quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Os Judeus na Idade Média-II

Com a queda do Império, a intolerância pareceu ficar parada por algum tempo. Na Península Ibérica, em princípios do séc. VII os reis visigodos começam as primeiras perseguições: obrigatoriedade de conversão ou expulsão. Com a conquista muçulmana, os Judeus gozam de uma relativa protecção; aliás, por toda a Europa ocidental, até ao séc. X, as perseguições são raras. Com o retrocesso económico que se dera na Alta Idade Média, e o corte entre o ocidente cristão, e oriente muçulmano, o comércio ficara muito reduzido. Os Judeus estando presentes nos dois mundos, mantinham o contacto, e foram assenhorando-se do comércio entre as duas zonas (normalmente de produtos de luxo).
A partir do séc. X as coisas começaram a modificar-se: a sociedade começa a tornar-se mais “cristianizada” e mais intolerante. Em verdadeiras explosões de fúria são feitos ataques da população a Judeus, matando indiscriminadamente homens, mulheres e crianças. Razões económicas para além das religiosas misturam-se: privados do exercício das actividades económicas consideradas “normais” (cultivo da terras), dedicavam-se entre outras coisas à usura (empréstimo com juros, o que era proibido aos cristãos), o que os tornava mais odiados. Grupos de cruzados por várias vezes ao dirigirem-se para a Terra Santa, dedicavam-se a exterminar as comunidades judaicas que encontrassem pelo caminho. Começa a ser hábito espalhar rumores sobre blasfémias e sacrifícios que os Judeus praticariam em segredo para escárnio dos cristãos. Lentamente os Judeus passam a ser forçados a viver acantonados numa zona da cidade (Judiarias- aliás este termo acabaria por entrar no vocabulário popular como significando uma acção vil) e a usar um vestuário com uma marca que os distinguisse (a estrela de David por exemplo).
A atitude da Igreja variava muito: se a corte Pontifícia se revelava normalmente tolerante, protegendo-os, e empregando-os mesmo (como médicos), o baixo clero mais próximo da população incentivava ao ódio e à perseguição. Os soberanos também tinham atitudes diferentes: Frederico Hoenstaufen rodeava-se de Judeus e muçulmanos. Pelo contrário, contava-se uma estória sobre João Sem Terra, em que este precisando de dinheiro, mandara prender um judeu com fama de rico, ordenou que lhe fossem arrancados todos os dentes e só depois é que lhe pediu dinheiro... Verdade ou fantasia (afinal contavam-se muitas coisas sobre João Sem Terra), isto ilustra a instabilidade social dos Judeus: ricos e convivendo com soberanos por um lado, mas sujeitos aos caprichos destes para os defender da fúria das populações.

segunda-feira, fevereiro 09, 2004

Era Atómica II

Para os que se interessaram por um post meu anterior, sobre o envio a dez personalidades norte-americanas de cartas concendendo-lhes autoridade presidencial para assumirem funções governativas chave em caso de guerra nuclear, esta página dá algumas informações interessantes.

Para começar, temos o fac simile das cartas enviadas e assinadas pelo presidente Dwight Eisenhower, bem como a respectiva transcrição. Depois, temos a identificação e biografia de cada um dos "Dez Magníficos" (que, afinal, eram só nove) - e um deles ainda está vivo...

Mais importante ainda, temos a informação de que a administração Kennedy só "despediu", aparentemente, seis dos nove homens que receberam a carta do anterior presidente. Parece mesmo que os EUA continuaram a recorrer durante mais uns anos à nomeação ad hoc de responsáveis governativos para o caso de uma eventual catástrofe nuclear.

Ah, e já agora, o site da Conelrad, onde está toda esta informação, é um excelente repositório de história da Guerra Fria.

Os Judeus na Idade Média-I

Li recentemente um post sobre as consequências da expulsão dos Judeus nas descobertas, e decidi fazer um sobre a Idade Média.
Depois da guerra romano-judaica no reinado de Adriano, com a proibição dos judeus voltarem ao seu território de origem, a situação ficou resolvida para os romanos: sem uma terra que pudessem tentar tornar independente, as revoltas estavam suprimidas. Espalharam-se um pouco por todo o mediterrâneo, onde já existiam comunidades. Com o édito de Caracala em 212, todos os homens livres adquiriram a cidadania romana, incluindo os Judeus. Apesar de serem monoteístas, estavam dispensados de prestar sacrifícios ao génio do Imperador; também tinham um patriarca que de algum modo representava os interesses judaicos perante o estado. A que se deve essa dispensa? Ao reconhecimento de uma tradição antiga, que sempre os livrara do culto imperial e ao facto de pertencerem a um grupo étnico (o mesmo não sucedia com os cristãos: eram uma religião recente sem prestígio, e vindos de todas as raças). Mesmo embora a sociedade se fosse tornando mais totalitária do ponto de vista religioso, até à conversão de Constantino no séc. IV, a situação pouco mudou. Progressivamente, com o estabelecimento do Cristianismo como religião estatal, todos os “não católicos” (pagãos, cristãos de outras confissões, judeus), foram perdendo os seus direitos; deixaram de poder ser nomeados para cargos honoríficos, possuir escravos cristãos (que a longo prazo significava perder a possibilidade de ter terras), a própria liberdade de culto.

segunda-feira, fevereiro 02, 2004

Algumas evoluções do exército romano-III

No séc. II, com a paz e certa prosperidade, os italianos apenas querem ficar na guarda pretoriana (onde usufruem de um soldo mais elevado, prestígio de servir directamente o imperador, e claro poder), e as coortes urbanas, onde gozam as delícias da vida em Itália sem se aborrecer com a guerra. Os legionários são todos colonos. Mas um fenómeno importante começa a impor-se: os soldados que foram desmobilizados numa zona, casaram e ficaram aí a viver e os seus filhos alistam-se mas pretendem servir nessa zona, e não serem colocados noutra terras distante. Ou seja, as legiões de unidade móveis começam a tornar-se fixas, quase guarnições. Este fenómeno do recrutamento e defesa local, só ficaria completo com as reformas no séc. IV entre a divisão entre um exército estacionário e um móvel. Outro elemento, é o progressivo alistamento de cidadãos nas unidades auxiliares (porque os filhos de pais que tinham adquirido a cidadania pretendiam servir nessa unidade e não queriam ir para outro local). As unidades auxiliares vem as suas tropas perderem agressividade na medida em que as zonas que tinham sido anteriormente bárbaras (península ibérica, Gália), estavam a romanizar-se e a ficar mais civilizadas com os progressos da pax romana; vão-se esbater assim as diferenças com as legiões. De qualquer modo mantém-se sempre unidades mais flexíveis (para combate de escaramuça contra salteadores bárbaros), devido ao tipo de função que lhes é exigido. No séc. III devido às dificuldades de recrutamento, é estendida a cidadania a todos os homens livres, o recrutamento fica facilitado, mas vemos, que o critério deixa de ser a qualidade para ser a quantidade. Quanto às tropas auxiliares, vão lentamente ser preenchidas com bárbaros, até que no séc. IV elas detêm o seu quase monopólio com as auxilia palatinae, tornando-se a tropa de escol do império, em detrimento das legiões (é certo que treinadas e equipadas à romana).

quinta-feira, janeiro 29, 2004

Vermeer

Hoje decidi fazer um breve intervalo sobre as questões militares do Alto Império Romano e divulgar este site do meu pintor favorito Vermeer, usando como pretexto o facto de um filme sobre ele ter sido nomeado para os óscares. Pintava cenas aparentemente do quotidiano (uma jovem burguesa a ler uma carta- embora isso diga bastante sobre o grau de alfabetização dos países paixos no séc. XVII comparado com Portugal), uma criada a conversar, ou paisagens; no entanto, normalmente existia uma forte carga simbólica (a leitura da carta continha elementos diferentes consoante fosse do marido ou de um amante, etc), que se torna por vezes de difícil compreensão. Mas são quadros belíssimos de qualquer modo.