Li recentemente um post sobre as consequências da expulsão dos Judeus nas descobertas, e decidi fazer um sobre a Idade Média.
Depois da guerra romano-judaica no reinado de Adriano, com a proibição dos judeus voltarem ao seu território de origem, a situação ficou resolvida para os romanos: sem uma terra que pudessem tentar tornar independente, as revoltas estavam suprimidas. Espalharam-se um pouco por todo o mediterrâneo, onde já existiam comunidades. Com o édito de Caracala em 212, todos os homens livres adquiriram a cidadania romana, incluindo os Judeus. Apesar de serem monoteístas, estavam dispensados de prestar sacrifícios ao génio do Imperador; também tinham um patriarca que de algum modo representava os interesses judaicos perante o estado. A que se deve essa dispensa? Ao reconhecimento de uma tradição antiga, que sempre os livrara do culto imperial e ao facto de pertencerem a um grupo étnico (o mesmo não sucedia com os cristãos: eram uma religião recente sem prestígio, e vindos de todas as raças). Mesmo embora a sociedade se fosse tornando mais totalitária do ponto de vista religioso, até à conversão de Constantino no séc. IV, a situação pouco mudou. Progressivamente, com o estabelecimento do Cristianismo como religião estatal, todos os “não católicos” (pagãos, cristãos de outras confissões, judeus), foram perdendo os seus direitos; deixaram de poder ser nomeados para cargos honoríficos, possuir escravos cristãos (que a longo prazo significava perder a possibilidade de ter terras), a própria liberdade de culto.
segunda-feira, fevereiro 09, 2004
sexta-feira, fevereiro 06, 2004
terça-feira, fevereiro 03, 2004
segunda-feira, fevereiro 02, 2004
Algumas evoluções do exército romano-III
No séc. II, com a paz e certa prosperidade, os italianos apenas querem ficar na guarda pretoriana (onde usufruem de um soldo mais elevado, prestígio de servir directamente o imperador, e claro poder), e as coortes urbanas, onde gozam as delícias da vida em Itália sem se aborrecer com a guerra. Os legionários são todos colonos. Mas um fenómeno importante começa a impor-se: os soldados que foram desmobilizados numa zona, casaram e ficaram aí a viver e os seus filhos alistam-se mas pretendem servir nessa zona, e não serem colocados noutra terras distante. Ou seja, as legiões de unidade móveis começam a tornar-se fixas, quase guarnições. Este fenómeno do recrutamento e defesa local, só ficaria completo com as reformas no séc. IV entre a divisão entre um exército estacionário e um móvel. Outro elemento, é o progressivo alistamento de cidadãos nas unidades auxiliares (porque os filhos de pais que tinham adquirido a cidadania pretendiam servir nessa unidade e não queriam ir para outro local). As unidades auxiliares vem as suas tropas perderem agressividade na medida em que as zonas que tinham sido anteriormente bárbaras (península ibérica, Gália), estavam a romanizar-se e a ficar mais civilizadas com os progressos da pax romana; vão-se esbater assim as diferenças com as legiões. De qualquer modo mantém-se sempre unidades mais flexíveis (para combate de escaramuça contra salteadores bárbaros), devido ao tipo de função que lhes é exigido. No séc. III devido às dificuldades de recrutamento, é estendida a cidadania a todos os homens livres, o recrutamento fica facilitado, mas vemos, que o critério deixa de ser a qualidade para ser a quantidade. Quanto às tropas auxiliares, vão lentamente ser preenchidas com bárbaros, até que no séc. IV elas detêm o seu quase monopólio com as auxilia palatinae, tornando-se a tropa de escol do império, em detrimento das legiões (é certo que treinadas e equipadas à romana).
quinta-feira, janeiro 29, 2004
Vermeer
Hoje decidi fazer um breve intervalo sobre as questões militares do Alto Império Romano e divulgar este site do meu pintor favorito Vermeer, usando como pretexto o facto de um filme sobre ele ter sido nomeado para os óscares. Pintava cenas aparentemente do quotidiano (uma jovem burguesa a ler uma carta- embora isso diga bastante sobre o grau de alfabetização dos países paixos no séc. XVII comparado com Portugal), uma criada a conversar, ou paisagens; no entanto, normalmente existia uma forte carga simbólica (a leitura da carta continha elementos diferentes consoante fosse do marido ou de um amante, etc), que se torna por vezes de difícil compreensão. Mas são quadros belíssimos de qualquer modo.
quarta-feira, janeiro 28, 2004
Algumas evoluções do exército romano-II
Claro que por vezes havia excepções e em situação de emergência recrutava-se quem estava disponível; como exemplo, Marco Aurélio recrutou duas legiões em Itália depois de um desastre porque precisava de tropas urgentemente; por vezes as unidades eram literalmente “arrebanhadas” num local da fronteira sem se preocupar com os elevados graus de exigência habituais. Marco Aurélio numa situação de aflição, chegou ao ponto de comprar escravos e gladiadores e pô-los a combater; essa tradição já vinha da república. Normalmente o prémio era a liberdade e a cidadania para os sobreviventes.
Quando chegamos ao reinado de Nero (assassinado em 69 DC), só metade dos legionários era originária de Itália; a outra metade era já constituída por
Colonos, pois pela amostra da onomástica que sobreviveu, vê-se que a maioria eram mesmo descendentes de oriundos de Itália. Como é que se vê isso? Bem, quando um auxiliar era desmobilizado e adquiria a cidadania, ele adoptava o nome do imperador da época para nome de família (ou do governador por vezes) e esse nome passava para os seus descendentes. Como muitos tinham o hábito de colocar nos seus túmulos uma estela com o seu nome, e breve descrição de vida (de onde vieram, anos de serviço, condecorações), os arqueólogos adquirem muita informação estatística sobre esses soldados. E consegue-se detectar há quanto tempo uma família é cidadã pelo nome imperial que tiver; se tiver um nome vulgar, é porque provavelmente são descendentes de uma família italiana comum que emigrou. Assim se consegue ver que no séc. I e II os soldados são a princípio maioritariamente italianos, depois descendentes a viver em colónias e finalmente soldados romanizados. Vemos também que o ocidente era aquele que fornecia mais soldados habitualmente (é normal, era mais pobre e considerado selvagem), vindo a princípio da Ibéria, Africa e Gália, muito pouco da Bretanha; depois a Ilíria e Dalmácia começam a fornecer soldados em abundância. No oriente, o Egipto sempre forneceu os seus soldados para defesa estritamente local (contra beduínos). As outras províncias forneciam soldados para as várias províncias. Infelizmente o número de elementos que sobreviveu é parcelar e tem de ser visto com muitas cautelas (até que ponto, alguns milhares de estelas sobreviventes são significativos? O caso das tropas é Africa e Egipto é bem conhecido devido à excelente conservação de registos devido ao clima). De qualquer modo, a arqueologia permitiu responder a questões que não passavam de debate teórico no séc. XIX por os textos clássicos não se preocuparem com esses assuntos.
Quando chegamos ao reinado de Nero (assassinado em 69 DC), só metade dos legionários era originária de Itália; a outra metade era já constituída por
Colonos, pois pela amostra da onomástica que sobreviveu, vê-se que a maioria eram mesmo descendentes de oriundos de Itália. Como é que se vê isso? Bem, quando um auxiliar era desmobilizado e adquiria a cidadania, ele adoptava o nome do imperador da época para nome de família (ou do governador por vezes) e esse nome passava para os seus descendentes. Como muitos tinham o hábito de colocar nos seus túmulos uma estela com o seu nome, e breve descrição de vida (de onde vieram, anos de serviço, condecorações), os arqueólogos adquirem muita informação estatística sobre esses soldados. E consegue-se detectar há quanto tempo uma família é cidadã pelo nome imperial que tiver; se tiver um nome vulgar, é porque provavelmente são descendentes de uma família italiana comum que emigrou. Assim se consegue ver que no séc. I e II os soldados são a princípio maioritariamente italianos, depois descendentes a viver em colónias e finalmente soldados romanizados. Vemos também que o ocidente era aquele que fornecia mais soldados habitualmente (é normal, era mais pobre e considerado selvagem), vindo a princípio da Ibéria, Africa e Gália, muito pouco da Bretanha; depois a Ilíria e Dalmácia começam a fornecer soldados em abundância. No oriente, o Egipto sempre forneceu os seus soldados para defesa estritamente local (contra beduínos). As outras províncias forneciam soldados para as várias províncias. Infelizmente o número de elementos que sobreviveu é parcelar e tem de ser visto com muitas cautelas (até que ponto, alguns milhares de estelas sobreviventes são significativos? O caso das tropas é Africa e Egipto é bem conhecido devido à excelente conservação de registos devido ao clima). De qualquer modo, a arqueologia permitiu responder a questões que não passavam de debate teórico no séc. XIX por os textos clássicos não se preocuparem com esses assuntos.
terça-feira, janeiro 27, 2004
Algumas evoluções do exército romano
O exército de Augusto (faleceu em 14 d.C.), era com algumas excepções de origem italiana. Eram proletários descendentes de pequenos proprietários que tinham ficado arruinados devido por um lado à concorrência dos produtos agrícolas mais baratos dos territórios conquistados (que usavam mão-de-obra escrava) e por outro as guerras com o seu contínuo recrutamento de trabalhadores que desorganizava a produção. Dera-se assim uma concentração nas mãos de alguns grandes proprietários. Esses soldados sem outro objectivo além de enriquecer com as pilhagens e a atribuição de uma terra terminado o seu período de serviço (uma vintena de anos), eram bastante voláteis na sua fidelidade.
Essas tropas iriam ser bastante importantes (como se aprende já na escola primária) no processo de romanização. Iriam ser libertadas do seu serviço numa colónia distante (Península Ibérica, Gália, Africa), recebendo uma propriedade e divulgando o seu latim. De seguida um ou mais filhos iriam seguir as pisadas do pai ingressando no exército (normalmente por tradição familiar, embora razões económicas pesassem também; a documentação ainda é muito escassa nas motivações), sendo assim filhos de cidadãos romanos de origem italiana, mas já não italianos, eles próprios. Mas este não seria o único grupo de cidadão a entrar no exército. Com Augusto surge o hábito de organizar as unidades auxiliares compostas por não cidadãos (normalmente os recrutas eram de zonas relativamente bárbaras e mais bélicas) e organizá-las de forma semelhante às legiões; para recompensa-los de um bom serviço, é-lhes concedido por vezes a nacionalidade romana terminado o período de alistamento, hábito que umas décadas depois se iria tornar prática obrigatória. Ora esses soldados iriam também ser importantes na divulgação da romanização, já que divulgariam o latim aprendido no exército; os seus filhos seguiriam também para o exército, mas como legionários, já que eram filhos de cidadãos. Todos eles deviam saber pelo menos ler, falar latim que se compreendesse, obedecer a uns requisitos mínimos físicos, não terem qualquer condenação por crime; podemos ver que o grau de exigência era elevado. Era possível (quando era feito o recrutamento obrigatório), pagar a alguém que efectuasse o serviço com o substituto, desde que ele fosse considerado elegível; se um escravo fosse escolhido, as penas eram severas. Existia uma preocupação de manter um exército de qualidade.
Essas tropas iriam ser bastante importantes (como se aprende já na escola primária) no processo de romanização. Iriam ser libertadas do seu serviço numa colónia distante (Península Ibérica, Gália, Africa), recebendo uma propriedade e divulgando o seu latim. De seguida um ou mais filhos iriam seguir as pisadas do pai ingressando no exército (normalmente por tradição familiar, embora razões económicas pesassem também; a documentação ainda é muito escassa nas motivações), sendo assim filhos de cidadãos romanos de origem italiana, mas já não italianos, eles próprios. Mas este não seria o único grupo de cidadão a entrar no exército. Com Augusto surge o hábito de organizar as unidades auxiliares compostas por não cidadãos (normalmente os recrutas eram de zonas relativamente bárbaras e mais bélicas) e organizá-las de forma semelhante às legiões; para recompensa-los de um bom serviço, é-lhes concedido por vezes a nacionalidade romana terminado o período de alistamento, hábito que umas décadas depois se iria tornar prática obrigatória. Ora esses soldados iriam também ser importantes na divulgação da romanização, já que divulgariam o latim aprendido no exército; os seus filhos seguiriam também para o exército, mas como legionários, já que eram filhos de cidadãos. Todos eles deviam saber pelo menos ler, falar latim que se compreendesse, obedecer a uns requisitos mínimos físicos, não terem qualquer condenação por crime; podemos ver que o grau de exigência era elevado. Era possível (quando era feito o recrutamento obrigatório), pagar a alguém que efectuasse o serviço com o substituto, desde que ele fosse considerado elegível; se um escravo fosse escolhido, as penas eram severas. Existia uma preocupação de manter um exército de qualidade.
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