uma achega
Os Pictos como povo constituem um enigma. Alguns especialistas defendem que seriam uma tribo celta, outros, por outro lado, crêem tratar-se de um povo mais antigo. Os escritores romanos sempre os destinguiram dos celtas da escócia, surpreendendo-se pela sua ferocidade e o hábito barbárico de se pintarem ou tatuarem.
Até o nome "Pictos" não ajuda, na medida em que deriva da palavra latina picti, que significa simplesmente "pintados" - uma referência às suas pinturas ou tatuagens de guerra. O nome que os Pictos davam a si mesmo perdeu-se.
As descrições dos Pictos traçam um retrato de um povo pequeno, robusto mas delgado, pele amarelecida, de todo diferentes dos Gauleses, cuja pele pálida, altura e constituição impressionavam os escritores romanos.
O folklore escocês fala dos "pechs". Ao longo dos séculos estes foram tornando-se numa raça mágica de fadas e duendes, mas muitos especialistas crêem que se trata duma "memória popular" dos Pictos, o que indica que seriam vistos pelos Celtas da Escócia como uma raça separada e não apenas uma tribo separada. A juntar com as diferenças físicas, parece que os Pictos poderiam ser os últimos vestígios da população pré-Celtica da Grã-Bretanha, mas não há certezas.
terça-feira, setembro 09, 2003
sábado, setembro 06, 2003
As Cruzadas vistas pelo Islão - parte I
O Mundo Muçulmano
Na altura das cruzadas a febre da conquista islâmica dos sécs. VIII e IX estava a esbater-se. Durante esta altura o Islão espalhava-se pelo Médio Oriente, Pérsia, África do Norte e Península Ibérica. As províncias deste vasto império eram governadas por sultões, de acordo com a autoridade do Califa, o descendente de Maomé e a figura política central do mundo muçulmano. Um dos mais conhecidos califas desta era foi Harun Al-Rashid, imortalizado nos fantásticos contos de As Mil e Uma Noites.
No entanto, nos finais do séc. XI o mundo islâmico estava fortemente dividido. Um Califado rival tinha ascendido no Egipto, Fatímida, descendentes de Ali Ibn Talid genro e sobrinho do Profeta, premissa esta utilizada para basear o seu poder, revoltando-se contra a autoridade de Abu Bakr, o primeiro Califa de Bagdad. Os apoiantes dos Fatímidas eram denominados Shi'ah i-Ali (os seguidores de Ali), ou Shi'itas. Os apoiantes do Califado Abassida de Bagdad eram Sunitas, porque, segundo o seu ponto de vista, seguiam a Sunna (o caminho, a via) de Maomé. Estas seitas eram rivais políticos, não religiosos, e os membros das duas facções políticas eram muçulmanos, observando o Corão, a Sharia e os Pilares do Islão.
Enquanto o Califa Fatímida conservava a sua soberania, o Califado de Bagdad era essencialmente um fantoche dos Turcos, na medida em que a tribo Seljúcida tinha rumado desde a Ásia Central até terem conquistado grande parte da Pérsia e capturado Bagdad em 1055. Em 1071 derrotaram o exército Bizantino, do qual resultou o diálogo entre o Imperador Bizantino e o Papa que apelou à Primeira Cruzada.
Os Seljúcidas converteram-se ao Islão e mantiveram o Califa em Bagdad, mas o sultão turco detinha as rédeas do poder de decisão a nível político e militar no mundo sunita, mantendo aquele os símbolos da sua posição e prestígio, os palácios, o respeito e o harim (harém). A majestosa cidade de Bagdad foi lentamente caindo na ruína, enquanto hordas de soldados turcos, normalmente alcoolizados, vagueavam pela cidade à noite, contribuindo ainda mais para o caos urbano. Durante as Cruzadas, o Califado de Bagdad era o símbolo vivo da decadência no mundo árabe e das suas irrecuperáveis glórias passadas.
Os príncipes turcos eram geralmente cruéis e não olhavam a meios para exterminarem possíveis rivais quando atingiam o poder, para que estes não o depusessem mais tarde. Normalmente isso incluía o harém do falecido pai, os seus meios-irmãos e, às vezes, alguns familiares mais próximos. Devido à brutalidade das guerras de sucessão, os turcos criaram a figura do atabeg para proteger o jovem herdeiro até que este atingisse a maioridade e pudesse lutar por ele próprio. Ás vezes um atabeg recusava-se a devolver o poder e, nesse caso, o antigo servo ou escravo acabaria por fundar a sua própria dinastia.
Embora o Sultão de Bagdad teoricamente controlasse todos os senhores turcos no seu império, na realidade as províncias eram praticamente independentes de qualquer autoridade central. Em cada província os príncipes turcos lutavam entre si pelo poder dinástico. Barkiyaruq, o sultão turco de Bagdad não era excepção: quando Al-Harawi chegou a Bagdad em 1099 protestando pela perda de Jerusalém, o sultão estava ocupado numa batalha no norte da cidade, lutando contra o seu próprio irmão, Maomé. Durante este conflito, que os árabes observavam com algum divertimento, Bagdad mudou de mãos entre os dois beligerantes oito vezes em menos de três anos.
A situação no Egipto não era melhor. A administração corrupta dos conselheiros, os vizires, levou à má gestão do governo sob a autoridade teorética do Califa Fatímida. Todos os anos os vizires egípcios enviavam exércitos para reconquistar Jerusalém. Estas campanhas eram caracterizadas por falta de planeamento. Embora os recursos do Egipto fossem constantes e às vezes derrotassem os Firanj (os francos, os europeus) em batalha, os ineptos vizires fatímidas nunca reconquistaram Jerusalém.
Durante a Primeira Cruzada, as maiores potências políticas do mundo islâmico eram impotentes face aos cruzados. Pela Síria, Pérsia e Anatólia, os príncipes turcos lutavam constantemente contra os seus parentes. Em Bagdad os Turcos forçaram o califa Abássida a retirar-se para os prazeres perfumados do seu harém. Os vizires egípcios apoderavam-se da administração e operações militares do califado Fatímida. Em resumo, o mundo islâmico estava fragmentado, caótico, à mercê da conquista pelos firanj.
Na altura das cruzadas a febre da conquista islâmica dos sécs. VIII e IX estava a esbater-se. Durante esta altura o Islão espalhava-se pelo Médio Oriente, Pérsia, África do Norte e Península Ibérica. As províncias deste vasto império eram governadas por sultões, de acordo com a autoridade do Califa, o descendente de Maomé e a figura política central do mundo muçulmano. Um dos mais conhecidos califas desta era foi Harun Al-Rashid, imortalizado nos fantásticos contos de As Mil e Uma Noites.
No entanto, nos finais do séc. XI o mundo islâmico estava fortemente dividido. Um Califado rival tinha ascendido no Egipto, Fatímida, descendentes de Ali Ibn Talid genro e sobrinho do Profeta, premissa esta utilizada para basear o seu poder, revoltando-se contra a autoridade de Abu Bakr, o primeiro Califa de Bagdad. Os apoiantes dos Fatímidas eram denominados Shi'ah i-Ali (os seguidores de Ali), ou Shi'itas. Os apoiantes do Califado Abassida de Bagdad eram Sunitas, porque, segundo o seu ponto de vista, seguiam a Sunna (o caminho, a via) de Maomé. Estas seitas eram rivais políticos, não religiosos, e os membros das duas facções políticas eram muçulmanos, observando o Corão, a Sharia e os Pilares do Islão.
Enquanto o Califa Fatímida conservava a sua soberania, o Califado de Bagdad era essencialmente um fantoche dos Turcos, na medida em que a tribo Seljúcida tinha rumado desde a Ásia Central até terem conquistado grande parte da Pérsia e capturado Bagdad em 1055. Em 1071 derrotaram o exército Bizantino, do qual resultou o diálogo entre o Imperador Bizantino e o Papa que apelou à Primeira Cruzada.
Os Seljúcidas converteram-se ao Islão e mantiveram o Califa em Bagdad, mas o sultão turco detinha as rédeas do poder de decisão a nível político e militar no mundo sunita, mantendo aquele os símbolos da sua posição e prestígio, os palácios, o respeito e o harim (harém). A majestosa cidade de Bagdad foi lentamente caindo na ruína, enquanto hordas de soldados turcos, normalmente alcoolizados, vagueavam pela cidade à noite, contribuindo ainda mais para o caos urbano. Durante as Cruzadas, o Califado de Bagdad era o símbolo vivo da decadência no mundo árabe e das suas irrecuperáveis glórias passadas.
Os príncipes turcos eram geralmente cruéis e não olhavam a meios para exterminarem possíveis rivais quando atingiam o poder, para que estes não o depusessem mais tarde. Normalmente isso incluía o harém do falecido pai, os seus meios-irmãos e, às vezes, alguns familiares mais próximos. Devido à brutalidade das guerras de sucessão, os turcos criaram a figura do atabeg para proteger o jovem herdeiro até que este atingisse a maioridade e pudesse lutar por ele próprio. Ás vezes um atabeg recusava-se a devolver o poder e, nesse caso, o antigo servo ou escravo acabaria por fundar a sua própria dinastia.
Embora o Sultão de Bagdad teoricamente controlasse todos os senhores turcos no seu império, na realidade as províncias eram praticamente independentes de qualquer autoridade central. Em cada província os príncipes turcos lutavam entre si pelo poder dinástico. Barkiyaruq, o sultão turco de Bagdad não era excepção: quando Al-Harawi chegou a Bagdad em 1099 protestando pela perda de Jerusalém, o sultão estava ocupado numa batalha no norte da cidade, lutando contra o seu próprio irmão, Maomé. Durante este conflito, que os árabes observavam com algum divertimento, Bagdad mudou de mãos entre os dois beligerantes oito vezes em menos de três anos.
A situação no Egipto não era melhor. A administração corrupta dos conselheiros, os vizires, levou à má gestão do governo sob a autoridade teorética do Califa Fatímida. Todos os anos os vizires egípcios enviavam exércitos para reconquistar Jerusalém. Estas campanhas eram caracterizadas por falta de planeamento. Embora os recursos do Egipto fossem constantes e às vezes derrotassem os Firanj (os francos, os europeus) em batalha, os ineptos vizires fatímidas nunca reconquistaram Jerusalém.
Durante a Primeira Cruzada, as maiores potências políticas do mundo islâmico eram impotentes face aos cruzados. Pela Síria, Pérsia e Anatólia, os príncipes turcos lutavam constantemente contra os seus parentes. Em Bagdad os Turcos forçaram o califa Abássida a retirar-se para os prazeres perfumados do seu harém. Os vizires egípcios apoderavam-se da administração e operações militares do califado Fatímida. Em resumo, o mundo islâmico estava fragmentado, caótico, à mercê da conquista pelos firanj.
quinta-feira, setembro 04, 2003
Esclarecimentos
Vou fazer alguns esclarecimentos em relação a algumas personagens do último post.
Kaltenbrunner- Alto dignatário da Gestapo e das SS, chefe da SD (uma espécie de polícia de segurança). Era em última análise responsável pelo envio de presos para os campos de concentração e execução nos campos de extermínio. Foi condenado a ser enforcado no julgamento de Nuremberga (a sua justificação é que se limitava a receber as ordens de Hitler e Himmler).
Canaris- Grande Almirante e chefe da Abwehr (serviços de espionagem do exército). Detestando os nazis, forneceu informações aos aliados, ajudou a salvar
muitos adversários destes, tentou organizar vários golpes de estado que falharam todos. Acabou executado em Abril de 1945 pelas SS (parece que Himmler sabia da sua culpa desde 1943, mas nunca agiu até que o fez por medo que um dos seus subordinados o fizesse, embora seja impossivel saber o que de facto pretendia).
Himmler- Chefe da Gestapo, SS, mais fiel seguidor de Hitler (até as coisas desabarem), responsável pela política de extermínio, etc. Era uma pessoa muito tímida e afável, que gostava de agradar aos seus interlocutores: por exemplo era capaz de servir uma chávena de café e torradas a um dos seus subordinados enquanto se discutia uma nova forma de gaseamento ou o que fazer a uma determinada população numa reunião. Isto não é piada, acontecia mesmo, e mostra o grau de alienação dos nazis.
Mais uma informação: para quem acha estranho existirem 2 serviços secretos, fique saber que existia ainda um terceiro a cargo do ministério dos negócios estrangeiros. Hitler gostava de organizar serviços paralelos com as mesmas funções para competirem entre si. Normalmente acabava num atropelo de funções e sabotagem mútua; os nazis apesar da tradição alemã eram muito pouco eficientes.
Kaltenbrunner- Alto dignatário da Gestapo e das SS, chefe da SD (uma espécie de polícia de segurança). Era em última análise responsável pelo envio de presos para os campos de concentração e execução nos campos de extermínio. Foi condenado a ser enforcado no julgamento de Nuremberga (a sua justificação é que se limitava a receber as ordens de Hitler e Himmler).
Canaris- Grande Almirante e chefe da Abwehr (serviços de espionagem do exército). Detestando os nazis, forneceu informações aos aliados, ajudou a salvar
muitos adversários destes, tentou organizar vários golpes de estado que falharam todos. Acabou executado em Abril de 1945 pelas SS (parece que Himmler sabia da sua culpa desde 1943, mas nunca agiu até que o fez por medo que um dos seus subordinados o fizesse, embora seja impossivel saber o que de facto pretendia).
Himmler- Chefe da Gestapo, SS, mais fiel seguidor de Hitler (até as coisas desabarem), responsável pela política de extermínio, etc. Era uma pessoa muito tímida e afável, que gostava de agradar aos seus interlocutores: por exemplo era capaz de servir uma chávena de café e torradas a um dos seus subordinados enquanto se discutia uma nova forma de gaseamento ou o que fazer a uma determinada população numa reunião. Isto não é piada, acontecia mesmo, e mostra o grau de alienação dos nazis.
Mais uma informação: para quem acha estranho existirem 2 serviços secretos, fique saber que existia ainda um terceiro a cargo do ministério dos negócios estrangeiros. Hitler gostava de organizar serviços paralelos com as mesmas funções para competirem entre si. Normalmente acabava num atropelo de funções e sabotagem mútua; os nazis apesar da tradição alemã eram muito pouco eficientes.
quarta-feira, setembro 03, 2003
O mal e o mal
Albert Speer e Schelemberg são duas figuras menos conhecidas que os nazis de primeiro plano. Mas ambas merecem ser conhecidas pelos respectivos papeis do que eram os nazis não convictos do regime e que provavelmente representava a maioria.
Speer era um arquitecto talentoso que ganhou a admiração de Hitler. Tendo excelentes talentos de organização para as obras que lhe eram encomendadas, Hitler nomeou-o a meio da guerra ministro do armamento, achando que ele iria fazer um bom trabalho. Ora Speer fez mais que um bom trabalho: utilizando critérios de planificação de objectivos mas descentralização nas fábricas conseguiu triplicar a produção de armamento num ano e meio; permitiu assim que a Alemanha prosseguisse o esforço de guerra, prolongando a duração desta. Foi assim considerado pelos aliados a figura mais importante na Alemanha Nazi, mais importante que Himmler ou o próprio Hitler (qualquer um deles poderia ser substituído que nada mudaria no regime). Ora Speer quando foi julgado em Nuremberga foi o único que se considerou culpado: achava que independentemente de ter realizado ou não as acções de que era culpado, devido à sua conivência com o regime era de facto culpado. Esta atitude como a que é a seguir descrita valeu-lhe ser poupado à forca.
Depois da invasão da Polónia e URSS, para substituir a mão-de-obra alemã que estava recrutada, os nazis recorreram a escravos de leste; estes eram presos em rusgas pelos SS e transportados até fábricas. Lá, eram obrigados a dormir ao relento e não lhes era fornecida alimentação; ao fim de uns dias morriam e eram substituídos por outros. Speer numa reunião com os industriais alemães (estamos a falar de civis e não nazis empedernidos) reclamou que não lhes fornecia mais prisioneiros, que passassem a alimentá-los e cuidassem deles. Himmler secundou Speer, e os industriais tiveram de se inclinar (os SS estavam fartos de ser eles a ter de fazer rusgas, trabalho indigno e para se matar devia-se fazer com ordem e disciplina). Por horrível que pareça, as condições nas fábricas conseguiam ser piores do que nos campos de concentração. Por que é que não se fala dessa situação? É que os industriais, terminada a guerra foram utilizados pelos aliados para reconstruir o país e muitas dessas empresas ainda agora existem; os SS pelo contrário eram excelentes bodes expiatórios por tudo o que ocorrera de mal no país (isto não pretende retirar-lhes a culpa dos seus crimes, apenas dizer que outros fizeram o mesmo e que se saíram bem).
Speer descreveu no seu livro “Inside the Third Reich”, a sua carreira, o seu fascínio por Hitler, a sua crença e depois desilusão. Mas não fala das condições dos prisioneiros. Era considerado um bom homem, bom pai de família que fez o melhor que pode. E isso torna tudo muito mais assustador, pois não era um carrasco sanguinário como Kaltembrunner, ou sequer um homem medíocre, incapaz de distinguir o bem do mal como provavelmente Himmler.
Schelemberg era de outra têmpera. No seu livro “O labirinto”, diz que entrou no partido nazi porque era jovem, ambicioso e queria subir depressa. Não foi enganado, não era fanático. Galgou as escadas dos poderes da hierarquia e tornou-se o nº 2 de Himmler. Mas a sua actividade também o salvou da forca: dedicou-se aos serviços secretos e não às políticas de limpeza racial. Ficou assim a conhecer bem os meandros da política internacional e viu-se perante as exigências contraditórias dos seus superiores. Ajudou a salvar alguns adversários e mesmo judeus desde que isso não implicasse arriscar muito a sua pele. No seu livro não fala do que sucedeu aos judeus; não que tivesse problemas de consciência (isso nunca foi problema para ele), mas não era da sua esfera. Ficou mais conhecido por tentar convencer o seu chefe a destituir Hitler e fazer um acordo de paz com os aliados.
Não era um predador por natureza, mas não era um benfeitor, a tentar travar o sistema com um Canaris. Ficou extremamente desiludido quando no final da guerra quase não lhe ligaram, não o prenderam e deixaram ir à vida dele, pois significava que não davam grande importância; pior foi não o colocarem à frente de um grupo de alemães que fazia contra-espionagem aos soviéticos. Por vezes o crime não compensa muito.
Speer era um arquitecto talentoso que ganhou a admiração de Hitler. Tendo excelentes talentos de organização para as obras que lhe eram encomendadas, Hitler nomeou-o a meio da guerra ministro do armamento, achando que ele iria fazer um bom trabalho. Ora Speer fez mais que um bom trabalho: utilizando critérios de planificação de objectivos mas descentralização nas fábricas conseguiu triplicar a produção de armamento num ano e meio; permitiu assim que a Alemanha prosseguisse o esforço de guerra, prolongando a duração desta. Foi assim considerado pelos aliados a figura mais importante na Alemanha Nazi, mais importante que Himmler ou o próprio Hitler (qualquer um deles poderia ser substituído que nada mudaria no regime). Ora Speer quando foi julgado em Nuremberga foi o único que se considerou culpado: achava que independentemente de ter realizado ou não as acções de que era culpado, devido à sua conivência com o regime era de facto culpado. Esta atitude como a que é a seguir descrita valeu-lhe ser poupado à forca.
Depois da invasão da Polónia e URSS, para substituir a mão-de-obra alemã que estava recrutada, os nazis recorreram a escravos de leste; estes eram presos em rusgas pelos SS e transportados até fábricas. Lá, eram obrigados a dormir ao relento e não lhes era fornecida alimentação; ao fim de uns dias morriam e eram substituídos por outros. Speer numa reunião com os industriais alemães (estamos a falar de civis e não nazis empedernidos) reclamou que não lhes fornecia mais prisioneiros, que passassem a alimentá-los e cuidassem deles. Himmler secundou Speer, e os industriais tiveram de se inclinar (os SS estavam fartos de ser eles a ter de fazer rusgas, trabalho indigno e para se matar devia-se fazer com ordem e disciplina). Por horrível que pareça, as condições nas fábricas conseguiam ser piores do que nos campos de concentração. Por que é que não se fala dessa situação? É que os industriais, terminada a guerra foram utilizados pelos aliados para reconstruir o país e muitas dessas empresas ainda agora existem; os SS pelo contrário eram excelentes bodes expiatórios por tudo o que ocorrera de mal no país (isto não pretende retirar-lhes a culpa dos seus crimes, apenas dizer que outros fizeram o mesmo e que se saíram bem).
Speer descreveu no seu livro “Inside the Third Reich”, a sua carreira, o seu fascínio por Hitler, a sua crença e depois desilusão. Mas não fala das condições dos prisioneiros. Era considerado um bom homem, bom pai de família que fez o melhor que pode. E isso torna tudo muito mais assustador, pois não era um carrasco sanguinário como Kaltembrunner, ou sequer um homem medíocre, incapaz de distinguir o bem do mal como provavelmente Himmler.
Schelemberg era de outra têmpera. No seu livro “O labirinto”, diz que entrou no partido nazi porque era jovem, ambicioso e queria subir depressa. Não foi enganado, não era fanático. Galgou as escadas dos poderes da hierarquia e tornou-se o nº 2 de Himmler. Mas a sua actividade também o salvou da forca: dedicou-se aos serviços secretos e não às políticas de limpeza racial. Ficou assim a conhecer bem os meandros da política internacional e viu-se perante as exigências contraditórias dos seus superiores. Ajudou a salvar alguns adversários e mesmo judeus desde que isso não implicasse arriscar muito a sua pele. No seu livro não fala do que sucedeu aos judeus; não que tivesse problemas de consciência (isso nunca foi problema para ele), mas não era da sua esfera. Ficou mais conhecido por tentar convencer o seu chefe a destituir Hitler e fazer um acordo de paz com os aliados.
Não era um predador por natureza, mas não era um benfeitor, a tentar travar o sistema com um Canaris. Ficou extremamente desiludido quando no final da guerra quase não lhe ligaram, não o prenderam e deixaram ir à vida dele, pois significava que não davam grande importância; pior foi não o colocarem à frente de um grupo de alemães que fazia contra-espionagem aos soviéticos. Por vezes o crime não compensa muito.
terça-feira, setembro 02, 2003
Comida inglesa deliciosa
Na primeira metade do séc. XV, o rei de Inglaterra Henrique VI era candidato ao trono francês. Possuindo a cidade de Paris, foi coroado rei de França. Por ocasião das festividades, foi dado um grande banquete no qual estavam convidados parte da população de Paris: a nobreza, clérigos, a burguesia, mesteirais e quem conseguisse entrar. Mas deu-se um pormenor desagradável: os cozinheiros eram ingleses. O resultado foi que os convidados não comeram quase nada devendo ficar para os criados (como era tradicional, os restos iam para os criados). Mas estes acharam-na também imprestável. Decidiu-se então dá-la aos hospitais (que na época funcionavam também em parte como albergues para pobres), mas mesmo os residentes não gostaram. Para os que acham que esta estória é mais uma prova de chauvinismo francês, ela foi relatada por um defensor da causa inglesa e que ficou contente quando viu a Joana d’Arc arder (é um clérigo anónimo de que apenas se sabe que ensinava na Universidade de Paris). Faz-nos duvidar da capacidade de evolução dos povos.
quinta-feira, agosto 28, 2003
Saló- II
Uma vez libertado, Mussolini proclamou a república de Saló (nome de uma pequena cidade do norte). O novo regime pretendia seria um fascismo renovado, com uma segunda “revolução”, sem as cedências feitas à burguesia, aristocracia e igreja, como em 1922, procurando ser populista. Na realidade iria tornar-se um estado fantoche ao serviço dos alemães. A maior parte do exército italiano fora desmobilizado ou internado em campos de concentração pelos alemães com o armistício. Novas forças seriam recrutadas, assim como um depuramento do velho partido fascista, pretendendo-se apenas duros e fieis à causa.. Na realidade essas forças serviriam sobretudo para o policiamento contra os partisans e caça aos judeus e outros adversários, tornando-os aos olhos da população meros esbirros dos nazis, sendo a legalidade representada pelo governo de Badoglio (toda a oposição aceitara apoia-lo momentaneamente, desde conservadores católicos até comunistas). A maior parte da frota italiana conseguira desertar para o campo aliado. A aviação seria dividida, acabando os aviadores de Saló por ser integrados na força aérea alemã. Na infantaria alguns dos voluntários terminariam nas SS. Estando o controle do território nas mãos alemãs, podemos estabelecer o fim da república de Saló em dois acontecimentos diferentes: a rendição do Reich e a execução de Mussolini em Abril de 1945.
quarta-feira, agosto 27, 2003
Marte
Já que o planeta Marte está aí próximo, aproveito para falar um pouco deste deus. Pai dos gémeos fundadores de Roma, deus da Guerra, parece que foi na origem um deus ligado à terra. Várias das suas características foram “emprestadas” do Ares grego. O seu culto era prestado sobretudo a nível institucional nas legiões, juntamente com a Vitória, embora alguns legionários a título individual também o adorassem. No entanto nos 2 primeiros séculos do império a preferência dos soldados ia para Fortuna, a deusa da sorte ou qualquer outra divindade que lhes pudesse assegurar a sua preservação física. Mesmo os imperadores romanos que se identificavam com deuses preferiam faze-lo com Júpiter ou Hércules. Marte nunca foi assim muito popular. Nos séculos seguintes antes do advento do cristianismo, os cultos orientais (sobretudo de Mitra), fizeram numerosos fiéis. Depois do estabelecimento do cristianismo, o culto foi abandonado (mau grado a breve tentativa de restauração do paganismo por Juliano o Apóstata em meados do séc. IV) no exército e desapareceu. Durante a Idade Média e o renascimento, a literatura e escultura usariam a figura de Marte (assim como de outros deuses) como figura simbólica.
O planeta mais próximo do nosso seria baptizado com o nome do velho deus do Lácio, e Holst faria depois da primeira Guerra Mundial uma música extremamente bélica. A literatura e cinemas contemporâneos manteriam o nome vivo, ligado à ficção científica.
O planeta mais próximo do nosso seria baptizado com o nome do velho deus do Lácio, e Holst faria depois da primeira Guerra Mundial uma música extremamente bélica. A literatura e cinemas contemporâneos manteriam o nome vivo, ligado à ficção científica.
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