assembleia; uns anos depois os Venezianos pragmaticamente resolveram o problema dos mecenas, permitindo o acesso do público ao teatro onde seria representada a ópera em troca de um pagamento. As óperas variavam de acordo com as tradições culturais: maior importância à música e subordinação do libreto (que era um mero pretexto para efeitos líricos) ou pelo contrário era realçada a estória, sendo a música apenas um acompanhamento; quando existissem meios, era utilizadas máquinas para fazer efeitos cénicos e encenações que espantassem os espectadores (efeitos especiais como agora se diz).
Entretanto o género (que surgira em Florença) foi-se difundindo nos anos seguintes em Roma onde os eclesiásticos patrocinavam o novo estilo. Nesses primeiros anos, as óperas eram pagas por um mecenas que encomendavam a peça para comemorar um acontecimento importante (subida ao trono, casamento, etc) que podia ser aberto ao público ou unicamente representado perante um pequena assembleia; uns anos depois os Venezianos pragmaticamente resolveram o problema dos mecenas, permitindo o acesso do público ao teatro onde seria representada a ópera em troca de um pagamento. As óperas variavam de acordo com as tradições culturais: maior importância à música e subordinação do libreto (que era um mero pretexto para efeitos líricos) ou pelo contrário era realçada a estória, sendo a música apenas um acompanhamento; quando existissem meios, era utilizadas máquinas para fazer efeitos cénicos e encenações que espantassem os espectadores (efeitos especiais como agora se diz).
segunda-feira, março 29, 2004
Veneza-III
Quando chegamos ao séc. XI, Veneza já é uma potência com que é preciso contar no Mediterrâneo; as cruzadas ampliaram enormemente a sua esfera de acção: só Veneza podia dispor de uma frota consistente para transportar homens e víveres (sendo paga com privilégios nos novos estados, ditando a política desses reinos ou recebendo territórios). A IV cruzada, que se pode considerar um terrível crime contra a cultura (uma cruzada desviada para atacar uma cidade cristã que fora um baluarte do cristianismo como pagamento de dívida), representou para Veneza uma fantástica benesse: livraram-se de um rival, apanharam partes do seu império e embelezaram a sua cidade (os cavalos da Basílica de S. Marcos vieram de Constantinopla), dando-lhe o toque oriental e exótico em relação às outras cidades italianas (pronto, a influência já vinha de trás e manteve-se); ficaram também com uma fama de traiçoeiros de que nunca se livraram. Em rivalidade com Génova, espoliaram o novo Império restaurado, contribuindo para a ascensão dos turcos; quando estes transformaram a cidade milenar em Istambul, Veneza começa a preparar a retirada: combatendo a cada passo, vai aumentando o seu território na terra ferma (entre vitórias e derrotas), competindo com outros estado italianos, com o Papado, o Império, a França... Se não consegue fazer a unificação (mas provavelmente nunca esteve nos seus planos), perdendo o seu império comercial e colonial, obtém uma última esplêndida vitória em Lepanto em 1571; provavelmente inútil, e apenas simbólica, pois os turcos estavam a perder o fôlego das conquistas devido a transformações sociais e mentais no seu império que estavam a provocar uma estagnação), mas que deu um enorme alívio e orgulho à Europa da época (pois já não podemos falar de Cristandade). A perca da Cândia em 1669 representa o último estertor do estado marítimo. E no entanto, dois séculos depois, quando as tropas de Napoleão invadem o Veneto, as tropas recrutadas combatem ao grito de “Marco, Marco” e a população recebe silenciosa os anúncios de libertação com a igualdade e liberdade e fraternidade, sinal de que o patriotismo Veneziano mantinha-se. Em 1849, depois de um longo cerco, a recém formada república Veneziana, rendia-se depois de meses de cerco às tropas austríacas; em 1866 entrava para o reino de Itália.
sexta-feira, março 26, 2004
Solução para o despovoamento do interior!
(Foi-me enviado por e-mail)
Do Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo
SENTENÇA PROFERIDA EM 1487 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO
(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5.o,maço 7)
Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve bdezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos.
Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres.
Agora vem a melhor:
El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo.
Jogo musical-I
Bem, cá vai então o divertimento musical. Regularmente, escolherei uma obra musical que (até totalizar 10) considero das mais relevantes do milénio (logo desde o ano 1000 até 2000). Serão músicas que considero importantes para a sua época (critério subjectivo), tanto porque representam o espírito do seu tempo, ou pelo contrário, representarem um corte. O que significa que os compositores “geniais” do costume não estarão representados (Bach, Mozart, Beethoven, Schuman, Verdi, Wagner, etc). Estarão representados diferentes estilos de música e embora metade seja da música dita erudita (por razões cronológicas), a música do séc. XX representará a outra metade, dada as modificações rápidas e variedade de estilos musicais. Deveria colocar fragmentos das peças, mas infelizmente não percebo quase nada de informática e portanto vou (quando encontrar) colocar links com samples das músicas. Chamaram-me (e com pertinência creio eu) a atenção para o facto de metodologicamente ser errado misturar música barroca com rock (digamos Chopin e Elvis Presley) e portanto deveria ser coerente e manter-me só na música erudita. Só que como isto não é um estudo académico, é apenas um blog sem pretensões, creio que posso dar-me ao luxo de estipular as regras do que escrevo.
Bem, começando o primeiro vai ser a Messe de Notre Dame de Guillaume de Machaut (1300-1377). Este foi um clérigo francês; como pessoa instruída, privou de perto com a alta nobreza da época (na corte francesa) onde serviu como funcionário, compôs poemas, canções profanas e religiosas. É considerado o expoente máximo da ars nova (tirado do nome de um tratado do séc. XIV). Este tipo de música era polifónica (o que não era novidade) mas explorava de forma mais aprofundada as suas potencialidades em relação à arte antiga. Ora a missa de Notre Dame, possuía uma preocupação de unidade nas várias partes da missa que a tornava efectivamente uma obra só (e não várias peças “cosidas” umas às outras sem ligação entre si, como continuou a ser em grande parte, e se forem a uma missa actualmente, ainda é). Existem outras subtilezas musicais que tornam a peça fora do vulgar mas deixo-as para os que compreendem de música pois a peça é em sí belíssima .
Bem, começando o primeiro vai ser a Messe de Notre Dame de Guillaume de Machaut (1300-1377). Este foi um clérigo francês; como pessoa instruída, privou de perto com a alta nobreza da época (na corte francesa) onde serviu como funcionário, compôs poemas, canções profanas e religiosas. É considerado o expoente máximo da ars nova (tirado do nome de um tratado do séc. XIV). Este tipo de música era polifónica (o que não era novidade) mas explorava de forma mais aprofundada as suas potencialidades em relação à arte antiga. Ora a missa de Notre Dame, possuía uma preocupação de unidade nas várias partes da missa que a tornava efectivamente uma obra só (e não várias peças “cosidas” umas às outras sem ligação entre si, como continuou a ser em grande parte, e se forem a uma missa actualmente, ainda é). Existem outras subtilezas musicais que tornam a peça fora do vulgar mas deixo-as para os que compreendem de música pois a peça é em sí belíssima .
quarta-feira, março 24, 2004
Veneza-II
A passagem de Atila (d.C. 453) costuma ser apresentado como o elemento catalizador: as populações da zona ter-se-iam refugiado na laguna, estabelecendo-se definitivamente. Temos uma carta de Cassiodoro prefeito do Pretório (séc. VI) dirigido aos tribunos marítimos da zona.
Com as invasões dos lombardos (568), uma nova vaga de habitantes das zonas das zonas de terra firme fixam-se. De fundamental importância é a emigração também do Patriarca de Aquileia para uma das lagunas; manteve-se o hábito de escolher um sucessor na nova residência, embora as autoridades lombardas (e depois francas) nomeassem um novo patriarca para Aquileia: o futuro espaço de Veneza obtinha assim a sua autonomia religiosa, rompendo com as autoridades religiosas “continentais”; o roubo de Alexandria das relíquias de S. Marcos por 2 mercadores Venezianos em 828 fez o resto. Bizâncio entretanto, perdera grande parte das possessões italianas ficando reduzida a algumas cidades; Veneza estava na sua esfera de obediência (os primeiros doges foram exarcas nomeados ou pelo menos reconhecidos pelo Imperador), embora os seus conflitos entre o Império Carolíngio faria esse domínio variar. O domínio sobre a terra ferma, é visto como sendo uma das bases económicas que lhes deu capital que seria rapidamente investido no comércio; ao enfrentarem os piratas eslavos e apoiarem as populações latinas da Dalmácia, acabaram por tornar-se aliados e receber privilégios de Bizâncio (diminuição das taxas, exclusivo de comércio de certas zonas, jurisdição privada), tentando não enfurecer o Sacro-Império (que era o que possuía o domínio terrestre).
Com as invasões dos lombardos (568), uma nova vaga de habitantes das zonas das zonas de terra firme fixam-se. De fundamental importância é a emigração também do Patriarca de Aquileia para uma das lagunas; manteve-se o hábito de escolher um sucessor na nova residência, embora as autoridades lombardas (e depois francas) nomeassem um novo patriarca para Aquileia: o futuro espaço de Veneza obtinha assim a sua autonomia religiosa, rompendo com as autoridades religiosas “continentais”; o roubo de Alexandria das relíquias de S. Marcos por 2 mercadores Venezianos em 828 fez o resto. Bizâncio entretanto, perdera grande parte das possessões italianas ficando reduzida a algumas cidades; Veneza estava na sua esfera de obediência (os primeiros doges foram exarcas nomeados ou pelo menos reconhecidos pelo Imperador), embora os seus conflitos entre o Império Carolíngio faria esse domínio variar. O domínio sobre a terra ferma, é visto como sendo uma das bases económicas que lhes deu capital que seria rapidamente investido no comércio; ao enfrentarem os piratas eslavos e apoiarem as populações latinas da Dalmácia, acabaram por tornar-se aliados e receber privilégios de Bizâncio (diminuição das taxas, exclusivo de comércio de certas zonas, jurisdição privada), tentando não enfurecer o Sacro-Império (que era o que possuía o domínio terrestre).
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