É preciso não esquecer, que os Taira (tal como os seus rivais, os Minamoto) eram de descendência imperial (com uns 300 anos) só que tinham-se ruralizado, perdendo assim toda a possibilidade de reclamar fosse o que fosse aos olhos dos Fujiwara e outros clãs cortesãos.
Casaram membros seus com membros da família imperial (o imperador Antoku seria filho de uma Taira).
De forma completamente diferente agiram os Minamoto: estes não quiseram saber dos cargos imperiais, bastando-lhes o domínio das armas, deixando os cargos que se tinham esvaziado de funções para os cortesãos. Este é já a sociedade dos filmes de Akira Kurosawa.
Uma curiosidade: no livro aparece a referência a um Ashikaga (clã que dominou o shogunato do séc. XIV a XVI): a personagem terá mesmo existido ou será que foi colocada no poema para agradar aos senhores do séc. XIV?
Já agora, fiquem a saber que os Heike eram os Taira (daí o nome das guerra Gempei entre os Genji- Minamoto e os Heike- Taira. Confuso?
È dada enorme importância à cultura chinesa, e cada vez que se planeia uma mudança contra as tradições, é apresentado um exemplo da história chinesa (por vezes da japonesa também). E temos de ser justos: embora a visão do mundo seja reaccionária, o poema não começa a denegrir sistematicamente os que são criticados e eles apresentam os seus motivos que são perfeitamente válidos e não caricaturas. Se os Taira caem devido aos seus pecados (subiram mais do que deviam graças à bondade imperial- e aí o poema “esquece” a força das armas- abusaram da sua posição e apesar da bondade de alguns membros como Shigemori, estão destinados a ser destruídos pelos deuses pois tal é o Karma).
Não é uma epopeia guerreira: embora sejam descritas batalhas, não é feito o recitar interminável de espadeiradas e feridas como no Beowulf ou a Ilíada; mais depressa se descreve a roupa de um general. É um poema que tinha que agradar a vários públicos e não apenas a samurais. O estilo aliás é mais de uma crónica.
Ainda só li uma parte do livro, mas quando descobrir mais coisas interessantes, posto-as.
terça-feira, janeiro 13, 2004
sexta-feira, janeiro 09, 2004
Heike Monogatari-II
A sociedade descrita no poema é profundamente complexa dadas as mutações que se estão a dar (a acção decorre na segunda metade do séc. XII embora sejam feitas referências a acontecimentos anteriores). O poema é em si reaccionário, pois não vê com bons olhos a tomada do poder pelos samurais, que vão perturbar o equilíbrio imemorial (vê-se assim que é um mundo muito diferente daquele que é descrito nos filmes de samurais, em que os guerreiros e os seus valores são o centro da sociedade). Os cortesãos monopolizavam os cargos e obtinham-nos pelas suas ligações familiares acrescido de redes de amizade (detentores de cargos, familiares imperiais, imperadores, imperadores retirados- pois era hábito ao fim de alguns anos estes abdicarem para se livrarem da rigidez da etiqueta, adquirindo maior liberdade de movimentos), ou pela sua mestria em artes importantes como o domínio da etiqueta, a caligrafia, a interpretação de um instrumento ou recitação de poesia. Uma vez obtido o cargo (digamos de ministro, ou governador) e recebendo-se os rendimentos, era nomeado um adjunto que exercia efectivamente o cargo e que tinha a trabalheira de se deslocar e governar. Como a hereditariedade era fundamental para se obter um cargo (embora as intrigas determinassem quem obtinha o quê), os “Busho” (guerreiros) provinciais estavam completamente sem hipótese de ascender mesmo que se deslocassem à capital, por não terem antepassados gloriosos, ficando sempre reduzidos a combater por ordens superiores. Esta é a sociedade considerada ideal pelo poema (várias vezes é lamentada a sorte de um cortesão ministro que é destituído e exilado por ter conspirado contra os Taira, apesar de ser um excelente tocador de flauta ou algo do género sendo substituído por um Taira que apenas se dedica ao cargo e a combater). Ora o ponto de vista destes era diferente do habitual: se alguém beneficiava do seu apoio, devia ser totalmente devotado e não devia andar a mudar de fidelidade; se o fizesse era um traidor. Lógica simples, pragmática, mas que caiu mal nos meios cortesãos, habituados a intrigas subtis. Os Taira rapidamente adquiriram os cargos-chave, apoiando-se na sua clientela militar, mas também se preocuparam em adquirir cargos de importância simbólica (ministro da direita, da esquerda, capitão de 1º, 2º, 3º grau, etc).
quinta-feira, janeiro 08, 2004
Guerra Peninsular
Soube aqui que foram descobertos em Arapiles, Espanha, restos mortais de soldados que combateram num dos mais importantes confrontos da Guerra Peninsular - a batalha de Salamanca. Para quem não sabe, a designação "Guerra Peninsular" cobre a guerra sem quartel que opôs os exércitos de Napoleão Bonaparte às tropas anglo-portuguesas comandadas por Arthur Wellesley, mais conhecido por duque de Wellington. As nossas "Invasões Francesas" foram apenas uma parte (muito importante, é certo) de um conflito mais vasto que envolveu toda a península. A Guerra Peninsular, por seu lado, é também apenas uma parte (mais uma vez, muito importante) das Guerras Napoleónicas.
Na Grã-Bretanha há um verdadeiro culto do estudo da participação britânica neste conflito. Todos os anos, milhares de ingleses visitam Waterloo, na Bélgica, o local onde se deu a batalha final que ditou a derrota de Napoleão. A Guerra Peninsular e as Invasões Francesas de Portugal são também muito estudadas, porque é nos campos de batalha portugueses que Wellington começa a mostrar o seu génio militar. Muitos ingleses vêm a Portugal propositadamente para conhecer as Linhas de Torres Vedras, os campos da Roliça e Vimeiro e o Buçaco.
Em Arapiles talvez ainda se vá a tempo de salvar aquela parte do campo de batalha. Aqui em Portugal, infelizmente, já não há muito para destruir, porque quase tudo já foi destruído há muito tempo. Isto, aliás, só reflecte o interesse que esta parte da nossa história tem despertado - quase nenhum. O Exército, com os seus escassos meios, ainda tem feito alguma coisa para preservar aquilo que tem a ser cargo: edifícios e alguns campos de batalha que ainda estão dentro de áreas militares. Os historiadores, cegos pelos preconceitos da cartilha da Nova História, que considerava a História Militar como um género menor, devotaram um desprezo quase total a este tema, à documentação e, pior, ao património.
Nos últimos anos a situação começou a melhorar, mas o número de trabalhos sobre as Invasões é ainda muito pequeno. Espero que a publicação da «Nova História Militar» do Círculo de Leitores, que agora se iniciou, dê um grande contributo para trazer novos interessados para este capítulo tão importante da História de Portugal. Em 2007 vai-se celebrar o segundo centenário da primeira invasão francesa (comandada pelo general Junot), e sei que já há planos para assinalar o acontecimento. O Instituto de Defesa Nacional e a Comissão Portuguesa de História Militar têm gente a trabalhar nesse projecto. Gostava, pelo menos, de ver concretizados os planos de recuperação e aproveitamento das Linhas de Torres Vedras, um dos maiores conjuntos mundiais de fortificações. Gostava também de ver publicados alguns trabalhos de autores portugueses; à falta disso, ao menos que se editem algumas das excelentes obras britânicas que já existem - a começar pela monumental «History of the Peninsular War" de Sir Charles Oman. Já não era pouco...
sábado, janeiro 03, 2004
Era Atómica
O aparecimento das armas nucleares foi um acontecimento transcedente em muitos aspectos. Para além dos meramente militares (como é que se ganha uma guerra atómica?), ou dos filosóficos e éticos (será que há alguma coisa que justifique desencadear-se uma guerra em que não há hipóteses de vitória, nem sequer de sobrevivência?), havia outros mais burocráticos, mas nem por isso menos vitais, que ocuparam a cabeça de muita gente, durante muito tempo.
É assim que, enquanto uns tentavam criar estratégias vencedoras (tarefa felizmente inglória, como sabemos), outros, no Ocidente, proclamavam alegremente que «Better red than dead» («mais vale ser comuna vivo, do que capitalista morto»), e outros ainda preocupavam-se em saber quem mandaria nas coisas se o pior acontecesse.
Ora, nos anos quarenta e cinquenta, ninguém dos dois lados da Cortina de Ferro sabia muito bem o que andava a fazer relativamente a estes assuntos. Pela primeira vez na História havia a possibilidade muito real da Humanidade se aniquilar a si própria e, portanto, estava-se a entrar em território desconhecido. Por outras palavras, não havia livros de instruções para nada disto, e por isso tinha-se que ir inventando à medida que se ia avançando (se é que lhe podemos chamar isso...).
Os sistemas de aviso prévio (radares) eram ainda rudimentares e as infra-estruturas de protecção dos sistemas de governo e respectivos titulares eram pouco fiáveis. Em caso de ataque nuclear era bem provável que o governo norte-americano, ou o soviético, não soubessem atempadamente o que se estava a passar. Todos os principais governantes poderiam muito bem morrer nos primeiros minutos da guerra.
Daí que a administração do presidente Dwight Eisenhower (1952-60) tenha tomado uma atitude que nos pode parecer estranha, mas que, no contexto da época, talvez fizesse algum sentido. Foram enviadas cartas a vários líderes económicos e sociais, espalhados um pouco por todos os Estados Unidos, dando-lhes poderes para administrar várias áreas de actividade do país, caso um ataque nuclear incapacitasse o governo.
Repare-se, nenhum destas figuras tinha sido designada através de qualquer procedimento trasparente estabelecido previamente para isto. Tratou-se apenas de uma decisão arbitrária de Eisenhower. Depois, já durante a administração Kennedy, percebeu-se que as coisas não podiam funcionar assim, e tratou-se de revogar as cartas enviadas por Ike. O documento que nos mostra isso está aqui.
É facil, em retrospectiva, olhar para as cartas como uma manifestação maligna de um qualquer Dr. Estranhoamor. Para mim, só mostra que tempos perigosos obrigam a decisões muito difíceis, em que prevalece a lei do mal menor. Algo muito difícil de entender nos dias de hoje, e que leva a que os Homens de Estado sejam cada vez mais raros.
É assim que, enquanto uns tentavam criar estratégias vencedoras (tarefa felizmente inglória, como sabemos), outros, no Ocidente, proclamavam alegremente que «Better red than dead» («mais vale ser comuna vivo, do que capitalista morto»), e outros ainda preocupavam-se em saber quem mandaria nas coisas se o pior acontecesse.
Ora, nos anos quarenta e cinquenta, ninguém dos dois lados da Cortina de Ferro sabia muito bem o que andava a fazer relativamente a estes assuntos. Pela primeira vez na História havia a possibilidade muito real da Humanidade se aniquilar a si própria e, portanto, estava-se a entrar em território desconhecido. Por outras palavras, não havia livros de instruções para nada disto, e por isso tinha-se que ir inventando à medida que se ia avançando (se é que lhe podemos chamar isso...).
Os sistemas de aviso prévio (radares) eram ainda rudimentares e as infra-estruturas de protecção dos sistemas de governo e respectivos titulares eram pouco fiáveis. Em caso de ataque nuclear era bem provável que o governo norte-americano, ou o soviético, não soubessem atempadamente o que se estava a passar. Todos os principais governantes poderiam muito bem morrer nos primeiros minutos da guerra.
Daí que a administração do presidente Dwight Eisenhower (1952-60) tenha tomado uma atitude que nos pode parecer estranha, mas que, no contexto da época, talvez fizesse algum sentido. Foram enviadas cartas a vários líderes económicos e sociais, espalhados um pouco por todos os Estados Unidos, dando-lhes poderes para administrar várias áreas de actividade do país, caso um ataque nuclear incapacitasse o governo.
Repare-se, nenhum destas figuras tinha sido designada através de qualquer procedimento trasparente estabelecido previamente para isto. Tratou-se apenas de uma decisão arbitrária de Eisenhower. Depois, já durante a administração Kennedy, percebeu-se que as coisas não podiam funcionar assim, e tratou-se de revogar as cartas enviadas por Ike. O documento que nos mostra isso está aqui.
É facil, em retrospectiva, olhar para as cartas como uma manifestação maligna de um qualquer Dr. Estranhoamor. Para mim, só mostra que tempos perigosos obrigam a decisões muito difíceis, em que prevalece a lei do mal menor. Algo muito difícil de entender nos dias de hoje, e que leva a que os Homens de Estado sejam cada vez mais raros.
segunda-feira, dezembro 29, 2003
Heike Monogatari-I
Recebi este natal, o livro “Heike Monogatari” (ou a epopeia dos Heike, traduzido de forma muito aproximada). Já tinha abordado o conflito dos Taira e Minamoto por isso vou concentrar-me mais no poema em si e na visão do mundo que ele nos dá.
Ao longo do séc. XIII foram surgindo poemas sobre o assunto: a ascensão e queda de uma família que detivera tanto poder era um tema bem apetecível. Artistas itinerantes cantavam e declamavam, espalhando-se as estórias. Foi-se criando um verdadeiro ciclo, até que no séc. XIV foi compilado uma versão do que seria considerada a versão canónica do tema (um pouco como sucedeu com as lendas arturianas), embora numerosos episódios fossem deixados à margem. Formaram-se duas escolas de interpretação do tema em mosteiros (uma delas sobreviveu até aos nossos dias), sendo os intérpretes normalmente cegos. A forma de interpretar era a seguinte: era tocado um tema com o Biwa (instrumento vagamente semelhante ao alaúde) e depois cantava os versos apropriados. Tenho um cd e para ser franco não gosto na sonoridade que me parece demasiado estilizada (mesmo em relação ao Kabuki e ao Noh, que aliás o suplantaram no gosto dos públicos respectivamente popular e aristocrático). Ainda no princípio do séc. XX o Imperador Meiji gostava de ouvir esse repertório.
Ao longo do séc. XIII foram surgindo poemas sobre o assunto: a ascensão e queda de uma família que detivera tanto poder era um tema bem apetecível. Artistas itinerantes cantavam e declamavam, espalhando-se as estórias. Foi-se criando um verdadeiro ciclo, até que no séc. XIV foi compilado uma versão do que seria considerada a versão canónica do tema (um pouco como sucedeu com as lendas arturianas), embora numerosos episódios fossem deixados à margem. Formaram-se duas escolas de interpretação do tema em mosteiros (uma delas sobreviveu até aos nossos dias), sendo os intérpretes normalmente cegos. A forma de interpretar era a seguinte: era tocado um tema com o Biwa (instrumento vagamente semelhante ao alaúde) e depois cantava os versos apropriados. Tenho um cd e para ser franco não gosto na sonoridade que me parece demasiado estilizada (mesmo em relação ao Kabuki e ao Noh, que aliás o suplantaram no gosto dos públicos respectivamente popular e aristocrático). Ainda no princípio do séc. XX o Imperador Meiji gostava de ouvir esse repertório.
sábado, dezembro 20, 2003
A Galiza Celta
Temos conhecimento dos celtas através dos seus adversários: os gregos (Heródoto e Estrabão) e sobretudo pelos romanos (Avieno, Mela), todos eles membros da mesma cultura mediterrânica, que depreciava outras formas devida que não a que os rodeavam, chamando-lhe barbarum (literalmente, "que não fala", "que balbuceia"). Rechaçavam, portanto, uma cultura procedente das margens do Mar Cáspio e montanhas do Cáucaso, que se instalou primeiro na Europa Central, sendo posteriormente empurrada pelas tribos germânicas para a orla da costa atlântica: Bretanha, Ilhas Britânicas, Gália e Ibéria (costa Cantábrica e Galiza), por volta do ano 600 a. C.
Os celtas careciam de chefes e de um poder central, sendo o conceito de Estado desconhecido para eles. Na verdade, o mundo celta estava dividido numa miríade de pequenos grupos de dez a quarenta famílias unidas por laços de parentesco e independentes umas das outras. Residiam em povoamentos fortificados a que os arqueólogos chamam Citânias e a tradição popular galega Castros e Cróas. Eram recintos de forma circular ou oval, rodeados de parapeitos concêntricos, terraplanados ou muralhas de terra ou pedra, geralemnte construídas no alto de montes de difícil acesso e bem protegidos. A sua construção formava uma espirar desde o solo até ao cume, dando voltas ao redor da colina onde se encontravam, terminando numa plataforma circular. Desde as suas atalaias controlavam as culturas, os rebanhos, as explorações mineiras, e davam o alarme em caso de serem atacados. Estes pequenos povoados salpicavam todo o território ( só na Galiza foram contabilizados 3.000 castros), e de tempos a tempos guerreavam entre si, se bem que não entendiam a guerra como uma conquista, mas sim uma incursão em busca de saque: ataques rápidos, apanhar o que podia (na maioria cabeças de gado) e regressar ao povoamento antes do adversário reagir.
Para além da Agricultura e da Pecuária, conheciam os rudimentos da Metalurgia, formando armas de ferro que os ajudaram a impor-se sobre os seus vizinhos. Também levantaram monumentos de pedra, com fins religiosos e/ou funerários: os Dólmens (chamados na Galiza Arquetas), os Túmulos (Mamoas) e os Menires (Pedras Fitas).
Eram grandes comerciantes e fabricavam embarcações com peles, com as quais se aventuravam para longe da cosnta.
As práticas religiosas eram levadas a cabo pelos Druídas (Sacerdotes, Juízes, Profetas, Astrónomos, Astrólogos, Médicos, Filósofos, Políticos...), não sendo em vão que o seu nome signifique Homens Sábios ou Mestres de Sabedoria ( os entendidos não chegam a acordo na tradução exacta de Druída. Pessoas com mais poder que os chefes de clã, que não podiam falar na sua presença e que deviam consultá-los antes de tomar uma decisão.
Certos aspectos da cultura celta faziam-nos particularemnte ingratos aos olhos dos seus "civilizados" vizinhos do sul: realizavam sacrifícios humanos aos seus deuses, cortavam a cabeça dos seus inimigos, e combatiam trajando somente os seus torques e seus longos cabelos, preferindo a morte à derrota. Deles dirá Estrabão com desprezo, que tinham "...insensibilidade animal".
Consideravam uma honra morrer no campo de batalha, e os corpos dos caídos eram deixados no campo de batalha como alimento para os animais necrófagos, especialmente as aves, que levarám a sua alma para o Paraíso...
Os celtas careciam de chefes e de um poder central, sendo o conceito de Estado desconhecido para eles. Na verdade, o mundo celta estava dividido numa miríade de pequenos grupos de dez a quarenta famílias unidas por laços de parentesco e independentes umas das outras. Residiam em povoamentos fortificados a que os arqueólogos chamam Citânias e a tradição popular galega Castros e Cróas. Eram recintos de forma circular ou oval, rodeados de parapeitos concêntricos, terraplanados ou muralhas de terra ou pedra, geralemnte construídas no alto de montes de difícil acesso e bem protegidos. A sua construção formava uma espirar desde o solo até ao cume, dando voltas ao redor da colina onde se encontravam, terminando numa plataforma circular. Desde as suas atalaias controlavam as culturas, os rebanhos, as explorações mineiras, e davam o alarme em caso de serem atacados. Estes pequenos povoados salpicavam todo o território ( só na Galiza foram contabilizados 3.000 castros), e de tempos a tempos guerreavam entre si, se bem que não entendiam a guerra como uma conquista, mas sim uma incursão em busca de saque: ataques rápidos, apanhar o que podia (na maioria cabeças de gado) e regressar ao povoamento antes do adversário reagir.
Para além da Agricultura e da Pecuária, conheciam os rudimentos da Metalurgia, formando armas de ferro que os ajudaram a impor-se sobre os seus vizinhos. Também levantaram monumentos de pedra, com fins religiosos e/ou funerários: os Dólmens (chamados na Galiza Arquetas), os Túmulos (Mamoas) e os Menires (Pedras Fitas).
Eram grandes comerciantes e fabricavam embarcações com peles, com as quais se aventuravam para longe da cosnta.
As práticas religiosas eram levadas a cabo pelos Druídas (Sacerdotes, Juízes, Profetas, Astrónomos, Astrólogos, Médicos, Filósofos, Políticos...), não sendo em vão que o seu nome signifique Homens Sábios ou Mestres de Sabedoria ( os entendidos não chegam a acordo na tradução exacta de Druída. Pessoas com mais poder que os chefes de clã, que não podiam falar na sua presença e que deviam consultá-los antes de tomar uma decisão.
Certos aspectos da cultura celta faziam-nos particularemnte ingratos aos olhos dos seus "civilizados" vizinhos do sul: realizavam sacrifícios humanos aos seus deuses, cortavam a cabeça dos seus inimigos, e combatiam trajando somente os seus torques e seus longos cabelos, preferindo a morte à derrota. Deles dirá Estrabão com desprezo, que tinham "...insensibilidade animal".
Consideravam uma honra morrer no campo de batalha, e os corpos dos caídos eram deixados no campo de batalha como alimento para os animais necrófagos, especialmente as aves, que levarám a sua alma para o Paraíso...
sexta-feira, dezembro 19, 2003
Madame de Pompadour-III
Mas como estava a dizer, a pobre Pompadour foi considerada responsável por estas derrotas: o que era uma guerra vital para a França era visto como um capricho de mulher que queria exibir-se. O facto de serem amigos seus os responsáveis pela condução da política só piorava as coisas (em Inglaterra, como o regime era parlamentar e eleito- mesmo que fossem umas eleições muito estranhas com os “burgos podres”, -existia uma maior legitimidade a toda a política do governo).
Os serões que organizava para distrair o rei eram (relativamente) simples: pouco mais que uma dezena de amigos íntimos do rei e da marquesa, e um punhado de pessoas que conseguia com enormes intrigas ser admitido a esses serões para mostrar o favor régio. Ceava-se à lareira com mínimo cerimonial e etiqueta (por vezes o próprio rei servia um convidado e via-se duques de pé perante nobres plebeus), num ambiente (relativamente) descontraído, lia-se, cantava-se. Chegou-se mesmo a representar peças de teatro numa parte do palácio que foi alterado para o efeito, (e aí as disputas eram terríveis para se ser admitido na companhia ou num determinado papel). Esse teatro acabou por ser interrompido pelo rei por ficar muito caro (guarda-roupas, cenários, etc.) e pelas intrigas que eram criadas. Tudo isso era feito, depois das cerimónias normais da corte de modo que se prolongava pela noite dentro.
A família real auto-excluía-se deste círculo para mostrar a sua desaprovação para com a favorita, e nem sequer reconhecia a sua existência, mas acabaram por algum modo por transigir dado ela ter feito tudo para lhes agradar (pagava dívidas à rainha, arranjava cargos para os seus amigos) e afinal as anteriores favoritas tinham sido bem mais antipáticas.
Amiga de Voltaire e do círculo de filósofos, favoreceu a princípio os enciclopedistas. Mais tarde, com as suas responsabilidades políticas acrescidas e afastou-se desse grupo (sem nunca romper abertamente com eles), mas o partido devoto nunca lhe perdoou (que já a detestava pela função que ocupava), e acusou-a de ser em parte responsável pela expulsão dos Jesuítas.
Morreu com 43 anos, tuberculosa, em 1764 (já tinha deixado a função de Favorita por uma década, por não ter saúde nem beleza e dedicou-se a ajudar o real amante na governação- isso faz-nos pensar sobre quais os trabalhos mais difíceis).
Já agora, como não vou ter acesso a computador para a semana que vem, venho desejar a todos os leitores do Tempore um Feliz Natal!
Os serões que organizava para distrair o rei eram (relativamente) simples: pouco mais que uma dezena de amigos íntimos do rei e da marquesa, e um punhado de pessoas que conseguia com enormes intrigas ser admitido a esses serões para mostrar o favor régio. Ceava-se à lareira com mínimo cerimonial e etiqueta (por vezes o próprio rei servia um convidado e via-se duques de pé perante nobres plebeus), num ambiente (relativamente) descontraído, lia-se, cantava-se. Chegou-se mesmo a representar peças de teatro numa parte do palácio que foi alterado para o efeito, (e aí as disputas eram terríveis para se ser admitido na companhia ou num determinado papel). Esse teatro acabou por ser interrompido pelo rei por ficar muito caro (guarda-roupas, cenários, etc.) e pelas intrigas que eram criadas. Tudo isso era feito, depois das cerimónias normais da corte de modo que se prolongava pela noite dentro.
A família real auto-excluía-se deste círculo para mostrar a sua desaprovação para com a favorita, e nem sequer reconhecia a sua existência, mas acabaram por algum modo por transigir dado ela ter feito tudo para lhes agradar (pagava dívidas à rainha, arranjava cargos para os seus amigos) e afinal as anteriores favoritas tinham sido bem mais antipáticas.
Amiga de Voltaire e do círculo de filósofos, favoreceu a princípio os enciclopedistas. Mais tarde, com as suas responsabilidades políticas acrescidas e afastou-se desse grupo (sem nunca romper abertamente com eles), mas o partido devoto nunca lhe perdoou (que já a detestava pela função que ocupava), e acusou-a de ser em parte responsável pela expulsão dos Jesuítas.
Morreu com 43 anos, tuberculosa, em 1764 (já tinha deixado a função de Favorita por uma década, por não ter saúde nem beleza e dedicou-se a ajudar o real amante na governação- isso faz-nos pensar sobre quais os trabalhos mais difíceis).
Já agora, como não vou ter acesso a computador para a semana que vem, venho desejar a todos os leitores do Tempore um Feliz Natal!
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