Li há uns dias um artigo no blog religar (http://religar.blogspot.com/), a refutar um outro artigo que defendia que o cristianismo fora a razão da decadência do Império Romano, partindo do exemplo de Éfeso. Como não li este artigo não o posso comentar, e é complicado fazer uma análise objectiva sobre o assunto, mas posso dissertar e apresentar alguns dos meus pontos de vista e é o que vou fazer...
Como é que um império que conseguiu vencer tantos adversários sofreu uma decadência tão rápida? Teria a Igreja contribuído para essa decadência ao esmorecer o patriotismo romano?
Em primeiro lugar, os historiadores têm revisto o conceito de decadência. Se analisarmos os sécs. IV e V, estes são muito ricos a nível artístico e cultural (sobretudo se comparados com o séc. II e III). Temos os Padres da Igreja, os Neo-Platónicos, os primeiros passos da arte bizantina (a não ser que não se goste dessas manifestações artísticas mas ai é questão de opinião) a mostrar a vitalidade do império que continuou com Bizâncio. É que quando se fala de que o império se desmoronou, existe a tendência a esquecer que o império romano do Oriente, fortemente cristianizado e urbano ainda aguentou mais mil anos, enquanto que a metade ocidental pagã e rural é que foi conquistada pelos bárbaros.
Aliás rapidamente a Igreja se colou ao poder, e se tivera reticências ao serviço militar nos tempos da perseguição, a partir do momento que o império se tornou cristão considerava um crime grave alguém furtar-se ao seu dever (a pena por deserção no exército era ser queimado a fogo lento).
A Igreja tornou-se fervorosamente patriótica e romana (a ponto de desgostar um neo-pagão como o imperador Juliano que achava que os cristãos só deviam poder ensinar coisas relacionadas com o cristianismo e não cultura clássica). De alguma maneira aumentou a consistência do império.
Um argumento que se apresenta normalmente, é que enquanto o Império pagão fora tolerante, o cristianismo era intolerante perseguindo pagãos, cristãos considerados heréticos e judeus. Roma de facto fora relativamente tolerante (se perseguira pontualmente grupos como os cristãos fora por motivos muito específicos), mas depois das dificuldades do séc. III. (uma série de invasões bárbaras, guerras civis e crise económica), vários imperadores procuraram centralizar mais o estado, obter um maior controlo dos cidadãos (para deste modo ser mais fácil mobilizar recursos humanos e financeiros), e unificar o império em torno de uma ideologia. Com Constantino tornou-se o cristianismo a religião a obter esse monopólio.
sexta-feira, setembro 12, 2003
quarta-feira, setembro 10, 2003
As Cruzadas vistas pelo Islão - parte III
A Jihad - o fim (?)
O herdeiro de Zengi, Nur al-Din, e o seu sucessor Salah al-Din (“Saladino”), eram extremamente piedosos, observando rigidamente a Sunna e os Pilares do Islão na sua vida pública e particular. Ambos rodearam-se de religiosos e teólogos e sábios em geral. Para além disso fizeram uma activa campanha para espalhar o fervor religioso e propaganda entre os seus súbditos muçulmanos. Com os seus exemplos de religiosidade, Nur al-Din iniciou – e o seu sucessor Salah al-Din cultivou – uma guerra religiosa, uma jihad, contra os Firanj. Enquanto que Zengi apenas podia contar com os seus soldados, o apelo à jihad atraiu os soldados muçulmanos de toda a Arábia, Egipto e Pérsia. Este massivo exército permitiu Salah al-Din esmagar os Firanj na Batalha de Hattin e enfraquecer as forças da Terceira Cruzada de Ricardo Coração de Leão.
A chama da Jihad de Salah al-Din deixou de arder em 1193, quando morreu. O irmão do Sultão, Saphadin, não pretendia entrar em mais guerras, e quando Coração de Leão foi para a Europa, o poderio militar dos Firanj estava praticamente neutralizado e não mais necessidade de derramamento de sangue. A partir desta altura Saphadim acreditava que a coexistência pacífica com Firanj ainda era possível. Várias décadas mais tarde, uma jihad iria finalmente purgar os Firanj da Síria e Palestina, embora até 1291, os muçulmanos ainda partilhassem uma pequena parte desse território com os Firanj.
O herdeiro de Zengi, Nur al-Din, e o seu sucessor Salah al-Din (“Saladino”), eram extremamente piedosos, observando rigidamente a Sunna e os Pilares do Islão na sua vida pública e particular. Ambos rodearam-se de religiosos e teólogos e sábios em geral. Para além disso fizeram uma activa campanha para espalhar o fervor religioso e propaganda entre os seus súbditos muçulmanos. Com os seus exemplos de religiosidade, Nur al-Din iniciou – e o seu sucessor Salah al-Din cultivou – uma guerra religiosa, uma jihad, contra os Firanj. Enquanto que Zengi apenas podia contar com os seus soldados, o apelo à jihad atraiu os soldados muçulmanos de toda a Arábia, Egipto e Pérsia. Este massivo exército permitiu Salah al-Din esmagar os Firanj na Batalha de Hattin e enfraquecer as forças da Terceira Cruzada de Ricardo Coração de Leão.
A chama da Jihad de Salah al-Din deixou de arder em 1193, quando morreu. O irmão do Sultão, Saphadin, não pretendia entrar em mais guerras, e quando Coração de Leão foi para a Europa, o poderio militar dos Firanj estava praticamente neutralizado e não mais necessidade de derramamento de sangue. A partir desta altura Saphadim acreditava que a coexistência pacífica com Firanj ainda era possível. Várias décadas mais tarde, uma jihad iria finalmente purgar os Firanj da Síria e Palestina, embora até 1291, os muçulmanos ainda partilhassem uma pequena parte desse território com os Firanj.
As Cruzadas vistas pelo Islão - parte II
A Jihad - o início
No início do séc. XII, o mundo muçulmano tinha praticamente esquecido a Jihad, a guerra religiosa travada contra os inimigos do Islão. A explosiva expansão da sua religião durante o séc. VIII tinha-se reduzido às memórias de grandeza dessa época. Após a queda de Jerusalém, muitos proeminentes líderes religiosos, como o qadi Abu Sa’ ad al-Harawi, tentaram convencer o Califa Abássida a preparar a Jihad contra os Firanji. No entanto, somente perto de duas décadas depois é que o sultão turco designou um proeminente militar, um atabeg chamado Zengi, para resolver o problema Firanj.
Após a primeira cruzada, a moral dos muçulmanos estava de rastos. Os Firanj detinham uma reputação de ferocidade entre os Turcos e os Árabes. Com os espectaculares sucessos em Antioquia e Jerusalém, os Firanj pareciam quase imparáveis. Eles humilhavam o poderoso califado egípcio anualmente e faziam investidas em terras inimigas impunemente. Exceptuando os vassalos do Egipto, a maioria dos aterrorizados líderes muçulmanos dos territórios mais próximos pagavam um pesado tributo para assegurar a paz. Zengi iniciou o longo e lento processo de modificar a imagem que os muçulmanos tinham dos Firanj.
Tendo recebido o domínio das terras à volta de Mossul e Alepo, Zengi começou uma campanha contra o Firanj em 1132 com a ajuda do seu lugar-tenente Sawar. Em cinco anos conseguiu reduzir o número dos castelos importantes ao longo da fronteira do Condado de Edessa e derrotou o exército firanj em batalha. Em 1144 capturou a cidade de Edessa e neutralizou de forma efectiva o primeiro domínio estabelecido pelos Cruzados.
Zengi foi o primeiro líder muçulmano a enfrentar os firanj e que não só sobreviveu, como triunfou. Ele provou que os firanj podiam ser bloqueados. Os líderes de Bagdad aprovaram os sucessos de Zengi, e cedo um grande número de títulos precediam o seu nome: O Emir, o General, o Grande, o Justo, o Ajudante de Deus, o Triunfante, o Único, o Pilar da Religião, a Pedra de Base do Islão, …Honra de Reis, Apoiante de Sultões … o Sol dos Merecedores, … Protector do Príncipe dos Fiéis. Zengi gostou tanto da enchente de elogios, que insistiu que os seus arautos e escrivães utilizassem todos os títulos na sua correspondência.
Embora Zengi fosse um grande herói militar, ele foi simplesmente muito implacável e cruel nas suas campanhas contra Damasco para motivar os muçulmanos para uma guerra religiosa. Uma noite do ano 1146, encontrando-se ele alcoolizado, ao ter presenciado a um erro do seu eunuco particular, Lulu (“pérola”), e prometeu mandá-lo executar por incompetência. Mais tarde, enquanto Zengi dormia, Lulu pegou na adaga do seu dono e apunhalou-o repetidamente e fugiu, coberto pela escuridão da noite.
No início do séc. XII, o mundo muçulmano tinha praticamente esquecido a Jihad, a guerra religiosa travada contra os inimigos do Islão. A explosiva expansão da sua religião durante o séc. VIII tinha-se reduzido às memórias de grandeza dessa época. Após a queda de Jerusalém, muitos proeminentes líderes religiosos, como o qadi Abu Sa’ ad al-Harawi, tentaram convencer o Califa Abássida a preparar a Jihad contra os Firanji. No entanto, somente perto de duas décadas depois é que o sultão turco designou um proeminente militar, um atabeg chamado Zengi, para resolver o problema Firanj.
Após a primeira cruzada, a moral dos muçulmanos estava de rastos. Os Firanj detinham uma reputação de ferocidade entre os Turcos e os Árabes. Com os espectaculares sucessos em Antioquia e Jerusalém, os Firanj pareciam quase imparáveis. Eles humilhavam o poderoso califado egípcio anualmente e faziam investidas em terras inimigas impunemente. Exceptuando os vassalos do Egipto, a maioria dos aterrorizados líderes muçulmanos dos territórios mais próximos pagavam um pesado tributo para assegurar a paz. Zengi iniciou o longo e lento processo de modificar a imagem que os muçulmanos tinham dos Firanj.
Tendo recebido o domínio das terras à volta de Mossul e Alepo, Zengi começou uma campanha contra o Firanj em 1132 com a ajuda do seu lugar-tenente Sawar. Em cinco anos conseguiu reduzir o número dos castelos importantes ao longo da fronteira do Condado de Edessa e derrotou o exército firanj em batalha. Em 1144 capturou a cidade de Edessa e neutralizou de forma efectiva o primeiro domínio estabelecido pelos Cruzados.
Zengi foi o primeiro líder muçulmano a enfrentar os firanj e que não só sobreviveu, como triunfou. Ele provou que os firanj podiam ser bloqueados. Os líderes de Bagdad aprovaram os sucessos de Zengi, e cedo um grande número de títulos precediam o seu nome: O Emir, o General, o Grande, o Justo, o Ajudante de Deus, o Triunfante, o Único, o Pilar da Religião, a Pedra de Base do Islão, …Honra de Reis, Apoiante de Sultões … o Sol dos Merecedores, … Protector do Príncipe dos Fiéis. Zengi gostou tanto da enchente de elogios, que insistiu que os seus arautos e escrivães utilizassem todos os títulos na sua correspondência.
Embora Zengi fosse um grande herói militar, ele foi simplesmente muito implacável e cruel nas suas campanhas contra Damasco para motivar os muçulmanos para uma guerra religiosa. Uma noite do ano 1146, encontrando-se ele alcoolizado, ao ter presenciado a um erro do seu eunuco particular, Lulu (“pérola”), e prometeu mandá-lo executar por incompetência. Mais tarde, enquanto Zengi dormia, Lulu pegou na adaga do seu dono e apunhalou-o repetidamente e fugiu, coberto pela escuridão da noite.
terça-feira, setembro 09, 2003
Os Pictos
uma achega
Os Pictos como povo constituem um enigma. Alguns especialistas defendem que seriam uma tribo celta, outros, por outro lado, crêem tratar-se de um povo mais antigo. Os escritores romanos sempre os destinguiram dos celtas da escócia, surpreendendo-se pela sua ferocidade e o hábito barbárico de se pintarem ou tatuarem.
Até o nome "Pictos" não ajuda, na medida em que deriva da palavra latina picti, que significa simplesmente "pintados" - uma referência às suas pinturas ou tatuagens de guerra. O nome que os Pictos davam a si mesmo perdeu-se.
As descrições dos Pictos traçam um retrato de um povo pequeno, robusto mas delgado, pele amarelecida, de todo diferentes dos Gauleses, cuja pele pálida, altura e constituição impressionavam os escritores romanos.
O folklore escocês fala dos "pechs". Ao longo dos séculos estes foram tornando-se numa raça mágica de fadas e duendes, mas muitos especialistas crêem que se trata duma "memória popular" dos Pictos, o que indica que seriam vistos pelos Celtas da Escócia como uma raça separada e não apenas uma tribo separada. A juntar com as diferenças físicas, parece que os Pictos poderiam ser os últimos vestígios da população pré-Celtica da Grã-Bretanha, mas não há certezas.
Os Pictos como povo constituem um enigma. Alguns especialistas defendem que seriam uma tribo celta, outros, por outro lado, crêem tratar-se de um povo mais antigo. Os escritores romanos sempre os destinguiram dos celtas da escócia, surpreendendo-se pela sua ferocidade e o hábito barbárico de se pintarem ou tatuarem.
Até o nome "Pictos" não ajuda, na medida em que deriva da palavra latina picti, que significa simplesmente "pintados" - uma referência às suas pinturas ou tatuagens de guerra. O nome que os Pictos davam a si mesmo perdeu-se.
As descrições dos Pictos traçam um retrato de um povo pequeno, robusto mas delgado, pele amarelecida, de todo diferentes dos Gauleses, cuja pele pálida, altura e constituição impressionavam os escritores romanos.
O folklore escocês fala dos "pechs". Ao longo dos séculos estes foram tornando-se numa raça mágica de fadas e duendes, mas muitos especialistas crêem que se trata duma "memória popular" dos Pictos, o que indica que seriam vistos pelos Celtas da Escócia como uma raça separada e não apenas uma tribo separada. A juntar com as diferenças físicas, parece que os Pictos poderiam ser os últimos vestígios da população pré-Celtica da Grã-Bretanha, mas não há certezas.
sábado, setembro 06, 2003
As Cruzadas vistas pelo Islão - parte I
O Mundo Muçulmano
Na altura das cruzadas a febre da conquista islâmica dos sécs. VIII e IX estava a esbater-se. Durante esta altura o Islão espalhava-se pelo Médio Oriente, Pérsia, África do Norte e Península Ibérica. As províncias deste vasto império eram governadas por sultões, de acordo com a autoridade do Califa, o descendente de Maomé e a figura política central do mundo muçulmano. Um dos mais conhecidos califas desta era foi Harun Al-Rashid, imortalizado nos fantásticos contos de As Mil e Uma Noites.
No entanto, nos finais do séc. XI o mundo islâmico estava fortemente dividido. Um Califado rival tinha ascendido no Egipto, Fatímida, descendentes de Ali Ibn Talid genro e sobrinho do Profeta, premissa esta utilizada para basear o seu poder, revoltando-se contra a autoridade de Abu Bakr, o primeiro Califa de Bagdad. Os apoiantes dos Fatímidas eram denominados Shi'ah i-Ali (os seguidores de Ali), ou Shi'itas. Os apoiantes do Califado Abassida de Bagdad eram Sunitas, porque, segundo o seu ponto de vista, seguiam a Sunna (o caminho, a via) de Maomé. Estas seitas eram rivais políticos, não religiosos, e os membros das duas facções políticas eram muçulmanos, observando o Corão, a Sharia e os Pilares do Islão.
Enquanto o Califa Fatímida conservava a sua soberania, o Califado de Bagdad era essencialmente um fantoche dos Turcos, na medida em que a tribo Seljúcida tinha rumado desde a Ásia Central até terem conquistado grande parte da Pérsia e capturado Bagdad em 1055. Em 1071 derrotaram o exército Bizantino, do qual resultou o diálogo entre o Imperador Bizantino e o Papa que apelou à Primeira Cruzada.
Os Seljúcidas converteram-se ao Islão e mantiveram o Califa em Bagdad, mas o sultão turco detinha as rédeas do poder de decisão a nível político e militar no mundo sunita, mantendo aquele os símbolos da sua posição e prestígio, os palácios, o respeito e o harim (harém). A majestosa cidade de Bagdad foi lentamente caindo na ruína, enquanto hordas de soldados turcos, normalmente alcoolizados, vagueavam pela cidade à noite, contribuindo ainda mais para o caos urbano. Durante as Cruzadas, o Califado de Bagdad era o símbolo vivo da decadência no mundo árabe e das suas irrecuperáveis glórias passadas.
Os príncipes turcos eram geralmente cruéis e não olhavam a meios para exterminarem possíveis rivais quando atingiam o poder, para que estes não o depusessem mais tarde. Normalmente isso incluía o harém do falecido pai, os seus meios-irmãos e, às vezes, alguns familiares mais próximos. Devido à brutalidade das guerras de sucessão, os turcos criaram a figura do atabeg para proteger o jovem herdeiro até que este atingisse a maioridade e pudesse lutar por ele próprio. Ás vezes um atabeg recusava-se a devolver o poder e, nesse caso, o antigo servo ou escravo acabaria por fundar a sua própria dinastia.
Embora o Sultão de Bagdad teoricamente controlasse todos os senhores turcos no seu império, na realidade as províncias eram praticamente independentes de qualquer autoridade central. Em cada província os príncipes turcos lutavam entre si pelo poder dinástico. Barkiyaruq, o sultão turco de Bagdad não era excepção: quando Al-Harawi chegou a Bagdad em 1099 protestando pela perda de Jerusalém, o sultão estava ocupado numa batalha no norte da cidade, lutando contra o seu próprio irmão, Maomé. Durante este conflito, que os árabes observavam com algum divertimento, Bagdad mudou de mãos entre os dois beligerantes oito vezes em menos de três anos.
A situação no Egipto não era melhor. A administração corrupta dos conselheiros, os vizires, levou à má gestão do governo sob a autoridade teorética do Califa Fatímida. Todos os anos os vizires egípcios enviavam exércitos para reconquistar Jerusalém. Estas campanhas eram caracterizadas por falta de planeamento. Embora os recursos do Egipto fossem constantes e às vezes derrotassem os Firanj (os francos, os europeus) em batalha, os ineptos vizires fatímidas nunca reconquistaram Jerusalém.
Durante a Primeira Cruzada, as maiores potências políticas do mundo islâmico eram impotentes face aos cruzados. Pela Síria, Pérsia e Anatólia, os príncipes turcos lutavam constantemente contra os seus parentes. Em Bagdad os Turcos forçaram o califa Abássida a retirar-se para os prazeres perfumados do seu harém. Os vizires egípcios apoderavam-se da administração e operações militares do califado Fatímida. Em resumo, o mundo islâmico estava fragmentado, caótico, à mercê da conquista pelos firanj.
Na altura das cruzadas a febre da conquista islâmica dos sécs. VIII e IX estava a esbater-se. Durante esta altura o Islão espalhava-se pelo Médio Oriente, Pérsia, África do Norte e Península Ibérica. As províncias deste vasto império eram governadas por sultões, de acordo com a autoridade do Califa, o descendente de Maomé e a figura política central do mundo muçulmano. Um dos mais conhecidos califas desta era foi Harun Al-Rashid, imortalizado nos fantásticos contos de As Mil e Uma Noites.
No entanto, nos finais do séc. XI o mundo islâmico estava fortemente dividido. Um Califado rival tinha ascendido no Egipto, Fatímida, descendentes de Ali Ibn Talid genro e sobrinho do Profeta, premissa esta utilizada para basear o seu poder, revoltando-se contra a autoridade de Abu Bakr, o primeiro Califa de Bagdad. Os apoiantes dos Fatímidas eram denominados Shi'ah i-Ali (os seguidores de Ali), ou Shi'itas. Os apoiantes do Califado Abassida de Bagdad eram Sunitas, porque, segundo o seu ponto de vista, seguiam a Sunna (o caminho, a via) de Maomé. Estas seitas eram rivais políticos, não religiosos, e os membros das duas facções políticas eram muçulmanos, observando o Corão, a Sharia e os Pilares do Islão.
Enquanto o Califa Fatímida conservava a sua soberania, o Califado de Bagdad era essencialmente um fantoche dos Turcos, na medida em que a tribo Seljúcida tinha rumado desde a Ásia Central até terem conquistado grande parte da Pérsia e capturado Bagdad em 1055. Em 1071 derrotaram o exército Bizantino, do qual resultou o diálogo entre o Imperador Bizantino e o Papa que apelou à Primeira Cruzada.
Os Seljúcidas converteram-se ao Islão e mantiveram o Califa em Bagdad, mas o sultão turco detinha as rédeas do poder de decisão a nível político e militar no mundo sunita, mantendo aquele os símbolos da sua posição e prestígio, os palácios, o respeito e o harim (harém). A majestosa cidade de Bagdad foi lentamente caindo na ruína, enquanto hordas de soldados turcos, normalmente alcoolizados, vagueavam pela cidade à noite, contribuindo ainda mais para o caos urbano. Durante as Cruzadas, o Califado de Bagdad era o símbolo vivo da decadência no mundo árabe e das suas irrecuperáveis glórias passadas.
Os príncipes turcos eram geralmente cruéis e não olhavam a meios para exterminarem possíveis rivais quando atingiam o poder, para que estes não o depusessem mais tarde. Normalmente isso incluía o harém do falecido pai, os seus meios-irmãos e, às vezes, alguns familiares mais próximos. Devido à brutalidade das guerras de sucessão, os turcos criaram a figura do atabeg para proteger o jovem herdeiro até que este atingisse a maioridade e pudesse lutar por ele próprio. Ás vezes um atabeg recusava-se a devolver o poder e, nesse caso, o antigo servo ou escravo acabaria por fundar a sua própria dinastia.
Embora o Sultão de Bagdad teoricamente controlasse todos os senhores turcos no seu império, na realidade as províncias eram praticamente independentes de qualquer autoridade central. Em cada província os príncipes turcos lutavam entre si pelo poder dinástico. Barkiyaruq, o sultão turco de Bagdad não era excepção: quando Al-Harawi chegou a Bagdad em 1099 protestando pela perda de Jerusalém, o sultão estava ocupado numa batalha no norte da cidade, lutando contra o seu próprio irmão, Maomé. Durante este conflito, que os árabes observavam com algum divertimento, Bagdad mudou de mãos entre os dois beligerantes oito vezes em menos de três anos.
A situação no Egipto não era melhor. A administração corrupta dos conselheiros, os vizires, levou à má gestão do governo sob a autoridade teorética do Califa Fatímida. Todos os anos os vizires egípcios enviavam exércitos para reconquistar Jerusalém. Estas campanhas eram caracterizadas por falta de planeamento. Embora os recursos do Egipto fossem constantes e às vezes derrotassem os Firanj (os francos, os europeus) em batalha, os ineptos vizires fatímidas nunca reconquistaram Jerusalém.
Durante a Primeira Cruzada, as maiores potências políticas do mundo islâmico eram impotentes face aos cruzados. Pela Síria, Pérsia e Anatólia, os príncipes turcos lutavam constantemente contra os seus parentes. Em Bagdad os Turcos forçaram o califa Abássida a retirar-se para os prazeres perfumados do seu harém. Os vizires egípcios apoderavam-se da administração e operações militares do califado Fatímida. Em resumo, o mundo islâmico estava fragmentado, caótico, à mercê da conquista pelos firanj.
quinta-feira, setembro 04, 2003
Esclarecimentos
Vou fazer alguns esclarecimentos em relação a algumas personagens do último post.
Kaltenbrunner- Alto dignatário da Gestapo e das SS, chefe da SD (uma espécie de polícia de segurança). Era em última análise responsável pelo envio de presos para os campos de concentração e execução nos campos de extermínio. Foi condenado a ser enforcado no julgamento de Nuremberga (a sua justificação é que se limitava a receber as ordens de Hitler e Himmler).
Canaris- Grande Almirante e chefe da Abwehr (serviços de espionagem do exército). Detestando os nazis, forneceu informações aos aliados, ajudou a salvar
muitos adversários destes, tentou organizar vários golpes de estado que falharam todos. Acabou executado em Abril de 1945 pelas SS (parece que Himmler sabia da sua culpa desde 1943, mas nunca agiu até que o fez por medo que um dos seus subordinados o fizesse, embora seja impossivel saber o que de facto pretendia).
Himmler- Chefe da Gestapo, SS, mais fiel seguidor de Hitler (até as coisas desabarem), responsável pela política de extermínio, etc. Era uma pessoa muito tímida e afável, que gostava de agradar aos seus interlocutores: por exemplo era capaz de servir uma chávena de café e torradas a um dos seus subordinados enquanto se discutia uma nova forma de gaseamento ou o que fazer a uma determinada população numa reunião. Isto não é piada, acontecia mesmo, e mostra o grau de alienação dos nazis.
Mais uma informação: para quem acha estranho existirem 2 serviços secretos, fique saber que existia ainda um terceiro a cargo do ministério dos negócios estrangeiros. Hitler gostava de organizar serviços paralelos com as mesmas funções para competirem entre si. Normalmente acabava num atropelo de funções e sabotagem mútua; os nazis apesar da tradição alemã eram muito pouco eficientes.
Kaltenbrunner- Alto dignatário da Gestapo e das SS, chefe da SD (uma espécie de polícia de segurança). Era em última análise responsável pelo envio de presos para os campos de concentração e execução nos campos de extermínio. Foi condenado a ser enforcado no julgamento de Nuremberga (a sua justificação é que se limitava a receber as ordens de Hitler e Himmler).
Canaris- Grande Almirante e chefe da Abwehr (serviços de espionagem do exército). Detestando os nazis, forneceu informações aos aliados, ajudou a salvar
muitos adversários destes, tentou organizar vários golpes de estado que falharam todos. Acabou executado em Abril de 1945 pelas SS (parece que Himmler sabia da sua culpa desde 1943, mas nunca agiu até que o fez por medo que um dos seus subordinados o fizesse, embora seja impossivel saber o que de facto pretendia).
Himmler- Chefe da Gestapo, SS, mais fiel seguidor de Hitler (até as coisas desabarem), responsável pela política de extermínio, etc. Era uma pessoa muito tímida e afável, que gostava de agradar aos seus interlocutores: por exemplo era capaz de servir uma chávena de café e torradas a um dos seus subordinados enquanto se discutia uma nova forma de gaseamento ou o que fazer a uma determinada população numa reunião. Isto não é piada, acontecia mesmo, e mostra o grau de alienação dos nazis.
Mais uma informação: para quem acha estranho existirem 2 serviços secretos, fique saber que existia ainda um terceiro a cargo do ministério dos negócios estrangeiros. Hitler gostava de organizar serviços paralelos com as mesmas funções para competirem entre si. Normalmente acabava num atropelo de funções e sabotagem mútua; os nazis apesar da tradição alemã eram muito pouco eficientes.
quarta-feira, setembro 03, 2003
O mal e o mal
Albert Speer e Schelemberg são duas figuras menos conhecidas que os nazis de primeiro plano. Mas ambas merecem ser conhecidas pelos respectivos papeis do que eram os nazis não convictos do regime e que provavelmente representava a maioria.
Speer era um arquitecto talentoso que ganhou a admiração de Hitler. Tendo excelentes talentos de organização para as obras que lhe eram encomendadas, Hitler nomeou-o a meio da guerra ministro do armamento, achando que ele iria fazer um bom trabalho. Ora Speer fez mais que um bom trabalho: utilizando critérios de planificação de objectivos mas descentralização nas fábricas conseguiu triplicar a produção de armamento num ano e meio; permitiu assim que a Alemanha prosseguisse o esforço de guerra, prolongando a duração desta. Foi assim considerado pelos aliados a figura mais importante na Alemanha Nazi, mais importante que Himmler ou o próprio Hitler (qualquer um deles poderia ser substituído que nada mudaria no regime). Ora Speer quando foi julgado em Nuremberga foi o único que se considerou culpado: achava que independentemente de ter realizado ou não as acções de que era culpado, devido à sua conivência com o regime era de facto culpado. Esta atitude como a que é a seguir descrita valeu-lhe ser poupado à forca.
Depois da invasão da Polónia e URSS, para substituir a mão-de-obra alemã que estava recrutada, os nazis recorreram a escravos de leste; estes eram presos em rusgas pelos SS e transportados até fábricas. Lá, eram obrigados a dormir ao relento e não lhes era fornecida alimentação; ao fim de uns dias morriam e eram substituídos por outros. Speer numa reunião com os industriais alemães (estamos a falar de civis e não nazis empedernidos) reclamou que não lhes fornecia mais prisioneiros, que passassem a alimentá-los e cuidassem deles. Himmler secundou Speer, e os industriais tiveram de se inclinar (os SS estavam fartos de ser eles a ter de fazer rusgas, trabalho indigno e para se matar devia-se fazer com ordem e disciplina). Por horrível que pareça, as condições nas fábricas conseguiam ser piores do que nos campos de concentração. Por que é que não se fala dessa situação? É que os industriais, terminada a guerra foram utilizados pelos aliados para reconstruir o país e muitas dessas empresas ainda agora existem; os SS pelo contrário eram excelentes bodes expiatórios por tudo o que ocorrera de mal no país (isto não pretende retirar-lhes a culpa dos seus crimes, apenas dizer que outros fizeram o mesmo e que se saíram bem).
Speer descreveu no seu livro “Inside the Third Reich”, a sua carreira, o seu fascínio por Hitler, a sua crença e depois desilusão. Mas não fala das condições dos prisioneiros. Era considerado um bom homem, bom pai de família que fez o melhor que pode. E isso torna tudo muito mais assustador, pois não era um carrasco sanguinário como Kaltembrunner, ou sequer um homem medíocre, incapaz de distinguir o bem do mal como provavelmente Himmler.
Schelemberg era de outra têmpera. No seu livro “O labirinto”, diz que entrou no partido nazi porque era jovem, ambicioso e queria subir depressa. Não foi enganado, não era fanático. Galgou as escadas dos poderes da hierarquia e tornou-se o nº 2 de Himmler. Mas a sua actividade também o salvou da forca: dedicou-se aos serviços secretos e não às políticas de limpeza racial. Ficou assim a conhecer bem os meandros da política internacional e viu-se perante as exigências contraditórias dos seus superiores. Ajudou a salvar alguns adversários e mesmo judeus desde que isso não implicasse arriscar muito a sua pele. No seu livro não fala do que sucedeu aos judeus; não que tivesse problemas de consciência (isso nunca foi problema para ele), mas não era da sua esfera. Ficou mais conhecido por tentar convencer o seu chefe a destituir Hitler e fazer um acordo de paz com os aliados.
Não era um predador por natureza, mas não era um benfeitor, a tentar travar o sistema com um Canaris. Ficou extremamente desiludido quando no final da guerra quase não lhe ligaram, não o prenderam e deixaram ir à vida dele, pois significava que não davam grande importância; pior foi não o colocarem à frente de um grupo de alemães que fazia contra-espionagem aos soviéticos. Por vezes o crime não compensa muito.
Speer era um arquitecto talentoso que ganhou a admiração de Hitler. Tendo excelentes talentos de organização para as obras que lhe eram encomendadas, Hitler nomeou-o a meio da guerra ministro do armamento, achando que ele iria fazer um bom trabalho. Ora Speer fez mais que um bom trabalho: utilizando critérios de planificação de objectivos mas descentralização nas fábricas conseguiu triplicar a produção de armamento num ano e meio; permitiu assim que a Alemanha prosseguisse o esforço de guerra, prolongando a duração desta. Foi assim considerado pelos aliados a figura mais importante na Alemanha Nazi, mais importante que Himmler ou o próprio Hitler (qualquer um deles poderia ser substituído que nada mudaria no regime). Ora Speer quando foi julgado em Nuremberga foi o único que se considerou culpado: achava que independentemente de ter realizado ou não as acções de que era culpado, devido à sua conivência com o regime era de facto culpado. Esta atitude como a que é a seguir descrita valeu-lhe ser poupado à forca.
Depois da invasão da Polónia e URSS, para substituir a mão-de-obra alemã que estava recrutada, os nazis recorreram a escravos de leste; estes eram presos em rusgas pelos SS e transportados até fábricas. Lá, eram obrigados a dormir ao relento e não lhes era fornecida alimentação; ao fim de uns dias morriam e eram substituídos por outros. Speer numa reunião com os industriais alemães (estamos a falar de civis e não nazis empedernidos) reclamou que não lhes fornecia mais prisioneiros, que passassem a alimentá-los e cuidassem deles. Himmler secundou Speer, e os industriais tiveram de se inclinar (os SS estavam fartos de ser eles a ter de fazer rusgas, trabalho indigno e para se matar devia-se fazer com ordem e disciplina). Por horrível que pareça, as condições nas fábricas conseguiam ser piores do que nos campos de concentração. Por que é que não se fala dessa situação? É que os industriais, terminada a guerra foram utilizados pelos aliados para reconstruir o país e muitas dessas empresas ainda agora existem; os SS pelo contrário eram excelentes bodes expiatórios por tudo o que ocorrera de mal no país (isto não pretende retirar-lhes a culpa dos seus crimes, apenas dizer que outros fizeram o mesmo e que se saíram bem).
Speer descreveu no seu livro “Inside the Third Reich”, a sua carreira, o seu fascínio por Hitler, a sua crença e depois desilusão. Mas não fala das condições dos prisioneiros. Era considerado um bom homem, bom pai de família que fez o melhor que pode. E isso torna tudo muito mais assustador, pois não era um carrasco sanguinário como Kaltembrunner, ou sequer um homem medíocre, incapaz de distinguir o bem do mal como provavelmente Himmler.
Schelemberg era de outra têmpera. No seu livro “O labirinto”, diz que entrou no partido nazi porque era jovem, ambicioso e queria subir depressa. Não foi enganado, não era fanático. Galgou as escadas dos poderes da hierarquia e tornou-se o nº 2 de Himmler. Mas a sua actividade também o salvou da forca: dedicou-se aos serviços secretos e não às políticas de limpeza racial. Ficou assim a conhecer bem os meandros da política internacional e viu-se perante as exigências contraditórias dos seus superiores. Ajudou a salvar alguns adversários e mesmo judeus desde que isso não implicasse arriscar muito a sua pele. No seu livro não fala do que sucedeu aos judeus; não que tivesse problemas de consciência (isso nunca foi problema para ele), mas não era da sua esfera. Ficou mais conhecido por tentar convencer o seu chefe a destituir Hitler e fazer um acordo de paz com os aliados.
Não era um predador por natureza, mas não era um benfeitor, a tentar travar o sistema com um Canaris. Ficou extremamente desiludido quando no final da guerra quase não lhe ligaram, não o prenderam e deixaram ir à vida dele, pois significava que não davam grande importância; pior foi não o colocarem à frente de um grupo de alemães que fazia contra-espionagem aos soviéticos. Por vezes o crime não compensa muito.
Subscrever:
Mensagens (Atom)