Quem anda mais atento aos noticiários já deve ter ouvido as queixas do ex-presidente do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, sobre a forma pouco cortez como os Estados Unidos o terão "despachado" do país.
Se Aristide foi ou não metido à força num avião, a meio da noite, não faço ideia - embora possa quase jurar que vi um sorrisinho trocista na boca de Donald Rumsfeld quando ele negou que os EUA tivessem obrigado o homem a ir embora.
Há, no entanto, uma coisa que posso garantir: os americanos estão muito habituados a lidar de uma forma...hum...digamos, pouco simpática com os líderes do Haiti.
Para exemplificar, vou só relatar uma das muitas histórias dos quase vinte anos (1915-34) em que os EUA controlaram directamente o país. Se ela aconteceu exactamente assim ou não, é secundário. O que interessa aqui é que ela ilustra a forma "desinibida" como os marines orientavam os assuntos locais.
Logo no início da presença militar norte-americana, em 1915, Washington quis dar uma cobertura legal à ocupação do Haiti. Fez-se (no Departamento de Estado, claro está) um tratado entre os dois países, que concedia aos EUA controlo sobre as finanças, as alfândegas e a polícia haitianas. Ou seja, tudo o que importava. O acordo era válido por dez anos, e renovável por outros dez, se qualquer uma das partes assim o desejasse. Como se já não fosse suficientemente seguro, ainda dava aos americanos o direito de intervirem militarmente em caso de incumprimento.
Ora, o problema com estes tratados é que têm de ser assinados pelas duas partes. E, neste caso concreto, o então presidente do Haiti, Philippe Dartiguenave, não estava com muita vontade de assinar. O senhor em causa até tinha sido escolhido a dedo (os marines tinham "supervisionado" a votação na Assembleia Nacional, e nem sequer se deram ao trabalho de esconder as baionetas), mas ele lá deve ter achado que o que é demais, é demais...
Bem, mas, como se costuma dizer, «a espada é mais forte do que a pena». O major Smedley Butler, um marine que já era uma lenda viva entre os seus camaradas, foi enviado para obter a necessária assinatura. O que aconteceu a seguir, ninguém sabe ao certo. Sabe-se que o tratado voltou assinado e que começou a correr a lenda de que Butler tinha obtido a rubrica na casa-de-banho. Passo a explicar: chegando ao palácio presidencial, o marine descobriu que Dartiguenave se tinha escondido na dita instalação sanitária. Plantou-se à porta, mas nada. O presidente recusava-se a sair. Smedley Butler, que nunca foi homem de se deter com nada, saiu, pôs uma escada na parede, subiu e entrou na casa-de-banho pela janela. Apanhou o presidente sentado na sanita (mas com as calças em cima), ordenou-lhe que assinasse o tratado, e ele assinou - que remédio...
A história é chocante, mas é indiscutível que o período em que os americanos estiveram no Haiti foi talvez o menos mau dos duzentos anos de independência que o país já tem. Não é políticamente correcto dizer-se isto, mas o Haiti é um país falhado. Foram duzentos anos a oscilar entre o caos e as ditaduras sangrentas. Será mero acaso que, na presente crise, não há uma única voz a levantar-se contra a presença militar norte-americana? Aristide subiu ao poder graças ao apoio americano, mas os guerrilheiros passeiam-se nas ruas com camisolas e lenços onde aparece a bandeira dos EUA.
Não defendo um regresso ao colonialismo, mas não será uma boa altura para pensar num outro rumo (pelo menos temporário) para este e outros paises em situação semelhante? Não seria melhor colocá-los sob responsabilidade directa das Nações Unidas, transformando-os numa espécie de protectorado da Humanidade?
sexta-feira, março 05, 2004
Invenções
Estava-se no reinado do Imperador Vespasiano (A.D. 69-79), quando um engenheiro criou uma um guindaste que conseguia fazer o trabalho de 10 homens. O imperador louvou-o, deu-lhe um prémio, comprou os planos e mandou destruír a invenção, pois isso levaria a que os homens ficassem sem o seu ganha-pão.
Este episódio é fulcral para mostrar o que era considerado a manutenção do status quo: não significava só ajudar os senadores a ficarem no senado, mas que a plebe e escravos tivessem trabalho. Mas em troca da paz social, a longo prazo condenava-se a sociedade à estagnação, e quando se desse uma sucessão de crises, a morte.
Mais uma nota curiosa: quando estava no seu leito de morte, Vespasiano disse que estava a sentir tornar-se um deus. Por aqui vemos que exceptuando alguns megalómanos, os imperadores com bom senso não acreditavam na sua natureza divina (passado uns meses ele foi deificado).
Este episódio é fulcral para mostrar o que era considerado a manutenção do status quo: não significava só ajudar os senadores a ficarem no senado, mas que a plebe e escravos tivessem trabalho. Mas em troca da paz social, a longo prazo condenava-se a sociedade à estagnação, e quando se desse uma sucessão de crises, a morte.
Mais uma nota curiosa: quando estava no seu leito de morte, Vespasiano disse que estava a sentir tornar-se um deus. Por aqui vemos que exceptuando alguns megalómanos, os imperadores com bom senso não acreditavam na sua natureza divina (passado uns meses ele foi deificado).
quinta-feira, março 04, 2004
A colonização alemã na africa oriental-II
As diferentes companhias dedicaram-se rapidamente à exploração dos territórios, mas a sua administração passou para as mãos do funcionalismo imperial, dadas as revoltas de indígenas. Das mais terríveis retemos duas: a dos Masai em 1889 e a dos Maji-Maji em 1905. A revolta dos Masai começou por arrogância mútua; habituados a serem o povo hegemónico no Quénia e Tanzânia exigiam mostras de submissão por quem passasse no seu território executando quem não o fazia. Uma expedição alemã provocou-os propositadamente levando-os à revolta; os masai foram derrotados em campo aberto e passaram a fazer raids até ao fim da guerra. A dos Maji-Maji foi conduzida por um conjunto de feiticeiros que conseguiram convencer várias tribos de que tinham feitiços que paravam as balas alemãs; morreram dezenas de milhares de africanos (que atacavam em massa, ao contrário dos Masai que se aproximavam agachados para evitar as balas); as forças alemãs com pouco mais de um milhar de homens (mas bem equipados e armados) saem vitoriosas.
Com a primeira guerra, as colónias alemãs são conquistadas rapidamente excepto em Africa: o general Von Lettow-Vorbeck com poucos milhares de homens manteve as forças aliadas à distância (que em termos teóricos ultrapassavam a centena de milhar), até se dar a inevitável rendição.
Com a primeira guerra, as colónias alemãs são conquistadas rapidamente excepto em Africa: o general Von Lettow-Vorbeck com poucos milhares de homens manteve as forças aliadas à distância (que em termos teóricos ultrapassavam a centena de milhar), até se dar a inevitável rendição.
terça-feira, março 02, 2004
A colonização alemã na africa oriental-I
Esta é normalmente pouco conhecida: tirando alguns filmes de aventuras dos anos 60 e referências em Corto Maltese, o papel colonial alemão é esquecido dado as colónias terem sido perdidas em 1914-18; de uma forma resumida tentarei apresentar alguns pontos.
Em meados do séc. XIX as principais potências em Africa continuavam a ser as tradicionais: Portugal, Reino Unido, França. A Libéria e o Egipto eram os únicos países independentes (este cada vez menos); nações como a Espanha e a Bélgica iam aos poucos talhando o seu império, quando na segunda metade do século, a recém-formada Alemanha decidiu tentar a sorte.
Em 1884 foi fundada a sociedade da Africa oriental por particulares. Foram organizadas diversas expedições na costa de Zanzibar resultando numa colónia com vários entrepostos. Apesar de serem feitos alguns acordos com tribos locais, os mercadores muçulmanos de escravos fizeram os possíveis para lançar os indígenas contra os recém-chegados.
Nesse mesmo ano (uns meses depois do começo da aventura), dá-se a conferência de Berlim que pretende regularizar as partilhas do território africano: como consequências importantes temos o conceito de que nenhum país pode estabelecer entrepostos onde outro país já existe, e a não legitimação automática do direito de expansão para o interior a partir de colónias litorais (este ponto seria importante no caso português quando se deu a questão do mapa cor-de-rosa).
Se Bismarck não era à partida muito favorável a uma expansão de territórios (dispersava-se os recursos e corria-se o risco de entrar em conflito com outros países), a pressão de alguns meios levou-o a mudar de posição (é de notar a forte emigração para os E.U.A. e Brasil nesse período superior a um milhão de pessoas).
Em meados do séc. XIX as principais potências em Africa continuavam a ser as tradicionais: Portugal, Reino Unido, França. A Libéria e o Egipto eram os únicos países independentes (este cada vez menos); nações como a Espanha e a Bélgica iam aos poucos talhando o seu império, quando na segunda metade do século, a recém-formada Alemanha decidiu tentar a sorte.
Em 1884 foi fundada a sociedade da Africa oriental por particulares. Foram organizadas diversas expedições na costa de Zanzibar resultando numa colónia com vários entrepostos. Apesar de serem feitos alguns acordos com tribos locais, os mercadores muçulmanos de escravos fizeram os possíveis para lançar os indígenas contra os recém-chegados.
Nesse mesmo ano (uns meses depois do começo da aventura), dá-se a conferência de Berlim que pretende regularizar as partilhas do território africano: como consequências importantes temos o conceito de que nenhum país pode estabelecer entrepostos onde outro país já existe, e a não legitimação automática do direito de expansão para o interior a partir de colónias litorais (este ponto seria importante no caso português quando se deu a questão do mapa cor-de-rosa).
Se Bismarck não era à partida muito favorável a uma expansão de territórios (dispersava-se os recursos e corria-se o risco de entrar em conflito com outros países), a pressão de alguns meios levou-o a mudar de posição (é de notar a forte emigração para os E.U.A. e Brasil nesse período superior a um milhão de pessoas).
sexta-feira, fevereiro 27, 2004
Tiberio
Acabei de ler “Eu, Cláudio” o que me deu a ideia de escrever sobre Tibério.
Tibério Cláudio Nero nascido em 42 a.C; pertencia à gens Cláudia, uma velha e prestigiada família senatorial. A sua mãe Lívia divorciou-se de seu pai Claúdio Nero para casar com o homem do momento, Augusto.
Tibério foi enviado como oficial em diversas campanhas e mostrou-se competente; também se saiu bem em diferentes cargos administrativos: era rigoroso mas honesto e cumpria com zelo as suas funções. Casou com uma filha de Agripa, o mais importante apoiante de Augusto; mais tarde foi obrigado a divorciar-se dela (vivendo feliz com ela) para casar com a filha de Augusto (casamento que correu mal). Estando afastado da sucessão deste pela existência de sobrinhos e netos directos, a morte sucessiva e conveniente deles (especulou-se que Lívia teria envenenado todos esses candidatos), iria torná-lo o único herdeiro aceitável: possuia experiência e idade. Em 14 DC torna-se o Imperador.
Não se lançou em novas conquistas, limitando-se a reprimir algumas revoltas sem grande importância, e a usar a diplomacia com outros países. De forma geral manteve as finanças em ordem, não gastando muito com festas para além do que era necessário, poupando em dádivas e confiscando os bens de todos os que considerasse traidores (que com os anos se foram multiplicando). Não aceitava homenagens divinas, nem aumentava impostos. Os governadores eram escolhidos pela sua competência, tendo de prestar contas do seu governo. Assim, para a população das provincias o seu reinado foi benéfico. Mas as crónicas têm uma visão muito negra dele. Porquê?
Um sobrinho seu de nome Germânico torna-se seu herdeiro: popular, inteligente, militar competente, teria numa campanha conquistado a alemanha até ao Elba, se não fosse ordenado retirar sob o pretexto das perdas; morreu em condições supeitas que indicavam o próprio Tibério ser o autor. O seu filho Druso tornou-se o herdeiro imperial, mas a esposa de Druso que se tornara amante do prefeito da guarda pretoriana envenenou-o e ambos foram com acusações falsas eliminando todos os eventuais candidatos à sucessão; pensa-se que o seu objectivo fosse a ascenção ao trono. Quando Tibério descobriu mandou executá-los assim como amigos e associados.
Entrando em paranoia crescente, vivendo isolado com uma pequena corte em Capri onde se dedicava de acordo com os cronistas a obscenidades com crianças e adolescente, ordenava a execução de todos os que lhe eram suspeitos.
Quando morreu (37 d.C.), correu mais tarde a estória de que fora assassinado pelo seu sucessor Calígula (que de facto era completamente desiquilibrado).
Ora tudo o que nos foi relatado foi por historiadores favoráveis a uma reinstalação da república (Tácito e sobretudo Suetónio), e que eram representantes das classes perseguidas por Tibério (embora tivessem vivido muito posteriormente); deste modo a visão apresentada era a mais negativa possível. E se a figura de Augusto era demasiado venerada para se lhe poder tocar, o mesmo não se poderia dizer dos seus sucessores.
Tibério Cláudio Nero nascido em 42 a.C; pertencia à gens Cláudia, uma velha e prestigiada família senatorial. A sua mãe Lívia divorciou-se de seu pai Claúdio Nero para casar com o homem do momento, Augusto.
Tibério foi enviado como oficial em diversas campanhas e mostrou-se competente; também se saiu bem em diferentes cargos administrativos: era rigoroso mas honesto e cumpria com zelo as suas funções. Casou com uma filha de Agripa, o mais importante apoiante de Augusto; mais tarde foi obrigado a divorciar-se dela (vivendo feliz com ela) para casar com a filha de Augusto (casamento que correu mal). Estando afastado da sucessão deste pela existência de sobrinhos e netos directos, a morte sucessiva e conveniente deles (especulou-se que Lívia teria envenenado todos esses candidatos), iria torná-lo o único herdeiro aceitável: possuia experiência e idade. Em 14 DC torna-se o Imperador.
Não se lançou em novas conquistas, limitando-se a reprimir algumas revoltas sem grande importância, e a usar a diplomacia com outros países. De forma geral manteve as finanças em ordem, não gastando muito com festas para além do que era necessário, poupando em dádivas e confiscando os bens de todos os que considerasse traidores (que com os anos se foram multiplicando). Não aceitava homenagens divinas, nem aumentava impostos. Os governadores eram escolhidos pela sua competência, tendo de prestar contas do seu governo. Assim, para a população das provincias o seu reinado foi benéfico. Mas as crónicas têm uma visão muito negra dele. Porquê?
Um sobrinho seu de nome Germânico torna-se seu herdeiro: popular, inteligente, militar competente, teria numa campanha conquistado a alemanha até ao Elba, se não fosse ordenado retirar sob o pretexto das perdas; morreu em condições supeitas que indicavam o próprio Tibério ser o autor. O seu filho Druso tornou-se o herdeiro imperial, mas a esposa de Druso que se tornara amante do prefeito da guarda pretoriana envenenou-o e ambos foram com acusações falsas eliminando todos os eventuais candidatos à sucessão; pensa-se que o seu objectivo fosse a ascenção ao trono. Quando Tibério descobriu mandou executá-los assim como amigos e associados.
Entrando em paranoia crescente, vivendo isolado com uma pequena corte em Capri onde se dedicava de acordo com os cronistas a obscenidades com crianças e adolescente, ordenava a execução de todos os que lhe eram suspeitos.
Quando morreu (37 d.C.), correu mais tarde a estória de que fora assassinado pelo seu sucessor Calígula (que de facto era completamente desiquilibrado).
Ora tudo o que nos foi relatado foi por historiadores favoráveis a uma reinstalação da república (Tácito e sobretudo Suetónio), e que eram representantes das classes perseguidas por Tibério (embora tivessem vivido muito posteriormente); deste modo a visão apresentada era a mais negativa possível. E se a figura de Augusto era demasiado venerada para se lhe poder tocar, o mesmo não se poderia dizer dos seus sucessores.
quarta-feira, fevereiro 25, 2004
Os Judeus na Idade Média-III
Na península ibérica, as coisas mantiveram-se calmas mesmo nos territórios cristãos por algum tempo; depois, no séc. XIV com uma mistura de factores (dificuldades económicas, pestes), levam a um progressivo ódio contra os judeus, até que as populações começam também a ataca-los (qual a relação entre a peste e os Judeus? Nenhuma, mas serviam de bode expiatório). Apesar dos reis os protegerem por interesse, D. João II usa uma artimanha para “converter” os judeus mantendo-os cá (embora oficialmente expulsando-os); algumas décadas depois é estabelecida a Inquisição com as suas consequências.
Em Bizâncio as coisas passavam-se de forma diferente. Tendo-lhes sido progressivamente retirados os elementos de cidadania, nunca foram abertamente perseguidos (embora não lhes fizessem a vida fácil). Se do séc. IV ao VII se deram conflitos nas principais cidades do oriente entre comunidades hebraicas e gregas (tal conflito já vinha de trás), estes extinguiram-se com a conquista desses vastos territórios pelos árabes. De qualquer maneira nunca se deram os progroms que seriam tão frequentes no ocidente séculos depois. A perseguição era mais subtil.
Por diversas vezes foram obrigados a “renunciar” ao Talmude e à Mishna (significará que a proibição não era aplicada?). Só podiam usar versões do Antigo Testamento que tivessem sido aprovadas pelas autoridades; não se podiam ouvir os seus cânticos na vizinhança; pagavam uma taxa extra e eram periodicamente submetidos a debates para lhes provar os seus “erros”, terminando (oficialmente pelo menos), no reconhecimento voluntário da superioridade da religião cristã e pedido de baptismo. A Igreja ortodoxa opunha-se a estes debates, porque considerava que pressionar os judeus a converterem-se, estava errado e não era feito com sinceridade.
Os judeus eram vistos assim de vários modos: eram o testemunho do Antigo Testamento, a prova visível da superioridade dos cristãos (tinham sido o provo eleito e depois ao rejeitarem o Messias tinham-se posto à margem, perdendo a sua posição em favor dos cristãos).
Dedicavam-se a vários trabalhos: como comerciantes, artesãos, trabalhadores agrícolas; o facto de não terem sido reduzidos a prestamistas é capaz de ajudar a explicar não terem sido odiados. A partir do ano mil a sua situação degradou-se um pouco: foram obrigados a sair do interior de Constantinopla, mas sem mais consequências; quando se deu a IV cruzada o seu bairro foi incendiado e foram massacrados (bem, mas isso os cruzados também o fizeram sem discriminação à restante população cristã). As várias comunidades mantinham-se solidárias em caso de problemas: se uma cidade era saqueada e os habitantes vendidos como escravos, os judeus de outra cidade que tivesse escapado incólume resgatavam os seus compatriotas.
Com a conquista do Império pelos otomanos, integraram-se como mais uma das comunidades minoritárias.
Em Bizâncio as coisas passavam-se de forma diferente. Tendo-lhes sido progressivamente retirados os elementos de cidadania, nunca foram abertamente perseguidos (embora não lhes fizessem a vida fácil). Se do séc. IV ao VII se deram conflitos nas principais cidades do oriente entre comunidades hebraicas e gregas (tal conflito já vinha de trás), estes extinguiram-se com a conquista desses vastos territórios pelos árabes. De qualquer maneira nunca se deram os progroms que seriam tão frequentes no ocidente séculos depois. A perseguição era mais subtil.
Por diversas vezes foram obrigados a “renunciar” ao Talmude e à Mishna (significará que a proibição não era aplicada?). Só podiam usar versões do Antigo Testamento que tivessem sido aprovadas pelas autoridades; não se podiam ouvir os seus cânticos na vizinhança; pagavam uma taxa extra e eram periodicamente submetidos a debates para lhes provar os seus “erros”, terminando (oficialmente pelo menos), no reconhecimento voluntário da superioridade da religião cristã e pedido de baptismo. A Igreja ortodoxa opunha-se a estes debates, porque considerava que pressionar os judeus a converterem-se, estava errado e não era feito com sinceridade.
Os judeus eram vistos assim de vários modos: eram o testemunho do Antigo Testamento, a prova visível da superioridade dos cristãos (tinham sido o provo eleito e depois ao rejeitarem o Messias tinham-se posto à margem, perdendo a sua posição em favor dos cristãos).
Dedicavam-se a vários trabalhos: como comerciantes, artesãos, trabalhadores agrícolas; o facto de não terem sido reduzidos a prestamistas é capaz de ajudar a explicar não terem sido odiados. A partir do ano mil a sua situação degradou-se um pouco: foram obrigados a sair do interior de Constantinopla, mas sem mais consequências; quando se deu a IV cruzada o seu bairro foi incendiado e foram massacrados (bem, mas isso os cruzados também o fizeram sem discriminação à restante população cristã). As várias comunidades mantinham-se solidárias em caso de problemas: se uma cidade era saqueada e os habitantes vendidos como escravos, os judeus de outra cidade que tivesse escapado incólume resgatavam os seus compatriotas.
Com a conquista do Império pelos otomanos, integraram-se como mais uma das comunidades minoritárias.
quinta-feira, fevereiro 12, 2004
Os Judeus na Idade Média-II
Com a queda do Império, a intolerância pareceu ficar parada por algum tempo. Na Península Ibérica, em princípios do séc. VII os reis visigodos começam as primeiras perseguições: obrigatoriedade de conversão ou expulsão. Com a conquista muçulmana, os Judeus gozam de uma relativa protecção; aliás, por toda a Europa ocidental, até ao séc. X, as perseguições são raras. Com o retrocesso económico que se dera na Alta Idade Média, e o corte entre o ocidente cristão, e oriente muçulmano, o comércio ficara muito reduzido. Os Judeus estando presentes nos dois mundos, mantinham o contacto, e foram assenhorando-se do comércio entre as duas zonas (normalmente de produtos de luxo).
A partir do séc. X as coisas começaram a modificar-se: a sociedade começa a tornar-se mais “cristianizada” e mais intolerante. Em verdadeiras explosões de fúria são feitos ataques da população a Judeus, matando indiscriminadamente homens, mulheres e crianças. Razões económicas para além das religiosas misturam-se: privados do exercício das actividades económicas consideradas “normais” (cultivo da terras), dedicavam-se entre outras coisas à usura (empréstimo com juros, o que era proibido aos cristãos), o que os tornava mais odiados. Grupos de cruzados por várias vezes ao dirigirem-se para a Terra Santa, dedicavam-se a exterminar as comunidades judaicas que encontrassem pelo caminho. Começa a ser hábito espalhar rumores sobre blasfémias e sacrifícios que os Judeus praticariam em segredo para escárnio dos cristãos. Lentamente os Judeus passam a ser forçados a viver acantonados numa zona da cidade (Judiarias- aliás este termo acabaria por entrar no vocabulário popular como significando uma acção vil) e a usar um vestuário com uma marca que os distinguisse (a estrela de David por exemplo).
A atitude da Igreja variava muito: se a corte Pontifícia se revelava normalmente tolerante, protegendo-os, e empregando-os mesmo (como médicos), o baixo clero mais próximo da população incentivava ao ódio e à perseguição. Os soberanos também tinham atitudes diferentes: Frederico Hoenstaufen rodeava-se de Judeus e muçulmanos. Pelo contrário, contava-se uma estória sobre João Sem Terra, em que este precisando de dinheiro, mandara prender um judeu com fama de rico, ordenou que lhe fossem arrancados todos os dentes e só depois é que lhe pediu dinheiro... Verdade ou fantasia (afinal contavam-se muitas coisas sobre João Sem Terra), isto ilustra a instabilidade social dos Judeus: ricos e convivendo com soberanos por um lado, mas sujeitos aos caprichos destes para os defender da fúria das populações.
A partir do séc. X as coisas começaram a modificar-se: a sociedade começa a tornar-se mais “cristianizada” e mais intolerante. Em verdadeiras explosões de fúria são feitos ataques da população a Judeus, matando indiscriminadamente homens, mulheres e crianças. Razões económicas para além das religiosas misturam-se: privados do exercício das actividades económicas consideradas “normais” (cultivo da terras), dedicavam-se entre outras coisas à usura (empréstimo com juros, o que era proibido aos cristãos), o que os tornava mais odiados. Grupos de cruzados por várias vezes ao dirigirem-se para a Terra Santa, dedicavam-se a exterminar as comunidades judaicas que encontrassem pelo caminho. Começa a ser hábito espalhar rumores sobre blasfémias e sacrifícios que os Judeus praticariam em segredo para escárnio dos cristãos. Lentamente os Judeus passam a ser forçados a viver acantonados numa zona da cidade (Judiarias- aliás este termo acabaria por entrar no vocabulário popular como significando uma acção vil) e a usar um vestuário com uma marca que os distinguisse (a estrela de David por exemplo).
A atitude da Igreja variava muito: se a corte Pontifícia se revelava normalmente tolerante, protegendo-os, e empregando-os mesmo (como médicos), o baixo clero mais próximo da população incentivava ao ódio e à perseguição. Os soberanos também tinham atitudes diferentes: Frederico Hoenstaufen rodeava-se de Judeus e muçulmanos. Pelo contrário, contava-se uma estória sobre João Sem Terra, em que este precisando de dinheiro, mandara prender um judeu com fama de rico, ordenou que lhe fossem arrancados todos os dentes e só depois é que lhe pediu dinheiro... Verdade ou fantasia (afinal contavam-se muitas coisas sobre João Sem Terra), isto ilustra a instabilidade social dos Judeus: ricos e convivendo com soberanos por um lado, mas sujeitos aos caprichos destes para os defender da fúria das populações.
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