quinta-feira, março 18, 2004

Novo blog

Bem, juntamente com o Filipe do Respublica e com o Marcos do Arqueoblogo vou passar a colaborar no blog Roma Antiga. Durante uns tempos irei sobretudo "transferir" posts relevantes do Tempore para o Roma Antiga, até ter material novo; logo o Tempore não terá mais coisas sobre Roma (mas sobre Bizâncio sim!).
E queria agradecer ao J do Cruzes Canhoto por ter colocado a lista de links de blogs no fim da página (uma lacuna que há muito teria sido preenchida... se eu soubesse como).
Como vou usar outro nome no Roma antiga, tentem descobrir qual deles sou pelo estilo de escrita!

quarta-feira, março 17, 2004

Germanização

A Polonia na segunda guerra mundial tinha uma elevada percentagem de alemães (e Judeus), que estavam moderadamente integrados: falavam polaco (sabendo um pouco de alemão como os descendentes dos nossos emigrantes em França), eram cidadãos polacos, mas tinham ascendência alemã que os definia como tal. Ora os nazis decidiram "recuperar" esse sangue para a grande nação. A maioria aliás era "mestiça", mas desde que tivessem características arianas podiam ser aproveitados (a percentagem de sangue aceite variava conforme os casos: 50%, 25%, 12%...). Essa gente deveria passar por um processo de "reeducação" antes de ser integrada na alemanha. Se apresentassem obstáculos os seus filhos deveriam ser-lhes retirados e educados por casais alemães estéreis (isto provocou um verdadeiro drama no final da guerra, com gente a tentar recuperar os seus filhos raptados). Terras onde não estivessem alemães mas historicamente tivessem existido povos germânicos deveriam (no caso de apresentar sinais de elementos arianos) passar pelo mesmo processo (estava incluído o nosso Minho devido aos Suevos). Vários dos governantes polacos que se opunham a eles eram de origem alemã (um dos comandantes do exército polaco que lhes fez a vida negra chamava-se... Rommel!). Isso convenceu os nazis de que os líderes de origem ariana de outros países eram o principal obstáculo ao seu domínio (Reino Unido, E.U.A.) e daí a necessidade de os recuperar (no caso dos soviéticos já não perderam muito tempo a tentar racionalizar as coisas desse modo).
Por pura curiosidade: Hitler admirava as capacidades dos soldados franceses (mas achava os oficiais uma calamidade) e Himmler tinha planos de a longo prazo, depois de um processo de "aculturação" incluír a França no Reich de pleno direito, como cidadãos alemães (uma vez retirados os seus elementos decadentes latinos).

sexta-feira, março 12, 2004

Links

No blog do alex temos um link relacionado com um post que fiz recentemente sobre a Madame de Pompadour. É um pretexto para falar da vida da corte no período final do absolutismo de uma forma muito "doce": música, festas, palácios, roupas luxuosas, quadros e jóias e uma homenagem a Pompadour. Como se de um filme se tratasse.

quinta-feira, março 11, 2004

Hooch

Há uns anos atrás vi uma curta-metragem (creio que no programa onda-curta, ou então a minha memória está a pregar-me partidas) chamada "O Mestre Flamengo". Era uma estória simples e despretenciosa mas com uma notável ironia, que vertia a paixão de uma jovem por um quadro na national gallery (e que mais tarde conseguia entra no quadro- ok, dito assim pode parecer ridículo, mas há filmes que só podem ser devidamente apreciados se vistos). Este era "uma mulher a beber com dois homens e uma criada" de Peter Hooch. Embora apreciado, é considerado nitidamente inferior a Vermeer seu contemporâneo. Pessoalmente também prefiro Vermeer, mas acho que Hooch tem alguns quadros que são verdadeiras obras-primas, e este é um deles.

quarta-feira, março 10, 2004

Os Franciscanos

Segunda uma lenda apócrifa, S. Francisco ter-se-ia deslocado a Portugal em 1214 e fundado a primeira comunidade Franciscana. Mais provavelmente, teria sido no final dessa década que teriam vindo Franciscanos espanhóis. O prestígio e forma de vida asseguraram-lhes um êxito rápido: vivendo pobremente, instalando-se nas cidades ou arredores e misturando-se com o povo mais pobre formavam um forte contraste com os membros das ordens tradicionais (beneditinos) ou com o clero secular (bispos, cabido). Ora este que também vivia nas cidades não viu com bons olhos os novos rivais: sendo preferidos, recebiam as esmolas, as doações testamentárias, os pagamentos pelas missas, etc, etc. Daí terem os Franciscanos sido atacados e excomungados em diversas cidades onde se tentaram instalar, sendo acusados de serem ladrões, vadios e heréticos disfarçados. Sendo o apoio do Papa e do Rei muito longínquo, o seu principal auxílio veio dos burgueses e populações locais que por devoção sincera e como forma de contrariar os seus senhores, prestou o seu apoio. Com o passar dos anos, a situação foi-se resolvendo: esferas de competência foram estabelecidas e uma situação de entendimento foi-se acordando. Mas os próprios Franciscanos tinham mudado. Sucessivas dispensas papais, tinham-nos liberto das exigências do fundador (que aliás já tinham sido “suavizadas” na regra com o estabelecimento da Ordem) tornando-se em mais uma ordem abastada e levando a criar um reportório de estórias com frades gordos. No entanto alguns quiseram manter-se fiéis ao espírito original da ordem, recusando o fausto. No séc. XIV os menoritas (quem leu o nome da Rosa reconhece bem o nome) acabaram por ter de lutar pelo seu “direito” à pobreza, sendo apelidados de heréticos sofrendo perseguições e protecção conforme os interesses políticos (originando ou misturando-se por vezes com grupos à margem da ortodoxia). No séc. XV receberam o nome de observantes (em contraste com os conventuais). Mais grupos iriam surgir em seguida.

segunda-feira, março 08, 2004

sexta-feira, março 05, 2004

Haiti

Quem anda mais atento aos noticiários já deve ter ouvido as queixas do ex-presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, sobre a forma pouco cortez como os Estados Unidos o terão "despachado" do país.

Se Aristide foi ou não metido à força num avião, a meio da noite, não faço ideia - embora possa quase jurar que vi um sorrisinho trocista na boca de Donald Rumsfeld quando ele negou que os EUA tivessem obrigado o homem a ir embora.

Há, no entanto, uma coisa que posso garantir: os americanos estão muito habituados a lidar de uma forma...hum...digamos, pouco simpática com os líderes do Haiti.

Para exemplificar, vou só relatar uma das muitas histórias dos quase vinte anos (1915-34) em que os EUA controlaram directamente o país. Se ela aconteceu exactamente assim ou não, é secundário. O que interessa aqui é que ela ilustra a forma "desinibida" como os marines orientavam os assuntos locais.

Logo no início da presença militar norte-americana, em 1915, Washington quis dar uma cobertura legal à ocupação do Haiti. Fez-se (no Departamento de Estado, claro está) um tratado entre os dois países, que concedia aos EUA controlo sobre as finanças, as alfândegas e a polícia haitianas. Ou seja, tudo o que importava. O acordo era válido por dez anos, e renovável por outros dez, se qualquer uma das partes assim o desejasse. Como se já não fosse suficientemente seguro, ainda dava aos americanos o direito de intervirem militarmente em caso de incumprimento.

Ora, o problema com estes tratados é que têm de ser assinados pelas duas partes. E, neste caso concreto, o então presidente do Haiti, Philippe Dartiguenave, não estava com muita vontade de assinar. O senhor em causa até tinha sido escolhido a dedo (os marines tinham "supervisionado" a votação na Assembleia Nacional, e nem sequer se deram ao trabalho de esconder as baionetas), mas ele lá deve ter achado que o que é demais, é demais...

Bem, mas, como se costuma dizer, «a espada é mais forte do que a pena». O major Smedley Butler, um marine que já era uma lenda viva entre os seus camaradas, foi enviado para obter a necessária assinatura. O que aconteceu a seguir, ninguém sabe ao certo. Sabe-se que o tratado voltou assinado e que começou a correr a lenda de que Butler tinha obtido a rubrica na casa-de-banho. Passo a explicar: chegando ao palácio presidencial, o marine descobriu que Dartiguenave se tinha escondido na dita instalação sanitária. Plantou-se à porta, mas nada. O presidente recusava-se a sair. Smedley Butler, que nunca foi homem de se deter com nada, saiu, pôs uma escada na parede, subiu e entrou na casa-de-banho pela janela. Apanhou o presidente sentado na sanita (mas com as calças em cima), ordenou-lhe que assinasse o tratado, e ele assinou - que remédio...

A história é chocante, mas é indiscutível que o período em que os americanos estiveram no Haiti foi talvez o menos mau dos duzentos anos de independência que o país já tem. Não é políticamente correcto dizer-se isto, mas o Haiti é um país falhado. Foram duzentos anos a oscilar entre o caos e as ditaduras sangrentas. Será mero acaso que, na presente crise, não há uma única voz a levantar-se contra a presença militar norte-americana? Aristide subiu ao poder graças ao apoio americano, mas os guerrilheiros passeiam-se nas ruas com camisolas e lenços onde aparece a bandeira dos EUA.

Não defendo um regresso ao colonialismo, mas não será uma boa altura para pensar num outro rumo (pelo menos temporário) para este e outros paises em situação semelhante? Não seria melhor colocá-los sob responsabilidade directa das Nações Unidas, transformando-os numa espécie de protectorado da Humanidade?