Os europeus não lhe dão muita importância, mas o que é facto é que ela foi, muito provavelmente, um dos acontecimentos seminais da Idade Contemporânea.
Resolvida a guerra, resolvida a questão da escravatura que dilacerava os EUA desde a fundação, o país ficou finalmente livre para se tornar naquilo que é hoje: a hiperpotência mundial, a nova Roma do século XXI.
Com a vitória da União, todas as atenções e energias que se tinham concentrado no grande problema interno, puderam, finalmente, desviar-se para o palco mundial. É claro que o problema dos antigos escravos não ficou totalmente resolvido. Os negros só tiveram igualdade total perante a lei (escrita) em meados do século XX, e o racismo continua a ser um dos principais cancros da sociedade americana.
Em 1898, 23 anos depois do fim da guerra civil (um mero piscar de olhos em termos históricos), os Estados Unidos devoram o império espanhol de uma assentada. Cuba e Filipinas caiem como fruta madura. Os «Rough Riders” de Teddy Roosevelt carregam sobre os espanhóis na colina de San Juan, e com eles levam as aspirações presidenciais do seu líder. Roosevelt não esconde que quer para a América um papel no mundo digno da sua cada vez maior riqueza material.
Para trás (muito para trás) tinham ficado quatro anos de luta feroz, mas que, no final, não dividiram nada nem ninguém.
Em 1898, a (re)União estava já tão sólida, que o exército dos Estados Unidos pôde dar-se ao luxo de ter nas suas fileiras um general que tinha servido distintamente a Confederação.
O general Joe Wheeler terá mesmo, no calor da batalha, viajado no tempo e no espaço: «Vá lá rapazes», terá ele incitado, «dêem cabo desses yankees!» Quando os seus ajudantes o avisaram, entre risotas, daquilo que tinha acabado dizer, Wheeler limitou-se a sorrir e a desculpar-se: «Ora, só me esqueci por um momento. Todos vocês sabem que eu queria dizer “espanhóis”. Agora eu também sou um yankee que veste o uniforme e segue a velha bandeira do país onde Yankee (Norte) e Dixie (Sul) são as mesmas palavras para toda a terra».
R.S.
segunda-feira, setembro 29, 2003
quinta-feira, setembro 25, 2003
Sibéria- II
Apesar do se sentirem superiores relativamente aos nativos, os cossacos rapidamente aprenderam que lhes sairia muito caro desprezar toda a experiência acumulada pelos siberianos ao longo de gerações.
(Imagine-se que seria (sobre)viver na Sibéria há trezentos, quatrocentos anos...)
Um dos aspectos onde eles rapidamente adoptaram os costumes locais foi na alimentação, e pelo que chegou até aos nossos dias da culinária local há mesmo que lhes tirar o chapéu.
Os ostyaques e voguls bebiam o sangue das renas fresquinho; quando tal não era possível, aproveitavam-no para fazer panquecas ou para engrossar a sopa. O peixe geralmente era comido cru, e para acompanhar bebia-se seiva de bétula. Os quirguizes, buriates e yakutes adoravam kumis - nada mais, nada menos que leite de égua fermentado. Os yakutes orgulhavam-se particularmente do seu “alcatrão de leite” (não garanto a fidelidade da tradução). Tratava-se de uma mistura cozida de carne, peixe, raízes, ervas e casca de árvores. Tudo isto era bem triturado e misturado, juntando-se-lhe depois farinha e leite. Uma delícia...
Mas o grande pitéu dos siberianos era a rena. Os nómadas da tundra aproveitavam tudo, mas mesmo tudo: os globos oculares eram engolidos avidamente como se fossem azeitonas; os lábios e orelhas eram especialmente apreciados; o conteúdo semi-digerido dos intestinos (fibras de plantas) era utilizado para fazer “pudins negros” (os outros ingredientes eram a gordura e o sangue coagulado).
Eis o génio humano em todo o seu esplendor...
R.S.
(Imagine-se que seria (sobre)viver na Sibéria há trezentos, quatrocentos anos...)
Um dos aspectos onde eles rapidamente adoptaram os costumes locais foi na alimentação, e pelo que chegou até aos nossos dias da culinária local há mesmo que lhes tirar o chapéu.
Os ostyaques e voguls bebiam o sangue das renas fresquinho; quando tal não era possível, aproveitavam-no para fazer panquecas ou para engrossar a sopa. O peixe geralmente era comido cru, e para acompanhar bebia-se seiva de bétula. Os quirguizes, buriates e yakutes adoravam kumis - nada mais, nada menos que leite de égua fermentado. Os yakutes orgulhavam-se particularmente do seu “alcatrão de leite” (não garanto a fidelidade da tradução). Tratava-se de uma mistura cozida de carne, peixe, raízes, ervas e casca de árvores. Tudo isto era bem triturado e misturado, juntando-se-lhe depois farinha e leite. Uma delícia...
Mas o grande pitéu dos siberianos era a rena. Os nómadas da tundra aproveitavam tudo, mas mesmo tudo: os globos oculares eram engolidos avidamente como se fossem azeitonas; os lábios e orelhas eram especialmente apreciados; o conteúdo semi-digerido dos intestinos (fibras de plantas) era utilizado para fazer “pudins negros” (os outros ingredientes eram a gordura e o sangue coagulado).
Eis o génio humano em todo o seu esplendor...
R.S.
quarta-feira, setembro 24, 2003
Sibéria-I
Temos mais um elemento a contribuír com textos para o Tempore: R.S. Ficará nos meus posts, mas com a devida indicação.
"A conquista e colonização da Sibéria pelos cossacos, e pelos russos em geral, tem muitos paralelismos com a conquista do Oeste americano. Um destes é o modo como os povos autóctones foram “assimilados” pelos invasores. Culturas inteiras desapareceram do mapa, muitas vezes sem deixar qualquer rasto.
Os russos, como é óbvio, não precisavam de grandes desculpas para massacrar sem dó nem piedade os nativos siberianos. Mas se, porventura, tal fosse necessário, rapidamente invocavam a superioridade da sua cultura e religião. Provas não faltavam, assim pensavam eles.
Vejam-se os ritos funerários. Os koryaques e os chukchis dissecavam os seus mortos; os yukaghires desmembravam-nos “afectuosamente”, e depois distribuíam as várias partes, já secas, pelos familiares mais próximos; estes pedaços do ente querido eram apelidados de “avós”, e funcionavam como amuletos (custa-me a imaginar o que fariam eles aos inimigos); os kamchadales, pelo seu lado, tinham em mente as necessidades de transporte no Além: davam os cadáveres a comer aos cães, para que os falecidos tivessem uma boa equipa de cães a puxar-lhes o trenó.
Os russos tinham, assim, encontrado os seus “bárbaros”. Curiosamente, nesta mesma altura (séculos XVII e XVIII), a Europa olhava para o czar e os seus súbditos de uma forma bem semelhante."
R.S.
A parte do desmembramento dos mortos para fazer amuletos faz-me recordar (mesmo que a justificação seja diferente) a práctica de guardar relíquias nos catolicismo.
"A conquista e colonização da Sibéria pelos cossacos, e pelos russos em geral, tem muitos paralelismos com a conquista do Oeste americano. Um destes é o modo como os povos autóctones foram “assimilados” pelos invasores. Culturas inteiras desapareceram do mapa, muitas vezes sem deixar qualquer rasto.
Os russos, como é óbvio, não precisavam de grandes desculpas para massacrar sem dó nem piedade os nativos siberianos. Mas se, porventura, tal fosse necessário, rapidamente invocavam a superioridade da sua cultura e religião. Provas não faltavam, assim pensavam eles.
Vejam-se os ritos funerários. Os koryaques e os chukchis dissecavam os seus mortos; os yukaghires desmembravam-nos “afectuosamente”, e depois distribuíam as várias partes, já secas, pelos familiares mais próximos; estes pedaços do ente querido eram apelidados de “avós”, e funcionavam como amuletos (custa-me a imaginar o que fariam eles aos inimigos); os kamchadales, pelo seu lado, tinham em mente as necessidades de transporte no Além: davam os cadáveres a comer aos cães, para que os falecidos tivessem uma boa equipa de cães a puxar-lhes o trenó.
Os russos tinham, assim, encontrado os seus “bárbaros”. Curiosamente, nesta mesma altura (séculos XVII e XVIII), a Europa olhava para o czar e os seus súbditos de uma forma bem semelhante."
R.S.
A parte do desmembramento dos mortos para fazer amuletos faz-me recordar (mesmo que a justificação seja diferente) a práctica de guardar relíquias nos catolicismo.
terça-feira, setembro 23, 2003
A lenda de Alexandre
Alexandre filho de Filipe II da Macedónia e de Olímpia do Épiro. A sua carreira é sobejamente conhecida: conquistou um império que ia dos Balcãs à Índia, passando pelo Egipto e Afeganistão. Herdou um reino que fora organizado com punho de ferro pelo pai que tivera de lutar contra uma nobreza turbulenta, as ligas lideradas por Atenas, e Tebas (a batalha de Queroneia representa o fim da democracia ateniense e por arrastamento das outras cidades gregas e de uma certa concepção de liberdade), e revolucionando a arte da guerra. A sua personalidade é considerada de formas diferentes segundo os gostos de quem o examina: por um lado profundamente instável e sanguinário (as destruições das cidades de Tebas, Persepólis, o assassinato de Parménion o seu melhor general, a sua ligação com um eunuco) e que se limitava a usar o pessoal de valor que tinha à sua volta; homem de uma visão de império tentando criar uma síntese entre o oriente e ocidente (o encorajamento que fez do casamento entre oficiais seus e mulheres persas e utilizou Persas ao seu serviço), respeitador dos mais fracos (acolheu bem a família de Dário III seu adversário).
De qualquer modo fez o que pode para expandir o Helenismo: criou cidades com o seu nome com os seus veteranos feridos por todo o território.
Infelizmente nenhuma das fontes contemporâneas sobreviveram (Calistenes e Ptolomeu), nem sequer das gerações posteriores: apenas possuímos textos do séc. I que usaram fontes que copiaram os textos originais... De modo que muitos dos pormenores da sua vida são bastante discutíveis.
Com a sua morte os seus generais repartiram o seu império e a sua família acabou por ser exterminada. Os Epígonos iriam gastar gerações seguidas em conflitos. Apenas Seleuco esteve prestes a reunificar o império (faltando o Egipto) por um curto espaço de tempo. Os seus sucessores fizeram o que puderam para manter o Helenismo vivo: gregos e macedónios eram encorajados a emigrar para as novas cidades. Alexandria no Egipto teve um destino brilhante devido aos cuidados dos Ptolomaicos (o Egipto apesar da sua monumentalidade nunca possuíra grandes metrópoles): tornou-se um porto internacional e um foco de cultura graças à biblioteca; mas outras cidades como Antioquia, Éfeso também brilharam. Reinos no oriente como os greco-bacterianos (Afeganistão) e greco-indianos expandiram o helenismo geograficamente mais do que Alexandre o fizera. Quando os Partos (um povo indo-europeu aparentado com os Citas) ocuparam a Pérsia, esses reinos subsistiram até ao séc. I. a.C. com as ligações cortadas ao ocidente
Roma recuperou o legado Helenístico, e a miragem do império de Alexandre: Crasso e Marco António tentaram conquistar a Pérsia com péssimos resultados. Trajano morreu a meio de uma expedição, Septimo Severo teve o bom senso de desistir a meio e só Heraclito no período bizantino teve uma campanha vitoriosa: debalde, pois os árabes acabaram com a Pérsia Sassanida enfraquecida pelas longas guerras com Bizâncio. O ocidente medieval viu nele o perfeito cavaleiro, incluindo no grupo dos nove bravos e estabeleceu lendas e o “Romance de Alexandre”.
Luís XIV ainda apreciava vestir-se como Alexandre (à maneira do séc. XVII obviamente) e esse epíteto seria sempre apreciado por monarcas absolutos. No séc. XX a sua figura não seria muito retratada pelo cinema: os programas documentário da T.V. terão claramente a sua preferência.
De qualquer modo fez o que pode para expandir o Helenismo: criou cidades com o seu nome com os seus veteranos feridos por todo o território.
Infelizmente nenhuma das fontes contemporâneas sobreviveram (Calistenes e Ptolomeu), nem sequer das gerações posteriores: apenas possuímos textos do séc. I que usaram fontes que copiaram os textos originais... De modo que muitos dos pormenores da sua vida são bastante discutíveis.
Com a sua morte os seus generais repartiram o seu império e a sua família acabou por ser exterminada. Os Epígonos iriam gastar gerações seguidas em conflitos. Apenas Seleuco esteve prestes a reunificar o império (faltando o Egipto) por um curto espaço de tempo. Os seus sucessores fizeram o que puderam para manter o Helenismo vivo: gregos e macedónios eram encorajados a emigrar para as novas cidades. Alexandria no Egipto teve um destino brilhante devido aos cuidados dos Ptolomaicos (o Egipto apesar da sua monumentalidade nunca possuíra grandes metrópoles): tornou-se um porto internacional e um foco de cultura graças à biblioteca; mas outras cidades como Antioquia, Éfeso também brilharam. Reinos no oriente como os greco-bacterianos (Afeganistão) e greco-indianos expandiram o helenismo geograficamente mais do que Alexandre o fizera. Quando os Partos (um povo indo-europeu aparentado com os Citas) ocuparam a Pérsia, esses reinos subsistiram até ao séc. I. a.C. com as ligações cortadas ao ocidente
Roma recuperou o legado Helenístico, e a miragem do império de Alexandre: Crasso e Marco António tentaram conquistar a Pérsia com péssimos resultados. Trajano morreu a meio de uma expedição, Septimo Severo teve o bom senso de desistir a meio e só Heraclito no período bizantino teve uma campanha vitoriosa: debalde, pois os árabes acabaram com a Pérsia Sassanida enfraquecida pelas longas guerras com Bizâncio. O ocidente medieval viu nele o perfeito cavaleiro, incluindo no grupo dos nove bravos e estabeleceu lendas e o “Romance de Alexandre”.
Luís XIV ainda apreciava vestir-se como Alexandre (à maneira do séc. XVII obviamente) e esse epíteto seria sempre apreciado por monarcas absolutos. No séc. XX a sua figura não seria muito retratada pelo cinema: os programas documentário da T.V. terão claramente a sua preferência.
sexta-feira, setembro 19, 2003
Bibliografia
Pediram-nos para passar a colocar uma curta bibliografia sobre os assuntos que abordamos (que seja de fácil acesso, facilmente compreensível, etc). Bem, para este último assunto da decadência romana sugiro as seguintes obras.
- “L’Église de l’Antiquité tardive” de Henri Marrou, Ed. du Seuil. Boa abordagem sobre o cristianismo histórico e as suas consequências no mundo romano no baixo- império.
- “The late roman infantryman”, da editora Osprey, colecção Warrior. Juntamente com um outro sobre a cavalaria tem uma descrição sucinta da evolução dos exércitos romanos tardios.
- Finalmente para os que tem tempo e vontade de ler, a obra de Gibbons “The history of the decline and fall of the roman Empire”. Embora seja uma obra muito antiga, e com preconceitos, descreve os factos com uma tal paixão, que o leitor nada perderá em a ler. Poderá completar e corrigir as falhas com qualquer boa História Universal.
- “L’Église de l’Antiquité tardive” de Henri Marrou, Ed. du Seuil. Boa abordagem sobre o cristianismo histórico e as suas consequências no mundo romano no baixo- império.
- “The late roman infantryman”, da editora Osprey, colecção Warrior. Juntamente com um outro sobre a cavalaria tem uma descrição sucinta da evolução dos exércitos romanos tardios.
- Finalmente para os que tem tempo e vontade de ler, a obra de Gibbons “The history of the decline and fall of the roman Empire”. Embora seja uma obra muito antiga, e com preconceitos, descreve os factos com uma tal paixão, que o leitor nada perderá em a ler. Poderá completar e corrigir as falhas com qualquer boa História Universal.
quinta-feira, setembro 18, 2003
Decadência Romana- III
No princípio do séc. V a maioria do exército romano era ainda constituído por romanos (com as devidas aspas que tal termo implica, e com os limitados conhecimentos que temos do real recrutamento por essa época). À medida que os bárbaros foram entrando pelo império, começou-se a fazer acordos em que eles se deveriam fixar num determinado território, recebiam terras e em troca ficavam ao serviço do imperador e lutavam contra os seus inimigos. Ora se a situação de bárbaros ao serviço de Roma não era nova, o recrutamento sempre fora feito por indivíduos que eram treinados, ensinados a falar latim, e equipados por oficiais romanos (esta era uma das formas de romanização), tornando-se na geração seguinte romanos indistinguíveis; na nova situação, eles vinham em grupos com os seus próprios líderes. O resultado foi que progressivamente as tribos foram-se emancipando da tutela romana, e formando reinos; quando em 476 o último imperador romano foi deposto por um grupo de mercenários, pouco territórios (e tropas) restavam ao seu serviço. Os comandantes e chefes que tentavam manter o estado romano nos últimos anos eram também na maioria dos casos de origem bárbara. Só faltava que um decidisse tomar a púrpura, coisa que não sucedeu.
terça-feira, setembro 16, 2003
Decadência Romana- II
Ora em última análise, Roma conquistou o seu império graças às forças das suas legiões. E os seus exércitos no baixo-império eram muito diferentes do que tinham sido na época da república.
Para recrutar soldados recorria-se a vários métodos em simultâneo: voluntários, recrutamento por conscrição (e aí a influência dos grandes proprietários era determinante pois não queriam perder os seus melhores homens e falseavam o sistema), hereditariedade, ou então rusga pura e simples até se até preencher as necessidades. De facto ao contrário do que se disse por muito tempo, o exército romano continuou a ser constituído por gente de dentro do império com excepção de algumas unidades: a barbarização dos quadros só se dá em meados do séc. V (refiro-me ao ocidente) e mesmo assim a defesa local ficou sempre a cargo dos romanos, mantendo-se algumas unidades romanas ofensivas (claro que como toda a gente dentro do império tinha a cidadania romana, o termo refere-se a gente que muitas vezes pouco sabia de latim). Quanto ao valor do soldado romano, poderia ter perdido algumas das suas qualidades (as unidades mais importantes já não eram consideradas as velhas legiões mas sim as auxiliae), mas a realidade é que a guerra modificara-se: raramente se travavam grandes batalhas entre exércitos regulares, mas sim emboscadas e guerrilha que exigia sobretudo flexibilidade e improvisação e menos automatismo nas formações.
Ora outro elemento a considerar, é que o exército era com o império permanente e não uma força recrutada de acordo com as necessidades por algum tempo; logo para se manter um grande exército é preciso dinheiro, muito dinheiro e o ocidente não o tinha: apesar de ter espremido as províncias até levar à revolta dos camponeses (sobretudo na Península Ibérica e Gália), os imperadores do ocidente não conseguiram preservar o seu estado. Poder-se-ia argumentar que o cristianismo enfraquecera o patriotismo romano, mas essa era uma falsa questão: nunca soldados romanos se passaram para o inimigo externo, tinham era a tendência para querer nomear um novo imperador com elevada frequência, entrando em conflito contra outras legiões (mas isso vinha desde o fim da república, assim que terminou a conscrição por períodos limitados)..
Para recrutar soldados recorria-se a vários métodos em simultâneo: voluntários, recrutamento por conscrição (e aí a influência dos grandes proprietários era determinante pois não queriam perder os seus melhores homens e falseavam o sistema), hereditariedade, ou então rusga pura e simples até se até preencher as necessidades. De facto ao contrário do que se disse por muito tempo, o exército romano continuou a ser constituído por gente de dentro do império com excepção de algumas unidades: a barbarização dos quadros só se dá em meados do séc. V (refiro-me ao ocidente) e mesmo assim a defesa local ficou sempre a cargo dos romanos, mantendo-se algumas unidades romanas ofensivas (claro que como toda a gente dentro do império tinha a cidadania romana, o termo refere-se a gente que muitas vezes pouco sabia de latim). Quanto ao valor do soldado romano, poderia ter perdido algumas das suas qualidades (as unidades mais importantes já não eram consideradas as velhas legiões mas sim as auxiliae), mas a realidade é que a guerra modificara-se: raramente se travavam grandes batalhas entre exércitos regulares, mas sim emboscadas e guerrilha que exigia sobretudo flexibilidade e improvisação e menos automatismo nas formações.
Ora outro elemento a considerar, é que o exército era com o império permanente e não uma força recrutada de acordo com as necessidades por algum tempo; logo para se manter um grande exército é preciso dinheiro, muito dinheiro e o ocidente não o tinha: apesar de ter espremido as províncias até levar à revolta dos camponeses (sobretudo na Península Ibérica e Gália), os imperadores do ocidente não conseguiram preservar o seu estado. Poder-se-ia argumentar que o cristianismo enfraquecera o patriotismo romano, mas essa era uma falsa questão: nunca soldados romanos se passaram para o inimigo externo, tinham era a tendência para querer nomear um novo imperador com elevada frequência, entrando em conflito contra outras legiões (mas isso vinha desde o fim da república, assim que terminou a conscrição por períodos limitados)..
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